Bússola do amanhã: como o Ensino Superior pode guiar o Estado rumo ao ES 500 Anos?

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Fonte da notícia: A Gazeta A Gazeta

Projetar o Espírito Santo para 2035 não é mero exercício cartográfico; é um pacto com a nossa própria capacidade de reinvenção. O Plano ES 500 Anos traçou metas audaciosas: posicionar o Estado entre os líderes em inovação, produtividade e complexidade econômica.

Contudo, nenhuma transformação dessa magnitude se sustenta sem a engrenagem vital do conhecimento. É no chão das nossas salas de aula e laboratórios – com a reconhecida excelência da Ufes, a capilaridade do Ifes espalhada pelo território e o dinamismo das boas instituições privadas – que se gesta a matéria-prima do amanhã.

Para cruzar essa fronteira, todavia, o entusiasmo precisa dar lugar à intenção estratégica e à evidência empírica. Diagnósticos recentes do ecossistema de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), como os dados do boletim temático do OCTI/CGEE em parceria com a Fapes, e as diretrizes do Plano Estadual de CT&I (PCTI-ES) apontam para uma urgência incontornável: a expansão e o alinhamento da formação em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) com as vocações do estado. 

Essa coordenação exige um diálogo institucional permanente entre o governo estadual e as Instituições de Ensino Superior (IES) para sintonizar ainda mais a formação acadêmica às missões de desenvolvimento regional. Todavia, formar quadros qualificados resolve apenas metade da equação.

Como alerta o economista Paulo Feldmann (FEA/USP), o Brasil enfrenta um gargalo histórico no transbordamento econômico da ciência: enquanto em economias maduras como EUA e Japão cerca de 80% dos pesquisadores atuam diretamente no setor privado, no Brasil essa proporção cai para modestos 30%, mantendo a inteligência científica majoritariamente confinada ao setor público.

Essa desconexão reflete-se no desempenho tímido do país nos índices globais de inovação e cobra um preço alto em termos de produtividade. Superar esse entrave exige romper barreiras culturais e institucionais.

O Espírito Santo precisa abandonar a visão arcaica que isola o cientista no ecossistema acadêmico, adotando um modelo dinâmico em que a produção de conhecimento dialoga diretamente com o mercado.  O governo estadual, em articulação com as entidades empresariais, pode induzir essa convergência por meio de incentivos de via dupla: premiando o esforço de transferência de tecnologia dos pesquisadores e estimulando o setor privado a consumir e cofinanciar a pesquisa universitária capixaba.

Experiências consolidadas no país mostram que essa simbiose é o caminho: o Inatel impulsionou o Vale da Eletrônica em Santa Rita do Sapucaí (MG); o ITA fundamentou o polo aeronáutico de São José dos Campos (SP); e a COPPE-UFRJ converteu-se no motor tecnológico do setor de petróleo e gás no Rio de Janeiro.

O Espírito Santo dispõe de vocações maduras e emergentes para trilhar jornada análoga. Articulando os braços de fomento e financiamento – Fapes, SECTI, Sedes, bancos públicos estaduais e o Fundo Soberano (Funses) –, cabe ao Estado identificar e potencializar centros de pesquisa em áreas estratégicas – da bioeconomia à transição energética, saúde e agronomia –, garantindo também as condições para a incubação, aceleração e permanência de deep techs – startups nascidas de pesquisas científicas de ponta – em solo capixaba.

O futuro do Espírito Santo rumo a 2035 não se desenhará por inércia, mas pela coragem de integrar a excelência acadêmica à estratégia de desenvolvimento regional. Ao aproximar universidade, governo e setor produtivo sob a mesma bússola, o Estado poderá alcançar suas metas estratégicas e também se posicionar como um dos maiores faróis de inteligência, inovação e prosperidade sustentável do país.

Publicação Original A Gazeta agazeta.com.br
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