Boulos denuncia “chantagem do mercado” e defende cortar supersalários e desonerações para equilibrar contas públicas

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), criticou as pressões do mercado financeiro por um ajuste fiscal no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e defendeu que a redução de despesas públicas seja concentrada no combate a privilégios, sem comprometer investimentos em saúde, educação e políticas sociais.

Entre as medidas apontadas pelo ministro estão a revisão de benefícios tributários, o enfrentamento dos supersalários e mudanças nas regras das emendas parlamentares. Em entrevista à Folha de São Paulo, Boulos classificou como uma tentativa de imposição política a cobrança por cortes de gastos que contrariem o programa aprovado nas urnas.

Para ele, o resultado da eleição presidencial de 2026 representa uma rejeição à proposta de austeridade defendida pelo candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL). “Os governos Lula sempre tiveram equilíbrio fiscal.

A diferença é que a gente não aceita ajuste fiscal que corta no SUS (Sistema Único de Saúde) e na educação, o tesouraço que o Flávio propunha. Esse programa foi derrotado nas urnas.

Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia”, afirmou.

Boulos defende revisão de desonerações e combate aos supersalários O ministro argumentou que o governo dispõe de alternativas para melhorar as contas públicas sem recorrer à redução de serviços essenciais.

Uma das principais frentes seria a revisão das desonerações fiscais concedidas a diferentes setores da economia, cujo volume anual, segundo ele, se aproxima de R$ 600 bilhões. Boulos também destacou a necessidade de avançar em reformas institucionais que permitam reduzir despesas associadas a remunerações acima do teto constitucional e rever o caráter obrigatório de determinadas emendas parlamentares.

“O corte que queremos é em privilégios: temos quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais. O presidente falou durante toda a campanha em reforma judiciária, que envolve cortes dos supersalários, e reforma política também, que envolve repensar a emenda parlamentar impositiva.

Só aí tem R$ 61 bilhões”, declarou. As propostas envolvem áreas que dependem de negociações com o Congresso Nacional e, em determinados casos, de alterações legislativas e constitucionais.

A revisão das desonerações também exigiria definir quais benefícios tributários seriam modificados ou eliminados. O debate ocorre em um cenário de crescimento do endividamento brasileiro.

Segundo os dados apresentados pela Folha, a dívida pública passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), no final de 2022, para 82,5% em julho de 2026. Questionado sobre a trajetória da dívida, Boulos afirmou que o indicador brasileiro precisa ser analisado em comparação com outras economias e que o aumento do endividamento não deve impedir a execução de políticas de desenvolvimento.

“Comparem a elevação da dívida do Brasil com a dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) nos últimos 15 anos. A do Brasil está longe de ser a que mais cresceu”, sustentou.

O ministro também rejeitou a ideia de que o crescimento da dívida deva necessariamente resultar em cortes nas políticas sociais. “E a receita que esse mercado quer impor para o Brasil é corte no povo.

Não foi essa agenda que ganhou eleição”, acrescentou. Governo Lula deverá negociar com Congresso e ampliar mobilização popular

Para viabilizar as mudanças defendidas pelo governo, Boulos reconheceu a necessidade de negociação com o Congresso Nacional, mas ressaltou que a sustentação política do quarto mandato de Lula não poderá depender exclusivamente das relações institucionais. Segundo ele, o Executivo deverá combinar o diálogo com parlamentares e integrantes do Judiciário com a mobilização da sociedade e uma atuação mais intensa nas plataformas digitais.

“O presidente fará negociação com essa composição do Congresso. Agora, o próprio Lula deu a senha.

A governabilidade será com o Congresso, com o Judiciário, mas também terá um outro componente. Precisaremos governar com as ruas e as redes”, afirmou.

Boulos considera que a participação popular pode alterar o ambiente político mesmo diante de resistências parlamentares a determinadas propostas. “Com as redes, para disputar a narrativa.

Com as ruas, porque sabemos que, quando o povo se manifesta, mesmo com um Congresso hostil a determinadas pautas populares, as coisas mudam”, disse. O ministro também defendeu a modernização dos mecanismos de participação social.

Além dos conselhos e conferências já existentes, ele propôs a criação de instrumentos digitais que permitam ampliar as consultas públicas e a interlocução entre governo e população. Boulos rejeita antecipar sucessão de Lula e defende mandato histórico

Ao comentar o futuro da esquerda brasileira, Boulos afirmou que a prioridade deve ser a consolidação do quarto governo Lula, e não a antecipação da disputa pela sucessão presidencial de 2030. Na avaliação do ministro, os próximos quatro anos serão decisivos para definir tanto o legado político do presidente quanto a capacidade do campo progressista de construir novas lideranças.

“Hoje esse exercício é inócuo, porque o debate para a sucessão do Lula vai depender dos próximos quatro anos”, declarou. Questionado sobre a possibilidade de ser apresentado como sucessor do presidente, Boulos rejeitou a discussão neste momento.

“Alimentar essa discussão agora só serve à divisão interna na esquerda e no governo. Ganhamos a eleição porque o povo quer manter as conquistas que teve e quer melhorias.

O próximo governo precisa responder a ambas”, afirmou. O ministro também defendeu que o novo mandato ultrapasse a dimensão pessoal da trajetória de Lula e produza transformações duradouras no país.

“Meu foco está em ajudar Lula a fazer um mandato histórico. Para além de um mandato de legado biográfico, por ser o último, pode ser um mandato histórico para o povo brasileiro.

É um ciclo que se encerra e que pode apontar os caminhos para os próximos 20 anos”, disse. Ministro avalia vitória eleitoral e desafios da esquerda

Na entrevista, Boulos também analisou o resultado da eleição presidencial de 2026, marcada pela vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Apesar da derrota, o candidato do PL recebeu quase 60 milhões de votos, evidenciando a permanência de uma base eleitoral expressiva vinculada ao bolsonarismo.

O ministro afirmou que o crescimento da extrema direita não é um fenômeno exclusivamente brasileiro e apontou o enfraquecimento das forças políticas de centro como uma tendência internacional. Ao mesmo tempo, destacou que Lula conseguiu ampliar a diferença de votos em relação à disputa presidencial de 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro.

“Destaco o fato de a gente ter conseguido uma margem de 4 milhões de votos, maior que a de Lula contra Jair Bolsonaro [em 2022]. E em uma eleição na qual, no primeiro turno, ficamos atrás”, afirmou.

Boulos avaliou que a esquerda precisa ir além da resistência ao bolsonarismo e disputar a definição das prioridades do debate público. “Esse é um dos desafios do Lula 4: não ficar só na resistência à extrema direita.

Em 2022, ganhamos a eleição, mas não a narrativa. Quem produziu a agenda política do país foi a extrema direita.

Nós temos a oportunidade de também ganhar a agenda e alimentar a renovação da esquerda até 2030”, declarou. Para o ministro, Lula continua sendo fundamental para ampliar o alcance eleitoral do campo progressista, especialmente entre setores populares que não se identificam necessariamente com a esquerda.

“Lula é a maior liderança política que esse país produziu. O eleitorado de esquerda é 30% da sociedade.

Para conseguir a maioria, precisa do complemento de um eleitorado popular, como o lulista”, afirmou. Boulos critica fuga de Flávio Bolsonaro e alerta para interferência dos EUA

Outro tema abordado foi a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após a derrota eleitoral. Boulos fez duras críticas ao senador e questionou sua decisão de deixar o país diante das questões judiciais que enfrenta.

“E 24 horas depois de ter recebido 60 milhões de votos, Flávio fugiu como um rato. Não teve coragem de enfrentar suas questões judiciais, mesmo se dizendo inocente.

Simplesmente fugiu”, afirmou. O ministro também manifestou preocupação com a possibilidade de interferência estrangeira na política brasileira, citando o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à candidatura de Flávio Bolsonaro.

Boulos mencionou ainda uma suposta atuação da Meta durante o processo eleitoral para prejudicar Lula e favorecer seu adversário. A declaração foi apresentada pelo ministro como uma acusação sobre o comportamento da empresa.

“Houve uma atuação confessa da Meta durante as eleições, com funcionários reconhecendo que prejudicaram Lula e favoreceram Flávio. Não foi apenas uma diretriz empresarial, você teve [Donald] Trump defendendo e apoiando a candidatura de Flávio”, declarou.

Na avaliação de Boulos, o Brasil precisa permanecer atento aos riscos associados à política externa norte-americana e a possíveis tentativas de interferência nos assuntos internos do país. Permanência no ministério e futuro no PSOL seguem indefinidos

Boulos também evitou confirmar se continuará à frente da Secretaria-Geral da Presidência durante o quarto mandato de Lula. Segundo ele, a definição dependerá de uma conversa com o presidente nos próximos dias.

“A única pessoa que tem autoridade para falar sobre ministério é quem teve 65 milhões de votos. Nós vamos conversar nos próximos dias para avaliar onde posso contribuir melhor”, afirmou.

Sobre seu futuro partidário, o ministro reconheceu divergências com a atual maioria do PSOL e confirmou que seu grupo político discute os próximos passos. Ele não descartou nem confirmou uma eventual saída da legenda ou uma filiação ao PT.

“Não é segredo para ninguém a divergência com o que hoje é a maioria no PSOL. Nosso grupo está fazendo uma discussão sobre os caminhos políticos a tomar, e essa discussão deve estar amadurecida nas próximas semanas”, declarou.

Questionado sobre uma possível candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2028, Boulos voltou a enfatizar que sua prioridade é contribuir para o próximo governo Lula. Mobilização eleitoral e atuação nas redes sociais

O ministro também destacou a importância das manifestações populares e da comunicação digital para a vitória presidencial de 2026. Segundo Boulos, a mobilização durante o segundo turno alcançou uma dimensão que ultrapassou as estruturas partidárias e reuniu diferentes setores da sociedade brasileira.

Ele elogiou especialmente a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG), que participou da mobilização digital em apoio à candidatura de Lula. “Janones cumpriu um papel extraordinário.

A organização do ‘Exército do Lula’ foi louvável, merece todo o nosso respeito”, afirmou.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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