Nas redes sociais, a rotina estampava fotos apaixonadas, trocas de beijos e declarações fervorosas de amor. Por trás das telas e dos muros do sistema prisional, contudo, a engenharia financeira que sustentava o braço mais violento do crime organizado no Distrito Federal operava a todo vapor.
Krislaine Albuquerque Miranda, companheira do presidiário Bruno da Silva Santarém Ataídes, o “Xita”, foi presa preventivamente nas primeiras horas dessa quinta-feira (29/10). Ela é apontada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) como uma das operadoras financeiras de um esquema de lavagem de dinheiro a serviço da facção Comboio do Cão (CDC).
A captura da investigada é o ponto alto da segunda fase da Operação Fittizia, deflagrada pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor). Sob forte aparato de segurança, um efetivo de 40 policiais civis cumpriu cinco mandados de prisão preventiva e medidas de estrangulamento patrimonial no DF (Ceilândia, Taguatinga, Vicente Pires e Planaltina) e no estado da Paraíba.
A derrocada do império financeiro do casal começou longe das planilhas contábeis, na violência explícita das ruas. Bruno Santarém, o “Xita”, é figura carimbada nos arquivos policiais.
Ele foi um dos executores do homicídio de Wagner Faria de Queiroz, o “Neném”, ocorrido em plena luz do dia, por volta de 12h15 do dia 13 de outubro de 2020, na movimentada Praça do DI, em Taguatinga. Meses depois, em 20 de janeiro de 2021, durante a Operação Judas, a polícia tentou capturar Xita em Samambaia.
Ao perceber o cerco, o criminoso fugiu em alta velocidade num Ford Ka branco e tentou atropelar um delegado de polícia. Nos imóveis ligados a ele, os agentes encontraram um arsenal de guerra: luvas, balaclavas, munições, colete balístico com o brasão da Polícia Militar do DF e uma pistola Glock 9 mm com numeração raspada e seletor de rajada.
Veja imagens do criminoso logo após o homicídio: A partir da prisão dele com documento falso, foram feitas varreduras desses dados e a Deaco localizou empresas abertas com a documentação fraudulenta.
Ela usava sua conta como “conta de passagem” para transacionar o dinheiro da facção. Quando finalmente foi capturado e recolhido ao Lote 8, Xita portava documentação de identidade falsa.
Foi esse detalhe que serviu de fio da meada para os investigadores da Draco. A varredura minuciosa nos dados do documento falso revelou uma teia imprevisível: empresas de fachada abertas em nome de terceiros e uma engrenagem bancária paralela operada por Krislaine.
O desdobramento da primeira fase da Operação Fittizia (deflagrada em novembro de 2024) já havia resultado em 14 prisões temporárias. O pente-fino do laboratório de lavagem de dinheiro nos dados fiscais, bancários e eletrônicos apreendidos expôs a função estratégica de Krislaine na organização crimonosa.
Segundo a investigação, a companheira de Xita disponibilizava suas próprias contas bancárias pessoais para servirem como “contas de passagem”. Grandes somas de dinheiro oriundas do tráfico de drogas, extorsões e homicídios eram depositadas e rapidamente repassadas para dispersar a origem ilícita dos recursos.
Com a conclusão do inquérito pela Draco, a 10ª Promotoria de Justiça Criminal de Taguatinga ofereceu denúncia formal contra o grupo. A Justiça acatou integralmente os pedidos e decretou a prisão preventiva de 15 investigados apontados como os operadores financeiros da facção.
Além dos mandados de prisão cumpridos nesta quinta-feira, a decisão judicial determinou o sequestro e bloqueio de dois novos imóveis localizados no Distrito Federal e em Goiás, além de manter o congelamento de outros três imóveis, veículos de luxo e contas bancárias previamente indisponibilizadas.
Os denunciados, incluindo o “casal do Cão”, responderão pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Se condenados ao final do processo criminal, as penas somadas em abstrato variam de 6 a 18 anos de reclusão, acrescidas de multa.
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