Brasil não é Turquia: por que a comparação com o plano de Lara Resende não se sustenta

Brasil não é Turquia: por que a comparação com o plano de Lara Resende não se sustenta - Foto
Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

Desde que o economista André Lara Resende apresentou sua proposta para reduzir a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em aproximadamente 12 meses, uma comparação se espalhou entre críticos e analistas de mercado: o Brasil estaria repetindo a Turquia de Recep Tayyip Erdogan, que cortou juros em plena alta de preços e viu a lira desabar.

A analogia é conveniente para enganar incautos, mas os fatos mostram que as duas situações diferem justamente nos pontos que decidiram o desfecho turco. O que aconteceu na Turquia está documentado.

Em 21 de outubro de 2021, o Banco Central turco reduziu a taxa básica, pouco depois de Erdogan demitir três membros do comitê de política monetária. Com o corte, o juro ficou abaixo da inflação, resultando em juro real negativo.

A inflação chegou a 85,5% em outubro de 2022, o maior nível em 24 anos. A taxa de recompra de uma semana chegou a 8,5% antes de a política ser revertida em 22 de junho de 2023, quando o comitê a elevou para 15%.

Em março de 2024, a taxa chegou a 50%, depois de altas sucessivas desde junho do ano anterior. A diferença central está nas reservas.

Segundo estimativa, a Turquia teria vendido cerca de US$ 128 bilhões em reservas cambiais desde 2019 para segurar a lira. Naquela época, a dívida externa de governo, empresas e instituições financeiras estava em cerca de 80% do PIB.

Ou seja: o país cortou juros e sustentou o câmbio com um estoque de dólares que foi se esgotando. Quando o estoque não bastou, a moeda cedeu, e a inflação importada fez o resto.

A lira perdeu mais de um terço do valor, conforme informações oficiais. O Brasil parte de outro lugar.

Segundo o Banco Central, as reservas internacionais somavam US$ 370,626 bilhões em junho de 2026, ante US$ 358,234 bilhões no fim de 2025. A posição cambial líquida, indicador que a autoridade monetária considera adequado para medir a resistência do país a choques externos, chegou a US$ 262,269 bilhões, conforme divulgado em 8 de julho deste ano pela Broadcast/Estadão Conteúdo.

A proposta de Lara Resende, aliás, prevê o uso de reservas para suavizar movimentos do câmbio, como instrumento declarado do plano. O desenho também é diferente.

Na Turquia, o corte decorreu de uma decisão política do presidente, sem metas de longo prazo, regra fiscal associada ou instituição que ancorasse as expectativas. Já a proposta de Lara Resende prevê um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com metas de quatro a cinco anos, e uma Selic mantida entre a meta de inflação (3%) e o crescimento potencial nominal da economia (cerca de 5,5%), com margem temporária de segurança de cerca de dois pontos percentuais.

O economista também estima economia de cerca de 4 pontos percentuais do PIB por ano em custo da dívida. O argumento econômico de fundo é outro.

Em vídeo divulgado nesta semana, a economista Monica de Bolle afirmou que a proposta é “desindexar a dívida pública brasileira”, comparando a lógica ao Plano Real. A dívida bruta do governo geral está em R$ 10,9 trilhões, ou 82,5% do PIB, e a despesa estimada com juros chega a cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, equivalente a 10,5% do PIB, segundo os dados usados por Lara Resende.

A tese é que juros menores reduzem o custo da dívida e aliviam a percepção de risco fiscal. Isso não significa que o plano esteja livre de risco ou de críticas, mas é sempre bom lembrar que a Turquia sustentou a queda de juros com reservas que se esgotaram, sem metas nem arcabouço, e acabou revertendo a política com juros de 50%.

O Brasil discute uma proposta com instituição, metas e um estoque de reservas que, segundo o Banco Central, passa de US$ 370 bilhões.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →