A Apple apresenta, nesta quarta-feira (9), os primeiros modelos de sua nova geração de celulares. Entre as novidades, deve estar o primeiro iPhone dobrável da história, que tem o provável nome de iPhone Duo.
Com preços estimados a partir de US$ 1.999, o aparelho deve ter formato semelhante ao de um passaporte quando fechado, e abrir para revelar uma tela interna de aproximadamente 7,8 polegadas. Com estrutura de titânio e duas câmeras traseiras, a tela externa deve ficar na faixa de 5,5 polegadas. Mas apesar do formato ser novidade para a Apple, os aparelhos com telas dobráveis disponíveis atualmente (e que se tornaram tão comuns agora) percorreram um longo caminho até chegar aonde estão. A inovação não veio de uma única invenção, mas de uma sequência de descobertas.
Em 1987, dois pesquisadores da Kodak, Ching Wan Tang e Steven Van Slyke, desenvolveram uma tecnologia que mudaria o futuro das telas: o OLED. Na época, o objetivo não era criar um celular dobrável – mesmo porque os smartphones estavam longe de existir, e os celulares na época ainda eram aparelhos grandes com telas pequenas, caros e usados por pouquíssimas pessoas.
A pesquisa buscava uma alternativa às telas tradicionais, algo mais fino, eficiente e com melhor qualidade de imagem. Enquanto as telas LCD precisavam de uma camada de iluminação traseira, os OLED eram capazes de emitir a própria luz, permitindo estruturas mais finas e abrindo caminho para novos formatos.
Ching Wan Tang com Steven Van Slyke em cerimônia do National Inventors Hall of Fame Jason Dixson Photography/Reprodução National Inventors Hall of Fame O primeiro produto OLED foi um display para um aparelho de som automotivo, comercializado pela Pioneer em 1997. Em 2003, a Kodak lançou a câmera digital EasyShare LS633, que se tornou o primeiro produto eletrônico de consumo a incorporar um display OLED colorido. A primeira televisão com display OLED, produzida pela Sony, foi lançada no final de 2007. Essas características do OLED abriram uma possibilidade para a indústria questionar: se uma tela poderia ser construída de uma forma mais fina, ela poderia também deixar de ser completamente rígida? Fabricantes começaram, então, a explorar novos formatos para os displays. No início da década de 2010, empresas como Samsung e LG começaram a apresentar televisores com telas curvas e, poucos anos depois, isso também chegou aos smartphones, mostrando que era possível moldar telas de novas maneiras. Esses aparelhos ainda estavam longe de serem dobráveis, mas ajudaram a indústria a resolver desafios, como fabricar telas flexíveis e como trabalhar com novos materiais.
A indústria também tinha uma outra questão. Quando se fala em celular dobrável, não era só a tela que representava um desafio, mas também a dobradiça. Um smartphone comum tem uma estrutura rígida. No caso de um dobrável, não bastava apenas dobrar o painel. Era preciso construir um mecanismo capaz de movimentar duas partes do aparelho sem danificar peças. E uma empresa, relativamente desconhecida, conseguiu esse feito.
No final de 2018, a chinesa Royole apresentou o FlexPai, considerado o primeiro smartphone dobrável comercial do mundo. O aparelho mostrou que a tecnologia era possível, mas tinha limitações de software, acabamento inferior aos determinados celulares e uma dobra bastante perceptível. Mesmo assim, ele conseguiu transformar a ideia em um produto real. Flexpai, da Royole Corp, durante a CES de 2019 David Williams/Bloomberg via Getty Images Poucos meses depois, em 2019, a Samsung apresentou o Galaxy Fold, o aparelho que popularizou o conceito. Mas não só ela. Dias depois, na feira MWC, a Huawei revelou seu dobrável, o Mate X, reforçando que a corrida por essa nova categoria já envolvia mais gigantes da indústria.
Apesar dos esforços da Huawei, foi o Fold que ganhou destaque. O modelo, inclusive, chegou a ter sua chegada adiada às lojas após apresentar problemas de durabilidade, mostrando que o desafio não era só criar uma tela que dobrasse uma vez, mas uma que pudesse ser dobrada todos os dias durante vários anos. Parte do problema estava no material da cobertura da tela, já que os primeiros dobráveis usavam uma camada de plástico, que arranhava com facilidade e deixava a superfície com sensação diferente da de um vidro comum. A solução veio no ano seguinte, quando a Samsung passou a usar o chamado UTG (vidro ultrafino, na sigla em inglês) no Galaxy Z Flip, tornando a tela mais resistente e com um acabamento mais próximo dos smartphones convencionais. Com novas gerações do Fold e do Galaxy Z Flip, a Samsung refinou a tecnologia e ajudou a criar uma nova categoria de smartphones. Huawei, Motorola, Google, Xiaomi são outros exemplos de empresas que se renderam à tela dobrável. O celular de tela dobrável, portanto, não nasceu em um único laboratório nem tem apenas um inventor. Ela é o resultado de uma cadeia de avanços que começou com uma descoberta da Kodak nos anos 1980, passou pelo desenvolvimento de novos materiais, telas curvas, vidros ultrafinos e mecanismos de precisão. Mais Lidas
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