O Banco Genial assumiu a gestão de um fundo de investimentos ligado a uma usina suspeita de estar envolvida em esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), mesmo após o compliance do próprio banco alertar sobre fraudes do dono da usina. Um ex-diretor do banco é alvo de uma mandado de busca e apreensão no âmbito da terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24).
Carbono Oculto 3: operador de Vorcaro e delator do caso Master ganhou 570 vezes na loteria, totalizando R$ 176 milhões Segundo investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), tudo começa quando, em agosto de 2024, o Banco Genial passa a controlar o Radford Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado, cujo único cotista era a Usina Itajobi.
A usina tinha passado por recuperação judicial em 2019, mas havia sido adquirida pelo Grupo Entre (da fintech Entrepay Pagamentos) em 2023. São donos do Grupo Entre os empresários Antonio Carlos Freixo e Julia Grasiela de Oliveira Freixo. Antes do Banco Genial adquirir o fundo Radford, o compliance da instituição alertou que a Entre Investimentos e Antonio Carlos Freixos já haviam sido responsabilizados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por fraudes bancárias. Mesmo assim, o banco seguiu com a operação e passou a controlar o fundo.
O fundo então incluiu cotas de outro fundo, o Toulouse Fundo de Investimentos Multimercado Crédito Privado (sob gestão da Altinvest), e por Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) emitidos por duas holdings, a Berna Holdings LTDA e a Branson Holdings LTDA. Uma parte menor do saldo era aplicado na renda fixa ligado ao próprio banco. O próprio banco informou ao MP-SP que aceitou a entrada das duas holdings no fundo pelo “perfil” de Paulo Narcélio Simões do Amaral, que criou as empresas, por ser “um empresário conhecido no mercado e com experiência no setor de energia”.
A partir da constituição do fundo Radford, começa uma complexa movimentação financeira entre todos estes atores que, segundo o MP-SP, possui “características de atos dissimulatórios para a lavagem de capitais e blindagem patrimonial, frente a relação circular assumida perante as negociações”.
Operações serviriam para ocultar compra de distribuidora Na visão do MP-SP, o fundo Radford foi usado, em última instância, para ocultar a compra, pela Usina Itajobi, de imóveis em Los Angeles, nos Estados Unidos, e da Tobras Distribuidora de Combustíveis LTDA, conhecida como Terrana. Tanto a usina quanto a distribuidora eram usadas no amplo esquema de lavagem de dinheiro para o PCC, segundo o MP-SP. Uma das transações analisadas pelos investigadores que apontam para isso ocorreu em dezembro de 2024. A Branson Holdings tem como dono Paulo Narcélio Simões do Amaral, que emitiu uma Cédula de Crédito Bancária (CCB) para o Genial no total de R$ 99,8 milhões, com juros de 13,9% ao ano. O Banco, por sua vez, pegou esse recurso e transferiu para uma conta bancária pessoal de Paulo Narcélio, no próprio Genial.
Em contrapartida, ficou acertado que o banco receberia da Branson Holdings um pagamento de parcelas semestrais de R$ 18,7 milhões, o que totalizaria R$ 150,2 milhões. Segundo as informações prestadas pelo banco ao MP, essa espécie de “empréstimo” seria usado para que a Branson Holdings comprasse o controle da Tramp Oil Brasil LTDA, que importa derivados de petróleo do Brasil.
Mas, para o MP, o objetivo real era ocultar a compra da distribuidora Terrana pela Usina Itajobi. Isso porque a Tramp Oil Brasil (que após a operação virou Branson Oil Brasil LTDA) era a controladora da Terrana, que é uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Sudeste e do Centro-Oeste do país, com um faturamento mensal médio de R$ 445 milhões. Na prática, o Banco Genial avalizou a garantia da emissão dos CCBs da Branson Holding, que comprou a Tramp Oil e, por consequência, a Terrana. Mas como tudo isso foi feito com recursos do Fundo Hadford, que tem como cotista a Usina Itajobi, era a usina, ao fim e ao cabo, que estaria comprando a distribuidora. "Em outras palavras, a Usina Itajobi teria potencialmente 'adquirido' a distribuidora Terrana, por intermédio de uma complexa camada de negociações financeiras Ostensivamente, manteve como proprietária a Branson porém, cujos direitos creditórios pertencem totalmente ao Fundo Radford, que possui como cotista exclusivo a usina sucroalcooleira", destaca o MP.
Conexões com o crime organizado O elo com o PCC se dá porque a Usina Itajobi, segundo o MP, foi financiada pela Aster Petróleo, que já havia sido alvo da primeira fase da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025. A Aster Petróleo e a Copape Produtos de Petróleo pertencem aos empresários Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", e Renato Steinle de Camargo, e eram usadas no esquema de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos em todo o setor de combustíveis de oito estados.
Mas esse “financiamento pela Aster”, segundo o MP, não foi direto e usou de uma série de artifícios financeiros que ajudaram a esconder a origem verdadeira dos recursos. A Aster enviou R$ 100 milhões em dinheiro por intermédio de contas bolsões da BK Instituição de Pagamento, por múltiplas camadas, até que o valor chegou à Usina Itajobi. Primeiro, a Aster enviou o dinheiro para a SM Serviços (que seria “caixa 2” da facção). A SM remeteu o recurso para a Distribuidora Duvale, que enfim transferiu o dinheiro para a Usina Itajobi.
“Os valores circularam com diferença de poucos minutos entre as contas bancárias. A Usina Itajobi aportou os R$ 100 milhões perante o Radford”, explicou o MP-SP no inquérito. Isso ocorreu em julho de 2024.
Outra conexão entre o grupo de Mohamad Hussein e o Fundo Radford foi que tanto a Branson Holdings quanto a Berna Holdings, que faziam parte do fundo, foram constituídas em 4 de setembro de 2024 (um mês antes dos aportes nos fundos), ambas informando como sede um escritório na Rua Cardeal Arcoverde, 2365, “endereço amplamente utilizado pelo grupo Mohamad”.
Humberto Tupinambá, ex-diretor do Banco Genial (ele deixou o banco em maio de 2026, segundo informou a instituição em nota), foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta quinta-feira (24). De acordo com as investigações, ele mesmo seria uma das conexões intermediou a aquisição da Terrana pela Usina Itajobi.
Isso porque Paulo Narcélio (o dono da Berna e da Branson Holdings) conversava, por WhatsApp, com Rogério Peres, advogado da Terrana, sobre a aquisição da distribuidora. E o mesmo Paulo conversava com Humberto com frequência, repassando as mensagens de Rogério, sobre essa operação. Segundo o MP, Humberto, junto com seus irmãos André Tupinambá e Bruno Tupinambá, que são empresários, "elaboraram o projeto de aquisição da Terrana em coautoria com Beto Loko e Mohamad" por meio de Paulo Narcélio.
Em uma das conversas, de novembro de 2024, Paulo Narcélio fala de uma divergência nos valores para a compra da Terrana e diz que "depende do Primo", ao que Humberto responde "vou falar com ele". E segundo o MP, o empresário André Tupinambá atuava como a ponte direta entre a instituição financeira e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, proprietários da Copape e da Aster, ambos foragidos. Em nota, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá foi destituído do banco em maio e que, após tomar conhecimento das irregularidades envolvendo o fundo e o então diretor, o banco renunciou à administração do Fundo Rartford, afastou o diretor e aprimorou seus processos de controle. Veja a nota abaixo: "Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao Gaeco-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.
No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época. A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição.
A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados. A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários."
O Globo