O Brasil registrou 69 mil tentativas de mineração irregular de criptomoedas no primeiro semestre de 2026, acima das 67 mil identificadas em todo o ano passado, segundo levantamento da Fortinet, empresa de cibersegurança. O volume colocou o país na liderança da América Latina nesse tipo de ocorrência, com mais de 16% do total regional.
Minerar criptomoedas é usar capacidade computacional para validar transações em determinadas redes blockchain e receber ativos digitais como recompensa. Na mineração irregular, criminosos usam, sem autorização, computadores, servidores ou redes de terceiros para gerar algum retorno financeiro.
O principal alvo dessas invasões não é o bitcoin, cuja mineração depende de equipamentos especializados, mas o monero. Segundo a Fortinet, essa cripto responde por mais de 85% dos casos identificados, por poder ser minerada com CPUs comuns e ter recursos de privacidade que dificultam o rastreamento dos recursos. Em menor escala, também aparecem criptoativos como dero, kaspa e ravencoin, a depender do tipo de máquina explorada.
A mineração irregular não depende necessariamente de alvos escolhidos previamente.
Segundo a Fortinet, criminosos buscam máquinas com poder de processamento disponível e brechas de segurança que permitam instalar mineradores. Alguns segmentos, porém, concentram mais incidentes, como provedores de internet, data centers, setor público, universidades, institutos de pesquisa, empresas de tecnologia e startups. Em comum, esses alvos podem reunir servidores expostos, ambientes de nuvem mal configurados, sistemas desatualizados ou grande capacidade de processamento.
“Esse aumento de ''cryptominer'' chama atenção porque evidencia uma frente do cibercrime voltada à exploração econômica de recursos computacionais comprometidos. Atividades relacionadas a ‘cryptominer’ revelam uma lógica diferente de monetização, os criminosos estão utilizando a capacidade computacional de terceiros no país para obter retorno financeiro, transformando equipamentos e ambientes invadidos em recursos exploráveis ao longo do tempo”, afirma Alexandre Bonatti, vice-presidente de engenharia da Fortinet Brasil.
Segundo a empresa, o Brasil destoou da média global no semestre. Enquanto a atividade de mineração irregular no mundo oscilou de forma mais linear, acompanhando o mercado de criptoativos, o país concentrou o maior volume da América Latina. Depois do Brasil, aparecem Equador, com 66 mil ocorrências, e Uruguai, com 46 mil.
A Fortinet atribui o resultado brasileiro a fatores como a grande base de sistemas e servidores desatualizados conectados à internet, uso de softwares não homologados ou pirateados e estratégias de “monetização residual” por criminosos. Neste modelo, quando um alvo invadido não oferece dados úteis para fraude bancária ou extorsão por ransomware, o atacante instala um minerador para gerar receita a partir daquela máquina ao longo do tempo.
O relatório também identificou 249,3 bilhões de tentativas de ataques e atividades maliciosas direcionadas ao Brasil no primeiro semestre. Deste total, 9 bilhões foram varreduras ativas, volume 44% superior ao registrado em todo o ano de 2025.
Essas varreduras têm relação direta com o avanço da mineração irregular, segundo a Fortinet. Elas funcionam como uma etapa anterior ao ataque, em que criminosos usam ferramentas automatizadas para buscar portas abertas, serviços de nuvem desprotegidos e vulnerabilidades em sistemas expostos. Ao encontrar uma brecha, scripts podem decidir se aquele ambiente será usado para mineração, roubo de dados ou outro tipo de ataque.
A empresa também aponta maior uso de inteligência artificial por grupos criminosos. Segundo a Fortinet, ferramentas de IA têm sido usadas para automatizar etapas de ataque, selecionar vulnerabilidades, otimizar tentativas de força bruta, analisar grandes bases de credenciais roubadas e produzir campanhas de “phishing” (mensagens falsas para roubo de dados) mais convincentes em português.
Valor