O Brasil reúne um portfólio de US$ 310,1 bilhões em potencial de investimento em indústria limpa, distribuído em 33 projetos, e ocupa o quarto lugar no ranking global, atrás apenas de China (US$ 841,5 bilhões), Índia (US$ 434,4 bilhões) e Austrália (US$ 379,4 bilhões). Logo atrás, na quinta posição, aparece o Chile, com US$ 308,7 bilhões.
Os dados são da nova edição do Global Project Tracker (Rastreador Global de Projetos), divulgada nesta quarta-feira (04) pela Mission Possible Partnership (MPP) e apoiada pelo Industrial Transition Accelerator (ITA). A MPP é uma organização sem fins lucrativos que trabalha desde 2019 com setores intensivos em energia, como alumínio, cimento, químicos, transporte marítimo, aviação e aço.
O ITA é uma iniciativa global lançada na COP28 para catalisar a descarbonização da indústria pesada e do transporte, que respondem por um terço das emissões globais. Lançado em abril de 2024, o rastreador acompanha projetos industriais limpos em escala comercial alinhados a trajetórias de descarbonização profunda.
A maior parte do potencial brasileiro, porém, ainda está no papel. Dos 33 projetos mapeados no país, apenas um atingiu a Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês) nos últimos 12 meses: a biorrefinaria da Acelen Renováveis em São Francisco do Conde (BA).
“A Acelen é a única FID em escala comercial no Brasil durante esse período de 12 meses, e uma de apenas duas em toda a América Latina”, disse ao Prática ESG Marc Farré Moutinho, líder para as Américas da Mission Possible Partnership, em entrevista exclusiva. A Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês) é a etapa em que a empresa e seus financiadores aprovam definitivamente o projeto e comprometem os recursos para construí-lo, deixando para trás a fase de estudos, licenciamento e negociações.
Segundo ele, outros 29 projetos foram anunciados e estão em diferentes estágios de desenvolvimento: 24 de amônia verde, quatro de metanol limpo e mais um de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês). Completam a lista três fábricas tradicionais de alumínio movidas a energia hidrelétrica, que já estão em operação.
“O nível de maturidade varia amplamente. Contudo, as chances de o pipeline se materializar aumentariam substancialmente se as condições adequadas estivessem em vigor”, afirmou.
Marc Farré Moutinho, líder para as Américas da Mission Possible Partnership Divulgação
Do total de US$ 310,1 bilhões, US$ 221,4 bilhões são destinados à infraestrutura de energia renovável e US$ 88,6 bilhões a ativos de produção industrial. De acordo com Moutinho, a parcela de energia inclui armazenamento em baterias e expansão de infraestrutura, além de geração limpa.
“O acesso à energia renovável barata é um fator decisivo para onde o investimento se destina. Com sua abundante energia limpa proveniente de fontes renováveis, o Brasil possui uma vantagem competitiva para atrair produção industrial eletrointensiva”, disse.
A biorrefinaria da Acelen, de US$ 1,5 bilhão e apoiada pelo ITA, garantiu US$ 540 milhões para seu ativo de produção industrial ao atingir a FID, segundo a atualização mais recente do rastreador. O projeto usa óleo de macaúba, planta nativa, para produzir SAF sem competir com culturas alimentares.
A Acelen é controlada pela Mubadala Capital, fundo soberano de Abu Dhabi, e conta com investimentos de US$ 1,5 bilhão na primeira fase industrial (cerca de R$ 7,5 bilhões) para a construção da planta de Mataripe, em São Francisco do Conde, na Bahia, e outro aporte total previsto de US$ 3 bilhões que inclui a cadeia agrícola.
Já o combustível de aviação (SAF), é um dos segmentos que tende a crescer com a demanda global. Nos últimos 12 meses, foi registrado um recorde de 36 instalações industriais limpas como Decisões Finais de Investimento no mundo, somando US$ 50 bilhões em compromissos.
A capacidade global de SAF que já passou pela etapa de FID é de 7 milhões de toneladas por ano. China lidera decisões de investimento
A China concentrou 22 das 36 novas FIDs, que somam US$ 45 bilhões. Já os mercados emergentes do chamado “Cinturão do Sol Industrial” (Industrial Sunbelt) — grupo que inclui Brasil, Paraguai, Quênia, Egito, Tailândia e África do Sul — garantiram US$ 5,3 bilhões em seis instalações de grande escala.
Pela primeira vez, esse grupo superou as economias desenvolvidas, que garantiram US$ 4,8 bilhões em seis projetos no mesmo período. Entre as FIDs do período, além da Acelen, estão Phelan Green Saldanha Bay Fase 1 (África do Sul), SAF Fly Limited (Egito), KenGen Kaishan (Quênia), Tomago Aluminium (Austrália) e Nucor Convent DRI (EUA).
“Este ano, o novo cinturão do sol industrial superou a Europa pela primeira vez, transformando planos industriais limpos em usinas financiadas”, afirmou, em comunicado, Faustine Delasalle, CEO da Mission Possible Partnership e diretora executiva do Industrial Transition Accelerator.
“O desafio agora é escala e ritmo. Vimos um número recorde de decisões finais de investimento nos últimos 12 meses, mas precisamos passar de dezenas para centenas de usinas financiadas a cada ano.”
No mundo, o portfólio mapeado pelo rastreador soma US$ 4,8 trilhões em potencial de investimento, em mais de 800 projetos. Amônia verde e fertilizantes no Brasil
A maioria dos projetos em desenvolvimento no Brasil é de amônia limpa, componente-chave para fertilizantes e principal vetor para o comércio de hidrogênio. Segundo Moutinho, a América Latina importa cerca de 90% dos fertilizantes que consome e fica sujeita à oscilação de custos, que são repassados para sua ampla economia agrícola.
Uma transição progressiva para a produção de fertilizantes verdes, disse, reduziria a exposição da produção local de alimentos aos voláteis mercados globais de combustíveis fósseis, além de diminuir as emissões. A maior parte dos projetos de amônia verde no país é voltada à exportação, impulsionada em grande parte por regulações de parceiros comerciais, como a União Europeia, que poderiam criar um mercado para o produto.
A fatia direcionada ao mercado doméstico de fertilizantes nitrogenados ainda é relativamente pequena, mas, para o executivo, é um setor emergente com forte potencial de decolar nos próximos anos. Ele explica ao Prática ESG que os altos preços do gás natural no Brasil tornam economicamente desafiadora a produção nacional de fertilizantes nitrogenados à base de combustíveis fósseis, o que deixou o país quase totalmente dependente de importações.
Embora mais baratas que a produção interna, as importações estão expostas a alta volatilidade de preços — o exemplo recente mais expressivo, segundo ele, foi a crise no Estreito de Ormuz — e a elevados custos de transporte do litoral até o interior, onde os fertilizantes são demandados.
“A produção distribuída de fertilizantes verdes no Brasil, aproveitando os abundantes recursos de energia renovável do país, uma matriz de baixo carbono e a proximidade com os clientes, elimina os pontos negativos do suprimento fóssil e coloca o Brasil como um dos melhores candidatos globais para essa indústria”, afirmou Moutinho.
Questionado sobre o que pode fazer o Brasil subir ou cair no ranking, Moutinho apontou os marcos regulatórios e de políticas públicas — tanto internos quanto dos parceiros comerciais — como um dos fatores mais determinantes para o tamanho do pipeline de projetos de um país. “Sem um marco regulatório plenamente holístico internamente, o pipeline de amônia verde do Brasil pode enfrentar dificuldades para avançar”, disse.
Uma das questões mais relevantes, segundo ele, é o acesso à eletricidade limpa, tanto em termos de oferta competitiva quanto de infraestrutura, especialmente diante da concorrência do rápido crescimento dos data centers de inteligência artificial. O executivo cita a expectativa de que os recentes Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) elevem os preços da eletricidade e o fato de a nova Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST) usar critérios puramente financeiros para conceder conexões à rede em áreas de capacidade limitada.
Para ele, são desafios a serem superados para que o pipeline de amônia verde possa se materializar e continuar crescendo. Do incentivo à criação de demanda
Para Moutinho, legislações como o marco do hidrogênio, a Lei do Combustível do Futuro e o mercado regulado de carbono já estão movimentando o mercado. Ele diz que, trabalhando com desenvolvedores de projetos, a Mission Possible Partnership (MPP) tem visto incentivos como os créditos tributários do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC) e as isenções fiscais do Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro) melhorarem significativamente a viabilidade econômica dos projetos — e sendo incorporados aos planos de negócios.
Quando estiver plenamente implementado, acrescenta, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) também ajudará a tornar a indústria limpa mais competitiva frente a concorrentes intensivos em combustíveis fósseis. Mas, dada a importância dos contratos de compra garantida (off-take) para viabilizar financiamentos, o executivo defende que o país vá além dos incentivos pelo lado da oferta.
“O Brasil deveria ir além dos incentivos pelo lado da oferta e avançar em políticas que criem demanda por bens industriais limpos, viabilizando o off-take que os projetos necessitam”, afirmou. Ele cita como bom exemplo o mandato de SAF no âmbito do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), parte da Lei do Combustível do Futuro, que criará a obrigatoriedade de compra do combustível.
Objetivos semelhantes deveriam ser avaliados para outros setores, segundo Moutinho, mas nem todas as intervenções pelo lado da demanda precisam ser mandatórias. Uma oportunidade, na avaliação dele, está na lei do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que oferece apoio por meio de contratos por diferença (CfDs) — conceito que, segundo Moutinho, o ITA desenvolveu para fertilizantes verdes no Brasil e ajudou a incluir no texto final da lei.
“Os CfDs podem ser uma ferramenta muito eficaz para proporcionar a previsibilidade de receita que os projetos industriais limpos normalmente buscam obter via contratos de off-take”, disse. Para ele, implementar com eficácia a lei e os CfDs pode ser decisivo para viabilizar investimentos na produção nacional de fertilizantes verdes e reduzir os riscos da dependência de importações.
No comunicado de divulgação do rastreador, Moutinho afirmou que, para transformar o potencial de US$ 310 bilhões do Brasil em ativos operacionais, o país deve ampliar os acordos de compra (off-take agreements) e os quadros regulatórios que ofereçam certeza de longo prazo aos investidores.
Papel dos bancos de desenvolvimento Sobre o papel de bancos públicos e multilaterais, Moutinho afirma que eles sempre podem melhorar a bancabilidade dos projetos por meio de financiamento concessional, que reduz o custo de capital.
“Dito isso, embora o financiamento concessional sempre ajude, ele nem sempre será suficiente para assegurar um caso de investimento bancável por si só”, disse. Isso porque alguns projetos precisam resolver entraves anteriores, como garantir acesso à infraestrutura ou fechar contratos de off-take bancáveis.
Para projetos de menor risco — aqueles, diz, com promotores bem capitalizados, instalados em plantas industriais já existentes, com Capex comparativamente menor e tecnologias mais maduras —, uma parcela de financiamento concessional pode ser suficiente para atingir a bancabilidade.
Nesses casos, segundo o executivo, os bancos de desenvolvimento podem ter papel decisivo para viabilizar as oportunidades mais imediatas e garantir vitórias rápidas na transformação industrial limpa do país. Vitrine para a COP31
Para Moutinho, o projeto da Acelen permite ao Brasil levar uma vitória de peso na indústria limpa para a COP31 e assumir uma posição de liderança no debate internacional sobre bioenergia. Ele lembra que o Brasil enfatizou o papel da bioenergia na transição na COP30, mas que há preocupações pertinentes sobre a sustentabilidade da bioenergia baseada em culturas agrícolas convencionais.
“Diante do plano da Acelen Renováveis de utilizar uma cultura não alimentar cultivada em terras degradadas e marginais para a produção de SAF, o Brasil tem a oportunidade de mostrar como a bioenergia de culturas agrícolas pode ser implementada da forma correta — sem competir com a produção de alimentos, mitigando o risco de desmatamento e priorizando setores com poucas alternativas de descarbonização”, afirmou.
Para converter o portfólio global restante de US$ 4,8 trilhões em ativos financiados, a MPP delineou seis “alavancas de aceleração”: mercados limpos, energia limpa, cadeias de suprimento limpas, comunidades limpas, comércio limpo e finanças limpas.
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