BTS, Ed Sheeran: por que a decepção com ídolos causa sentimentos tão intensos?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

De astros da música a atores, diretores e atletas, a relação entre fãs e ídolos costuma ser marcada por admiração, identificação e vínculo emocional. Entretanto, quando uma celebridade se envolve em polêmicas, assume posições controversas ou adota comportamentos que entram em conflito com a imagem construída ao longo dos anos, esse vínculo pode ser abalado.

Nos últimos meses, diferentes controvérsias envolvendo famosos vieram à tona. Integrantes do grupo sul-coreano BTS foram muito criticados ao postarem fotos com Chris Brown, que tem histórico de violência doméstica.

A passagem da banda pelo Brasil nos últimos dias também deixou decepcionados ao simplificar a estrutura do palco brasileiro. Já o cantor britânico Ed Sheeran foi atacado após afastar da sua turnê um rapper que fez um discurso pró-Palestina.

Os casos reacenderam discussões sobre lealdade, valores e decepção. Embora muitos enxerguem essas reações como exageradas, especialistas afirmam que sentimentos como tristeza, raiva, frustração e até sensação de traição são comuns nesses casos.

Em alguns admiradores, a experiência pode até se assemelhar a um processo de luto. Para Adriana Amaral, professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do CNPq sobre culturas de fãs há mais de duas décadas, a decepção é parte da própria experiência de ser fã.

— Sempre existe uma espécie de pêndulo entre admiração e decepção. Ser fã é viver entre essas duas coisas — afirma.

— Hoje o tema está mais em evidência porque muitas dessas decepções estão relacionadas a posicionamentos de artistas, acusações, comportamentos controversos ou descobertas que desagradam os admiradores. Adriana destaca que a experiência de ser fã é individual e coletiva ao mesmo tempo.

Enquanto a obra conversa com a trajetória de cada um, quando o fã encontra outras pessoas que partilham do mesmo interesse, cria-se uma forma de pertencimento, sociabilidade e construção de identidade coletiva. O psiquiatra Luiz Dieckmann, diretor médico da TribleMD, explica que a conexão entre o fã e o ídolo é um vínculo parassocial:

— Essa relação é unilateral em termos de convivência, porque o ídolo não conhece pessoalmente aquele fã, mas o afeto sentido pode ser absolutamente verdadeiro. Quando alguém acompanha um artista durante muitos anos, suas músicas, filmes, livros ou falas acabam participando de momentos importantes da vida daquela pessoa.

O ídolo pode representar companhia, inspiração, pertencimento e até uma versão de quem o fã gostaria de ser. Segundo ele, os ídolos passam a ocupar um espaço relevante na biografia emocional de seus fãs, mesmo sem saber a intensidade dessa relação.

Entretanto, a mesma identificação que aproxima também pode gerar sofrimento quando um artista se envolve em uma controvérsia. Nessa situação, o choque costuma ser intenso e doloroso, e a forma como esse sentimento afeta a vida do fã deve ser observada com atenção.

— Quando admiramos alguém, criamos expectativas sobre essa pessoa. Se ela faz algo muito diferente da imagem que construímos, podemos sentir raiva, tristeza, frustração e até vergonha.

O sentimento em si não é um problema. O que precisa ser observado é sua intensidade, duração e o impacto na vida do fã — afirma Dieckmann.

De acordo com Adriana, a própria lógica da celebridade contribui para esse processo. — O que as pessoas conhecem é uma performance construída.

Não conhecemos a pessoa em si, conhecemos aquilo que o ídolo quer nos mostrar, o que aparece nas entrevistas, nos filmes, nas músicas ou nas redes sociais. Então, qualquer coisa que saia daquele roteiro que o fã criou pode gerar decepção.

Para o psiquiatra, muitas vezes a frustração é intensa porque o vínculo não é construído apenas em torno da obra. — O fã passa a associar o ídolo a valores, ideias e características com as quais se identifica.

Quando o artista faz algo contrário a essa imagem, pode surgir uma sensação de quebra de um contrato emocional — explica Dieckmann. Em alguns casos, essa ruptura também afeta a forma como a pessoa enxerga a si mesma pois quando o ídolo já faz parte da identidade do fã, a frustração pode ser vivida como um questionamento das próprias escolhas e valores.

A estudante de psicologia Bruna Lobato, de 28 anos, conhece bem essa experiência entre os dois sentimentos. Na adolescência, acompanhava intensamente a banda britânica One Direction quando recebeu a notícia de que Zayn Malik deixaria o grupo, em 2015.

— Chorei muito. Naquela época, os artistas que eu consumia eram uma válvula de escape.

Eu escrevia fanfics [histórias de romance escritas por fãs], criava outras realidades e eles eram parte importante disso. Quando o Zayn saiu da banda, mexeu com essa fantasia e trouxe as coisas para o real — lembra.

Hoje, Bruna acredita que o episódio gerou um impacto em sua saúde emocional. — Eu não tinha muita noção do que era ansiedade naquela época, mas acredito que aquilo engatilhou muitas coisas.

Ficava pensando o tempo todo no que ia acontecer. Atrelava muito o meu bem-estar ao fato de as coisas continuarem como eram — conta.

Anos mais tarde, Bruna experimentou sensação semelhante ao acompanhar a morte da estudante Ana Benevides em um show da Taylor Swift no Rio, em 2023, durante a Eras Tour. A postura da cantora americana foi contrária ao que a fã esperava.

— Foi um tapa na cara. A Taylor era a única artista com quem eu ainda sustentava uma relação parassocial muito forte — avalia.

Luizy Alves dos Reis, de 27 anos, também viu a imagem de um artista que admirava ruir ao longo dos anos. Fã de Ashton Kutcher desde a adolescência, a estudante de educação social conta que a decepção começou quando vieram à tona informações sobre o apoio do ator ao colega Danny Masterson, posteriormente condenado por estupro nos Estados Unidos.

— Eu estava assistindo à série The Ranch quando saiu toda a história. Fiquei sem chão e com nojo dele.

O Ashton saiu em defesa do Danny porque eles eram amigos fora das telas também, e aquilo me decepcionou muito — relembra. Ao buscar mais informações sobre a trajetória do ator, Luizy afirma que passou a revisitar conteúdos antigos sob uma nova perspectiva.

E mesmo depois de alguns anos, a decepção continua presente. Para Dieckmann, os relatos ilustram como o sofrimento nem sempre está relacionado à perda da obra produzida pelo artista e sim a imagem que existia daquele pela, o que significava que ela tinha e a história que o fã acreditava conhecer.

Embora a relação entre fã e ídolo não seja algo físico e direto, ela pode ativar mecanismos emocionais semelhantes aos observados em relações com pessoas próximas e presentes em nossa rotina. É por isso que muitos admiradores descrevem essas experiências como uma sensação de traição.

— O cérebro reage à quebra de expectativa, à perda de confiança e à sensação de ruptura mesmo quando não existia convivência direta. O cérebro não exige proximidade física para que um afeto seja legítimo — explica Dieckmann.

Segundo o psiquiatra, em algumas situações, o processo pode lembrar um luto. — Existe uma perda real, embora não seja necessariamente a perda da pessoa.

Muitas vezes, o que se perde é a imagem que existia dela, o significado que ela tinha e a história que o fã acreditava conhecer. — afirma — Isso tudo provoca uma negação, raiva, tristeza, tentativas de justificar o ocorrido e necessidade de reorganizar esse vínculo.

É bem semelhante ao processo de luto, mas sem equiparar a morte de alguém. Se parte dos admiradores se afasta após uma polêmica, outros seguem ao lado de seus ídolos mesmo diante de acusações graves ou comportamentos controversos.

Para Adriana, a resposta envolve fatores emocionais, sociais e econômicos. — Ser fã também é um investimento afetivo, emocional, cultural e econômico.

As pessoas investem tempo, dinheiro e constroem relações sociais dentro daquele universo. Quando surge uma polêmica, cada uma vai lidar com isso de uma forma diferente — explica.

— Há pessoas que não conseguem continuar consumindo aquele conteúdo porque determinadas questões são incompatíveis com seus valores. Outras conseguem separar a obra do artista.

Isso depende das experiências, das causas com as quais cada um se identifica e da importância daquele artista em sua trajetória. Apesar das possíveis frustrações, os especialistas ressaltam que ser fã está longe de ser algo negativo.

Pelo contrário. — Quando é saudável, ser fã pode fazer muito bem para o emocional.

Uma música, um livro, um filme ou mesmo a trajetória de alguém pode trazer conforto, inspiração, esperança e ajudar a pessoa a atravessar momentos difíceis — afirma Dieckmann. O alerta surge quando a admiração passa a comandar a vida da pessoa.

Entre os sinais de alerta estão gastos excessivos, abandono de relacionamentos ou responsabilidades, perda completa do senso crítico, invasão da privacidade do artista e sofrimento desproporcional diante de críticas ou polêmicas. — Admirar é saudável.

Anular a própria vida em função daquela pessoa, não. Diante de uma decepção, a orientação é reconhecer os sentimentos sem ridicularizá-los, reduzir a exposição ao assunto nas redes sociais e buscar apoio em vínculos reais.

— Nem sempre precisamos transformar alguém em perfeito ou completamente horrível. É possível admirar algumas partes, rejeitar outras e até se afastar por um tempo para reorganizar esse vínculo.

O importante é lembrar que nenhum ídolo deve ocupar um espaço maior do que a própria vida — conclui o psiquiatra. *Estagiária sob supervisão de Constança Tatsch

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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