O PL elegeu 121 deputados e 29 senadores e chega à legislatura que começa em fevereiro de 2027 com poder para travar a agenda do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O cálculo é da cientista política Daniela Constanzo.
Para ela, o bolsonarismo ocupa 31% das cadeiras do Congresso e metade do Senado, mesmo derrotado na eleição presidencial. A Tarifa Zero aos finais de semana, as indicações de Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a PEC da segurança só saem do papel se o governo negociar item por item e se a pressão popular voltar às ruas.
O PL sozinho terá 23,6% da Câmara dos Deputados, com 121 das 513 cadeiras, e 35,8% do Senado Federal, com 29 das 81. O número decisivo aparece quando se soma todo o campo bolsonarista.
Constanzo calcula 184 dos 594 parlamentares, o equivalente a 31%, e cerca de 40 senadores, patamar que impede o governo de aprovar uma PEC sem negociar com o bloco. A eleição de 2026 renovou dois terços do Senado, 54 das 81 cadeiras, e ampliou o peso dessa conta.
O veto que cabe em metade do Senado O Senado concentra as votações mais sensíveis ao governo.
Passam por ali as indicações ao STF, os projetos de lei complementar e as propostas de emenda à Constituição, caso da PEC da segurança que Lula quer votar aproveitando o momento mais fácil de negociação. As vagas no Supremo são o item mais delicado.
Cada indicação presidencial depende de sabatina e votação em plenário, onde a metade bolsonarista pode impor desgaste e condicionar nomes. A oposição não tem veto sozinha no Congresso, diz a cientista política.
Tem no Senado, onde o bloco alcança metade das cadeiras e obriga o governo a caçar cada voto fora do próprio campo. O histórico do terceiro mandato mostra o tamanho do problema.
O governo precisou ceder na composição das mesas, aceitar o calendário imposto pelo Legislativo e administrar derrubadas de vetos presidenciais. O Centrão ficou mais caro
O Centrão recuou de 50% para 45% das cadeiras e segue como sócio obrigatório do governo. Lula já começou a articulação com os partidos do bloco, repetindo o movimento de 2022, quando negociou a mudança no teto de gastos antes de tomar posse.
A diferença é que ministério já não garante voto. Com as emendas parlamentares obrigatórias, o bloco tem dinheiro próprio e negocia pauta por pauta.
Na avaliação de Constanzo, isso favorece os temas populares e complica os que exigem desgaste. “Não adianta você dar um ministério e esperar que todos os votos daquele partido venham para você”, afirma a entrevistada.
A rua como voto de desempate O fim da escala 6×1, citado por ela como vitória recente, nasceu dessa lógica.
A mobilização nas redes e nas ruas precedeu a votação e mostrou ao governo um caminho de negociação. Para a Tarifa Zero, o diagnóstico é o mesmo.
“Eu acho que só vai passar se tiver muita mobilização popular, como a gente viu na 6×1”, afirma Constanzo. A cientista política aponta a mistura de ruas e redes protagonizada por jovens no segundo turno como o ativo que o campo progressista reencontrou.
“O campo progressista aprendeu de novo que tem um poder de mobilização, e isso vai ser fundamental para poder pressionar no Congresso”, diz. Se essa energia não se repetir, o governo começa 2027 com a Tarifa Zero parada, as vagas do STF sem votação e a PEC da segurança engavetada.
A pressão que destravou a escala 6×1 é a mesma que o Palácio do Planalto precisa reconstruir para o quarto mandato não travar no Senado.
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