Bancos cortam previsão do PIB para 2027 diante de juros altos e inflação

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Uma conjunção desfavorável de fatores econômicos está reduzindo as perspectivas de alívio nos juros ao longo de 2027, o que levou grandes instituições financeiras a projetar uma atividade econômica ainda mais lenta para o próximo ano. De acordo com análises compiladas por diferentes entidades de mercado, a desaceleração esperada não será suficiente para conter a inflação, que segue turbinada também pela forte alta do dólar frente ao real.

Esse cenário de restrição monetária severa aproxima o país da estagnação, com estimativas de crescimento para o Produto Interno Bruto variando de 0,3% a 1,2%. As revisões para baixo foram generalizadas entre as principais casas financeiras do país, refletindo o peso de um ambiente macroeconômico cada vez mais desafiador para o consumo das famílias e para os investimentos produtivos.

A XP Investimentos reduziu a expectativa de alta do PIB de 1% para 0,3% em 2027. No mesmo sentido, o Bradesco cortou sua projeção de 1% para 0,4%, enquanto o Itaú reduziu de 1,2% para 0,5% e o Inter revisou o indicador de 1,5% para 0,7%.

O C6 Bank adotou uma postura ligeiramente mais branda, mas também revisou o número para baixo, passando de 1,7% para 1,2%. Dinheiro mais caro e impactos no consumo das famílias

O menor ritmo de expansão econômica decorre principalmente da manutenção de taxas de juros em patamares elevados, mecanismo que desestimula de forma direta o consumo das famílias e os investimentos corporativos. Diante desse quadro de inflação persistente e pressão cambial, o Itaú abandonou completamente a previsão de que a Taxa Selic — o juro básico da economia fixado pelo Banco Central — encerraria 2027 em 12,50% ao ano, ao passo que a XP deixou de projetar a taxa em 11,50%.

Ambas as instituições passaram a estimar que a taxa permanecerá nos atuais 13,75% ao ano até o final do próximo período, mesma projeção adotada pelo C6 Bank. Outras casas também recalcularam suas rotas de política monetária.

O Inter elevou a estimativa para a Selic de 11% para 12,50%, enquanto o PicPay subiu a projeção de 11,50% para o mesmo patamar de 12,50%. Por sua vez, o Bradesco manteve a perspectiva de uma retomada gradual de cortes apenas para o segundo semestre de 2027, projetando encerrar o ano com juros de 12,75% ao ano.

Mesmo considerando essa margem de alívio final, a instituição avalia que o resultado agregado da atividade será fraco. O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, aponta em relatório que a atividade econômica já exibe sinais claros de moderação, mesmo após a implementação de diferentes medidas de estímulo ao longo de 2026 — período em que o banco inclusive projeta uma retração de 0,2% já para o PIB do terceiro trimestre, cujo dado oficial será divulgado pelo IBGE em 2 de dezembro.

Para Honorato, existem forças estruturais e conjunturais atuando de forma simultânea contra a expansão da atividade. Entre os fatores citados pelo economista estão a restrição monetária prolongada, o processo em curso de desalavancagem das famílias e a retração na confiança dos empresários, elementos que reforçam o enfraquecimento geral da economia.

Na mesma linha, a XP Investimentos destaca que o crédito restrito e o nível elevado de endividamento de empresas e consumidores funcionam como barreiras adicionais. Os analistas da instituição pontuam ainda a menor contribuição esperada do setor agropecuário e o esgotamento progressivo dos estímulos fiscais lançados anteriormente pelo governo.

Desequilíbrio fiscal e pressão do câmbio sobre os custos André Valério, economista sênior do Inter, atribui as sucessivas revisões para baixo no crescimento econômico à perspectiva persistente de desequilíbrio nas contas públicas.

Para o especialista, o risco fiscal acentuado pressiona diretamente a taxa de câmbio, gerando um efeito em cadeia sobre os preços internos. Um dólar mais valorizado encarece de maneira imediata a importação de bens e matérias-primas cotadas na moeda americana, com destaque para diversos itens alimentícios, impulsionando a inflação.

Segundo Valério, a ausência de um ajuste fiscal consistente que garanta maior sustentabilidade para a trajetória da dívida pública impede que as taxas de juros recuem de maneira significativa. Como consequência direta desse cenário fiscal e cambial, as seis instituições financeiras passaram a projetar uma inflação oficial superior a 5% para o ano de 2027.

A revisão mais intensa veio do Itaú, que elevou a expectativa do IPCA de 4,6% para 6,1%. A XP subiu a estimativa de 4,4% para 5,5%, o Bradesco elevou de 4,1% para 5,3%, o C6 Bank passou de 5% para 5,2%, enquanto Inter e PicPay convergem para uma taxa de 5,1%.

Além da cotação elevada do dólar, o Itaú incorpora em suas projeções o impacto da retomada da tributação federal sobre a gasolina e da retirada gradual dos subsídios aplicados ao diesel — medidas adotadas inicialmente para mitigar os reflexos econômicos negativos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã sobre o mercado de combustíveis.

O banco também avalia os reflexos da Reforma Tributária e das discussões em torno da redução da jornada de trabalho sobre a estrutura de custos operacionais das empresas. Julia Gottlieb, economista do Itaú, ressalta que as economias avançadas mantêm trajetória de juros elevados e que os preços internacionais do petróleo permanecem em patamares médios superiores aos registrados antes do conflito no Oriente Médio, apesar de oscilações recentes.

Choques de oferta e o risco de estagflação na economia Os analistas também chamam a atenção para o peso expressivo dos choques de oferta sobre o cenário inflacionário.

Matheus Pizzani, economista do PicPay, enfatiza que irregularidades climáticas, marcadas por chuvas excessivas em determinadas regiões e períodos de estiagem severa em outras, deverão encarecer a produção de alimentos, provocando impactos mais intensos sobre o índice de preços logo no primeiro trimestre de 2027.

Para o economista, o encarecimento do diesel repercute de forma capilar sobre uma ampla gama de setores produtivos por meio do encarecimento dos custos logísticos de transporte, espalhando-se desde as atividades agropecuárias até o segmento de serviços. Esse conjunto de variáveis desenha um cenário clássico de estagflação, condição econômica em que a fraqueza da demanda agregada se mostra incapaz de conter uma inflação fortemente alimentada por quebras e restrições na oferta de bens e serviços.

Historicamente, o Banco Central utiliza a elevação da taxa básica de juros para esfriar o consumo e aliviar a pressão sobre os preços. Contudo, em um contexto de estagflação, o resfriamento adicional da demanda perde eficácia no combate rápido à inflação, ao mesmo tempo em que torna muito mais complexa a redução dos juros necessários para reativar o crescimento produtivo.

Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, detalha a dinâmica temporal desse processo ao explicar que a desaceleração da atividade e a alta do câmbio afetam o nível de preços em momentos distintos. Enquanto a transmissão da alta cambial para a inflação ocorre de forma rápida, o efeito desinflacionário gerado por uma economia mais fria e fraca demora mais tempo para se materializar.

Dessa forma, a economia sente primeiro o choque desfavorável do câmbio nos preços, para apenas posteriormente absorver o impacto contracionista da atividade desaquecida. Diante desse quadro complexo, Gottlieb argumenta que a abertura de espaço para cortes efetivos na taxa Selic ao longo de 2027 dependerá diretamente da implementação de um ajuste fiscal crível por parte do governo.

A consolidação dessa credibilidade fiscal seria capaz de promover uma queda consistente no prêmio de risco, reduzindo as cotações do dólar e viabilizando, assim, um patamar de juros estruturalmente mais baixos para a retomada sustentável da economia brasileira.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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