O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como "Mineiro", foi um dos alvos da terceira fase da Operação Carbono Oculto, realizada nesta quinta-feira (24). Proprietário da Entre Investimentos, Mineiro é acusado de usar a empresa para lavar dinheiro para a chamada máfia dos combustíveis.
A operação cumpre mandados de busca e apreensão em endereços ligados a 13 pessoas físicas e 19 empresas em sete estados. A investigação busca esclarecer o uso de estruturas financeiras na aquisição da distribuidora Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana, uma das maiores do país nesse setor. Segundo os investigadores, como forma de lavar dinheiro ilícito, Mineiro relatou ganhar 570 vezes na loteria, entre 1º de janeiro de 2020 e 30 de junho de 2025, totalizando mais de R$ 176 milhões em premiações.
"Além de substanciar os seus canais financeiros para o crime organizado, a Entre Investimentos também pratica múltiplas fraudes, como a confusão patrimonial entre as suas empresas, bem como atos orientados para a lavagem de capitais, como o alto índice de movimentação de valores perante as lotéricas e o fato do investigado “Mineiro” ter sido contemplado em mais de 500 vezes como ganhador de apostas, sinal de que utiliza a remessa de recursos ilícitos para apostas e o seu retorno se torna uma etapa fundamental da reciclagem do dinheiro", diz o trecho de um relatório do Ministério Público de São Paulo, obtido pelo GLOBO.
Terceira fase A operação é realizada pela Receita Federal, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), pelas secretarias da Fazenda e Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, além das polícias Militar e Civil, com apoio dos Gaecos de Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. A investigação aponta a participação de operadores do mercado financeiro na criação de estruturas para ocultar os verdadeiros donos de uma usina sucroalcooleira e, posteriormente, viabilizar a compra da distribuidora de combustíveis. Segundo a apuração, os envolvidos teriam sobreposto fundos de investimento, holdings, empresas patrimoniais, empresas de fachada e instituições financeiras para dificultar a identificação dos beneficiários finais. Entre os alvos de busca desta quinta estão endereços ligados a Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial; seus irmãos, André e Bruno Tupinambá; além de Mineiro. O GLOBO tenta contato com as defesas.
De operador financeiro do "Dark Horse" a delator No início do mês, a Polícia Federal afirmou ao Supremo Tribunal Federal que Mineiro era descrito como “pioneiro nas Bahamas”, em razão de estruturas offshore que teria montado no país caribenho. A informação consta de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citado pela PF ao pedir a abertura de uma investigação específica sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Cumpre ressaltar que Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como "Mineiro", não é um intermediário financeiro de perfil convencional. O RIF nº 144413 destaca que Freixo é descrito publicamente como "pioneiro nas Bahamas" em razão de estruturas offshore que teria montado naquele país, tradicionalmente considerado um paraíso fiscal”, escreve a corporação em documento incluído nas investigações relacionadas ao filme. A referência ao histórico de Freixo nas Bahamas aparece na representação da PF justamente quando os investigadores detalham a estrutura financeira usada para os aportes no filme. O empresário disse que realizou sete remessas para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, que totalizaram US$ 12,3 milhões em 2025. O fundo fica sediado nos Estados Unidos, é administrado por Paulo Calixto, próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e foi usado para o financiamento de “Dark Horse”. Freixo confirmou as transferências em seu acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Segundo o relato do delator, os pagamentos foram realizados a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em nota, o Banco Genial informa que "Humberto Tupinambá não integra a diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição". Veja a nota completa abaixo. "Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis. No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.
A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados." A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários.
O Globo