Memórias dos tios e evolução da ferrovia compõem filme de cineasta sobre Flórida Paulista

Memórias dos tios e evolução da ferrovia compõem filme de cineasta sobre Flórida Paulista - Foto
Fonte da notícia: G1 G1

História de casal que viveu em Flórida Paulista inspira curta-metragem gravado na cidade Uma história de família, mas também um retrato de Flórida Paulista (SP).

Gravado integralmente no município, o curta-metragem "Elídio e Adélia Dream", dirigido pelo cineasta Fábio Bardella, transforma paisagens, construções e memórias da cidade em elementos centrais de uma narrativa sobre imigração, envelhecimento e passagem do tempo. A produção tem uma ligação direta com a história local: os personagens que dão nome ao filme são os tios-avós do diretor, que viveram em Flórida Paulista.

Mais do que servir de cenário, o município participa da construção da obra, que recupera referências de uma região marcada pela expansão ferroviária, pela chegada de imigrantes e pelas transformações do interior paulista. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp

Nascido em Jundiaí (SP) e atualmente morador da capital paulista, Fábio Bardella tem 39 anos e trabalha com cinema há aproximadamente duas décadas. Cineasta, diretor, fotógrafo e produtor audiovisual, é fundador da RealqualqueR, produtora independente sediada em São Paulo, e já realizou dezenas de produções entre curtas e longas-metragens.

História de casal que viveu em Flórida Paulista (SP) inspira curta-metragem gravado na cidade RealqualqueR/Divulgação

A relação com o Oeste Paulista, no entanto, vem de antes da carreira no audiovisual. O pai do diretor nasceu em Flórida Paulista, enquanto seus avós e bisavós também estabeleceram vínculos com a cidade e municípios próximos, como Osvaldo Cruz e Lucélia.

A realização do curta foi uma oportunidade de se aproximar dessa história familiar e, ao mesmo tempo, registrar um território que faz parte da memória de diferentes gerações, conforme Fábio explicou ao g1. “Embora eu tenha nascido em Jundiaí e viva em São Paulo, existe uma espécie de geografia afetiva que sempre me ligou àquela região [do Oeste Paulista].

Acho que este filme é, em alguma medida, uma tentativa de compreender essa ligação”, explicou Fábio. História de casal que viveu em Flórida Paulista (SP) inspira curta-metragem gravado na cidade

RealqualqueR/Divulgação LEIA TAMBÉM

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A escolha de Flórida Paulista para as gravações não foi apenas uma decisão afetiva. Para o diretor, os espaços e as paisagens do município ajudam a contar a história de Elídio e Adélia e a representar as transformações vividas pela região ao longo das décadas.

“Flórida Paulista não era apenas uma locação. Era parte da própria dramaturgia do filme”, afirmou, ao g1.

Entre os espaços registrados está a antiga estação ferroviária, um dos locais mais simbólicos da produção. A construção remete ao período em que os trilhos conectavam municípios, transportavam pessoas e mercadorias e impulsionavam o desenvolvimento de cidades do interior.

Na avaliação de Fábio, a ferrovia representa um capítulo importante da formação histórica do Oeste Paulista. Sua presença no filme também permite observar as mudanças ocorridas na região: estruturas que simbolizavam movimento, chegada e progresso passaram a carregar marcas de abandono e imobilidade.

“A ferrovia é quase uma personagem histórica do interior paulista. Ela representa o deslocamento, a chegada, a expansão econômica e a própria ideia de progresso que marcou a formação de muitas cidades”, contou.

O diretor relaciona o sucateamento das ferrovias à interrupção de um projeto de desenvolvimento. No Oeste Paulista, os trilhos tiveram papel importante na ocupação do território e na chegada de imigrantes.

Com a priorização do transporte rodoviário, especialmente a partir da segunda metade do século 20, diversas linhas foram desativadas e estações acabaram abandonadas. No curta, a antiga estação ajuda a traduzir essa transformação.

O espaço que um dia possibilitou a chegada de tantas pessoas passa a representar também a impossibilidade de retornar pelo mesmo caminho. “Existe algo muito poderoso na impossibilidade de retornar pelo mesmo caminho que nos trouxe até aqui”, disse o cineasta.

A intenção de registrar a cidade, segundo ele, não era produzir imagens que funcionassem apenas como cartões-postais. O interesse estava nos espaços cotidianos, nas construções e nas paisagens que revelam a convivência entre diferentes tempos.

“Me interessava filmar os espaços cotidianos, as construções e as paisagens sem transformá-los em cartões-postais. Queria encontrar uma cidade que existe entre aquilo que foi e aquilo que se tornou”, explicou.

História de casal que viveu em Flórida Paulista (SP) inspira curta-metragem gravado na cidade RealqualqueR/Divulgação

Uma história do interior paulista Embora parta da trajetória de dois integrantes da família do diretor, "Elídio e Adélia Dream" procura estabelecer conexões com experiências vividas por muitas outras famílias que construíram suas vidas no interior do país.

Os personagens representam, segundo Fábio, uma geração marcada pelo deslocamento, pelo trabalho, pela construção de vínculos e pelo sentimento de pertencimento a um lugar. A ideia de transformar essa trajetória em filme surgiu de uma inquietação sobre o envelhecimento e o desaparecimento de um mundo.

“Elídio e Adélia são meus tios-avós e representam uma geração que carrega consigo uma história muito particular de deslocamento, trabalho, construção e pertencimento. Em algum momento, comecei a olhar para eles não apenas como personagens da minha família, mas como testemunhas de uma época que estava chegando ao fim.

Percebi que havia algo profundamente cinematográfico naquela existência, na relação deles com a casa, com a cidade, com as lembranças e com o próprio envelhecimento”, relatou. O objetivo não era simplesmente contar a história de dois idosos, mas encontrar uma maneira de representar, por meio da intimidade do casal, as transformações vividas ao longo das décadas.

“Não queria simplesmente contar a história de duas pessoas idosas. Queria encontrar uma maneira de filmar o desaparecimento de um mundo através da intimidade de duas pessoas”, disse.

Durante o desenvolvimento do projeto, o diretor passou a relacionar as lembranças familiares a processos históricos mais amplos, como a imigração, a expansão ferroviária e a ocupação do interior brasileiro. A trajetória de Elídio e Adélia, assim, funciona como uma porta de entrada para observar mudanças que também atravessaram outras famílias e comunidades do Oeste Paulista.

História de casal que viveu em Flórida Paulista (SP) inspira curta-metragem gravado na cidade RealqualqueR/Divulgação

Imigração, envelhecimento e memória A produção aborda o que acontece com as pessoas e os lugares muitas décadas depois da chegada a um novo território.

Fábio observa que a imigração costuma ser apresentada pela partida, pela chegada e pela construção de uma nova vida. O curta, porém, procura olhar para outro momento dessa trajetória: quando as pessoas envelhecem, os lugares se transformam e as referências que davam sentido àquela existência começam a desaparecer.

“Acho que o filme olha justamente para esse outro lado da imigração. Não apenas para a chegada, mas para o encerramento de um ciclo.

É como se estivéssemos acompanhando o envelhecimento de uma promessa”, ressaltou. A morte também está presente na narrativa, mas não necessariamente de maneira literal ou explicativa.

O interesse do diretor está nas ausências, nos silêncios, nas lembranças e naquilo que permanece depois das transformações. Para contar essa história, ele optou por uma linguagem artística que se aproxima de uma fronteira entre documentário e ficção, em vez de seguir o formato de um documentário tradicional sobre a vida do casal.

“Eu não queria explicar a vida deles. Queria encontrar uma maneira de experimentar cinematograficamente aquilo que essa história provocava em mim [...].

A realidade, para mim, não precisa estar sempre subordinada à explicação. Existem coisas que só conseguimos compreender através de imagens, sensações e associações”, contou.

A proposta permite trabalhar com memória, sonho e imaginação, sem limitar a narrativa à explicação dos acontecimentos reais. Segundo Fábio, o cinema também pode preservar gestos, presenças e atmosferas que nem sempre aparecem nos registros históricos.

O reencontro com as origens A gravação integral em Flórida Paulista também aproximou o diretor de uma parte de sua própria história.

Embora tenha nascido e crescido em outra cidade, ele conta que o município sempre foi uma espécie de território de origem, conhecido principalmente pelas histórias contadas pelos familiares. “Realizar esse filme foi uma maneira de me aproximar dessa geografia, mas também de compreender melhor de onde venho.

Acho que todos nós carregamos histórias anteriores ao nosso nascimento. Algumas conhecemos, outras apenas intuímos.”

Ao observar os tios-avós durante a produção, Fábio passou a perceber detalhes da convivência familiar que antes poderiam passar despercebidos. Gestos, silêncios e comportamentos ganharam outros significados diante da câmera.

Para ele, a memória não é estática: cada pessoa guarda uma versão dos acontecimentos, e as lembranças podem se misturar aos sonhos e à imaginação. A história de Elídio e Adélia ultrapassa os limites da família e se aproxima da memória de uma região e de tantas famílias.

“Uma história que não pertence apenas à minha família, mas a muitas que ajudaram a construir o interior paulista e o Brasil”, finalizou. * Colaborou sob supervisão de Mário Policeno.

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Publicação Original G1 g1.globo.com
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