"Após o incêndio que atingiu suas instalações emjunho passado, o Café Lamas, tradicional endereço da boemia carioca, anunciou, para o júbilo de seus frequentadores, que reabrirá suas portas no próximo dia [21 de outubro]. Com mais de 150 anos de história, o Lamas atravessou diferentes épocas e recebeu inúmeras personalidades. Quando o Rio de Janeiro ainda era capital federal, o restaurante funcionava no Largo do Machado e tinha entre seus frequentadores Getúlio Vargas, dada a proximidade ao Palácio do Catete. Mais tarde, mudou-se para o atual endereço, na rua Marquês de Abrantes, levando consigo uma história que se confunde com a da própria cidade. Conhecido simplesmente como Lamas, sobrenome de seu fundador, é um dos restaurantes mais tradicionais da cidade e um verdadeiro patrimônio do Rio de Janeiro e do Brasil. Sobreviveu ao pério, à República Velha, à Era Vargas e à transferência da capital para Brasília. É lugar de memória e convivência, profundamente associado à identidade da cidade Enquanto alguns estabelecimentos são conhecidos pela comida que servem e outros, pelas bebidasque oferecem, o Lamas vai muito além disso: serve também tempo e história. Entrar no Lamas é como atravessar uma porta secreta por onde o Rio de Janeiro insiste em permanecer o mesmo, apesar de tudo, na contramão das transformações que redesenham a cidade. Há uma filosofia silenciosa naquele salão: ninguém entra no Lamas para ter pressa. Durante um longo período, fui frequentador assíduo da casa, que visitava semanalmente, quase sempre na companhia de amigos, entre eles o saudoso poeta Alexei Bueno. Permanecíamos aliaté o fechamento, quando os garçons começavam a empilhar as cadeiras sobre as mesas, num silencioso aviso de que a noite, enfim, chegara ao fim. Foram incontáveis as histórias vividas naquelas mesas, cercadas por paredes espelhadas que oferecem diferentes ângulos de observação do salão. Gosto particularmente de imaginar quantas outras histórias continuam repousando ali, guardadas entre as mesas. Sim, os restaurantes também guardam segredos. As mesas testemunham as emoções de seus ocupantes: os silêncios felizes, os brindes inesperados, as lágrimas discretas e as reconciliações improváveis que, por vezes, parecem fazer o próprio salão sorrir. Os garçons do Lamas merecem um capítulo à parte. Sempre impecavelmente trajados com o clássico uniforme de paletó branco e gravata preta, fazem parte da própria alma da casa. Como não lembrar de Vieira, Costa, Mauro, Pedro, Costinha, João, Antônio e José Mello, entre tantos outros?Mais do que funcionários, eram — e continuam sendo, aqueles que permanecem — personagens fundamentais daquele teatro cotidiano. Conheciam os fregueses pelo nome, sabiam seus pedidos habituais e dominavam uma arte cada vez mais rara de encontrar: servir sem interromper a conversa. O Lamas nos devolve uma riqueza que a cidade parece ter esquecido: o direito de permanecer. Permanecer sentado mais um pouco. Pedir outro chope sem culpa, adiando a despedida. Conversar até que a tarde escorra lentamente para dentro da noite — ou que a noite se prolongue pela madrugada —, como se o relógio, por delicadeza, resolvesse caminhar mais devagar. Talvez esse seja o maior segredo da casa. Mais do que preservar um cardápio ou uma decoração, o Lamas mantém viva uma forma de viver o Rio. Lá florescem a conversa sem pressa, o prazer da permanência, a observação da vida e a celebração das amizades em torno da mesa. Para muitos cariocas, o Lamas é mais do que um restaurante: é um lugar onde a história do Rio continua sendo servida. O Rio muda todos os dias. Sobrados são derrubados, cinemas fecham as portas, botequins tradicionais desaparecem em nome da modernidade, como se o Rio sentisse vergonha de envelhecer. O Lamas faz exatamente o contrário. Envelhece sem pedir desculpas. E talvez essa seja sua maior beleza. Porque a velhice, quando é digna, não é decadência. É memória viva. saio sempre dali um pouco melhor do que entrei. Durante algumas horas, tenho a impressão de que a vida ainda sabe andar no ritmo de uma conversa sem destino, de um chope servido no tempo certo e de um garçom que compreende que ninguém deve ser apressado quando está sendo feliz. É por isso que volto sempre ao Lamas. *Texto de Guilherme Studart
Café Lamas pelo pesquisador Guilherme Studart: 'história da casa se confunde com a história do Rio
Fonte da notícia:
O Globo
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