A vingança da democracia. Onda azul atropela Trump

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

“Não há pecado maior do que a arrogância”, afirmavam os gregos antigos. Eles a chamavam hubris – significando descomedimento, perda da consciência de limites.

Em termos mais populares, “ir muito além das próprias pernas”. Na cultura da Grécia Antiga, a hubris é a única falha trágica que não tem remissão.

Incorrer nela significa danação eterna. Os deuses punem sem possibilidade de perdão os descomedidos, pois só a eles próprios, deuses, donos do absoluto, é permitido ir além dos próprios limites.

Aos homens, escravos do relativo, essa possibilidade é totalmente negada. Donald Trump, bem como a imensa maioria dos narcisistas autocratas ao redor do mundo, certamente ignora esse ensinamento básico herdado dos nossos pais intelectuais, os sábios da Grécia Antiga.

Se soubesse, certamente não teria infringido tantas e tantas vezes, de modo arrogante e temerário, essa regra cósmica. Vamos apenas citar alguns exemplos disso:

O número que melhor explica a histórica noite das eleições de meio de mandato de 2026, que deverá encerrar a revolução fascistóide do presidente Donald Trump e mudar a política do Partido Democrata, é 18%: a proporção de eleitores que, em dois Estados tradicionalmente republicanos há décadas – Kentucky e Tennessee – migraram da direita para a esquerda.

Quase um em cada cinco eleitores mudou de lado. Uma migração bíblica.

Os democratas não venciam no Tennessee desde 1995. Agora, conquistam a Câmara e o Senado e rompem uma série de tabus: da eleição do primeiro senador muçulmano, Abdul El-Sayed, no Michigan, ao retorno dos democratas ao Texas e ao Kansas, com Talarico e Hamilton, além de uma onda de mulheres, afro-americanos, hispânicos e homossexuais conquistando cargos em diferentes níveis do poder.

Quem talvez, precipitadamente, temia uma deriva autoritária nos Estados Unidos, um terceiro mandato de Trump, eleições fraudadas ou anuladas, uma tentativa de golpe semelhante à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, ou ainda aqueles que já davam Washington como transformada em um acampamento de milícias assassinas, foi surpreendido por uma noite extraordinária não apenas para o Partido Democrata, mas também para a democracia americana.

Uma democracia capaz de se renovar com vitalidade, buscando novos caminhos depois das experiências do populismo MAGA. O presidente Trump acreditou, equivocadamente, que sua reeleição em 2024 equivalia à coroação de um monarca.

Perdeu-se em projetos de monumentos, na obsessão de impor seu nome a lagos e oceanos, na conquista de territórios que pertencem a nações estrangeiras, numa febre tarifária que o isolou de antigos aliados (o Brasil encabeça a lista) e, finalmente, numa guerra contra o Irã sem estratégia definida, ainda em curso e repleta de perigos.

A derrota de Joe Biden e Kamala Harris o iludiu, fazendo-o acreditar que seu segundo mandato seria de poder absoluto. Trump deixou-se levar pelos extremistas de seu governo, até chegar aos dias de sangue de Minneapolis, quando a milícia irracional do ICE deixou atrás de si vítimas inocentes.

Na terça-feira, milhares de cidadãos colocaram o adesivo “I Voted” (Eu votei), num gesto doloroso de afirmação e resgate democrático. Abrem-se agora dois grandes processos paralelos de reflexão política.

O Partido Republicano precisa decidir se continuará seguindo os passos de Trump, lançando à Casa Branca, em 2028, um imitador seu – como o vice-presidente J.D. Vance, que inicialmente chegou a defini-lo como o “novo Hitler” – ou se abandonará a cruzada MAGA para redescobrir suas raízes conservadoras e moderadas, como sugere, no Wall Street Journal, a ex-conselheira de Ronald Reagan, Peggy Noonan.

Os democratas, por sua vez, precisam decidir se chegou a hora de aposentar o desgastado establishment representado por figuras como o senador Schumer; se o caminho a seguir é o dos socialistas, como Ocasio-Cortez, Mamdani e El-Sayed, ou se a alternativa está nos chamados neocristãos, como Hamilton, no Kansas, e Talarico, no Texas, que associam Deus à defesa dos direitos humanos.

Nenhum desses processos de autocrítica será indolor, livre de turbulências ou imprevistos. E seria um grave erro supor, ingenuamente, que a onda azul de ontem – azul é a cor dos democratas, em oposição ao vermelho republicano – se traduzirá automaticamente numa vitória da oposição na eleição presidencial de 2028.

Dois anos atrás, muitos, tanto à direita quanto à esquerda, acreditavam que a era Trump representaria um domínio imperial dos Estados Unidos sobre a América e o mundo. Hoje, o presidente está isolado e confuso.

É possível, contudo, que, se também os democratas forem tomados pela hubris – a arrogância desmedida -, pelas velhas disputas internas pelo poder e pelo narcisismo, a balança volte rapidamente a pender para o outro lado. Terça-feira, 3 de novembro, é uma data que confirma a vitalidade da democracia americana.

Mas há uma ressalva fundamental: até janeiro de 2029, Donald Trump continuará detendo poderes praticamente absolutos, tanto em tempos de paz quanto de guerra. E, dada a personalidade narcísica e errática do presidente, ninguém, talvez nem mesmo ele próprio, sabe como decidirá exercê-los.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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