Burnout não é problema do trabalhador, mas do ambiente de trabalho

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A palavra burnout entrou no vocabulário cotidiano. Mas será que estamos usando o termo para descrever qualquer situação de cansaço, estresse ou insatisfação profissional? A psicóloga americana Christina Maslach, pioneira no estudo do esgotamento profissional, faz um alerta: “Se tudo é burnout, então nada é”.

A banalização da palavra pode desviar a atenção da questão central: o que acontece no ambiente de trabalho para que as pessoas adoeçam? Professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, Maslach desenvolveu o Maslach Burnout Inventory (MBI), ferramenta amplamente utilizada para avaliar o esgotamento.

O modelo considera três dimensões: exaustão emocional; cinismo ou distanciamento nas relações profissionais; e redução da eficácia, marcada pela sensação de incompetência ou de não conseguir realizar nada. Ela esteve recentemente no Brasil para participar do Mind Summit 2026, um dos principais encontros nacionais dedicados à ciência da saúde mental, do bem-estar e do desenvolvimento humano.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como fenômeno estritamente ocupacional e não como uma condição médica ou doença mental isolada. Maslach explica que ele é uma resposta à exposição prolongada a estressores no ambiente profissional, não uma falha individual.

— É normal reagirmos ao estresse, ou não estaríamos vivos. Toda vez que enfrentamos um desafio ou ameaça, nosso corpo e mente entram em estado de atenção para reagir com luta ou fuga.

O problema não é a resposta ao estresse, mas a falta de recuperação dessa condição. Não fomos feitos para ficar em estado de alerta 100% do tempo.

Depois de um pico de estresse, precisamos voltar ao estado normal — diz. A partir desse raciocínio, o foco deixa de ser o que há de errado com o funcionário e passa a ser o que precisa mudar no trabalho.

— O problema do burnout não é a pessoa, o funcionário, que precisa ser “arrumado”. É o ambiente de trabalho — resume.

Maslach identifica seis áreas em que a relação entre trabalhador e emprego pode se deteriorar: carga de trabalho, controle sobre as tarefas, reconhecimento e recompensa, pertencimento à equipe, tratamento justo e alinhamento entre valores pessoais e os da organização. A solução não depende necessariamente de grandes programas para toda a empresa.

A psicóloga defende mudanças localizadas, construídas com a participação dos trabalhadores. O caminho passa por colaborar, ouvindo as equipes; customizar, adaptando as ações a cada realidade; e se comprometer, mantendo o esforço e ajustando as iniciativas ao longo do tempo.

Uma pergunta pode iniciar esse processo: “Como poderíamos melhorar um pouco as coisas por aqui?”. A proposta é discutir regularmente o que pode ser aprimorado, com foco nas condições concretas de trabalho.

Maslach chega a recomendar que o próprio termo burnout seja deixado de lado nessas conversas. O debate é especialmente relevante no Brasil.

Dados do Ministério da Previdência Social indicam que os afastamentos por burnout cresceram 823% entre 2021 e 2025 no país. Ainda assim, oferecer terapia ou recomendar uma folga pode ser insuficiente se as causas do esgotamento permanecerem intactas.

Maslach compara a situação ao trabalho em altura: em vez de apenas garantir atendimento médico a quem cair, a empresa deve reduzir o risco de queda. Da mesma forma, se a principal estratégia para lidar com o estresse profissional é afastar o trabalhador do trabalho, há algo errado nas condições em que ele trabalha.

Quem apresenta sinais persistentes de exaustão deve procurar um profissional de saúde. Mas, para prevenir o burnout, é preciso olhar também para a origem do problema.

A pergunta decisiva não é apenas quem está sofrendo, mas por que isso acontece — e o que pode ser mudado no ambiente de trabalho.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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