O avanço dos incêndios florestais no sudoeste da França em direção a Bordeaux e a destruição da fauna e da flora elevaram o nível de alerta do governo francês, que enfrenta o que classificou como uma temporada de fogo "sem precedentes". Com uma nova onda de calor prevista para terça-feira, autoridades temem que as altas temperaturas e os ventos dificultem o combate às chamas e ampliem os danos em áreas já devastadas. A ministra da Ecologia, Monique Barbut, afirmou que as perdas para a vida selvagem são "extremamente significativas" e advertiu que o balanço final deverá ser "catastrófico". 50 mil hectares devastados: Espanha autoriza retorno de parte dos moradores às áreas evacuadas após incêndio histórico na região de Madri Vídeo: Cavalos são soltos e correm pelas ruas para escapar de incêndios florestais no sudoeste da França O incêndio mais preocupante está na região de Gironde, onde as chamas já consumiram cerca de 42 mil hectares de floresta e se aproximaram a apenas 15 quilômetros de Bordeaux. Diante da ameaça, o prefeito da cidade, Thomas Cazenave, informou que a administração está preparada para receber um grande número de pessoas caso novas evacuações sejam necessárias. Segundo o New York Times, Cazenave afirmou a jornalistas nesta segunda-feira que é “difícil prever” se toda a cidade precisará ser evacuada.
— Aconteça o que acontecer, teremos soluções porque estamos nos preparando para todas as possibilidades. O nível de umidade aumentou. Mas, por outro lado, continuo sendo muito cauteloso — declarou o prefeito. Voluntários seguram uma mangueira durante um incêndio florestal em uma área de mata próxima a Marcheprime, a cerca de 30 quilômetros de Bordeaux ROMAIN PERROCHEAU / AFP Em visita à região atingida, o presidente Emmanuel Macron afirmou que a França enfrenta um "incêndio florestal sem precedentes", o mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, embora um foco na região de Landes tenha sido controlado, o combate continua em Gironde. Macron destacou que houve progresso nas últimas 24 horas, mas alertou que o aumento das temperaturas e a persistência dos ventos mantêm o cenário instável. — As temperaturas devem subir novamente, o vento ainda está presente e, portanto, devemos permanecer humildes — disse o presidente. Antes dele, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou que o incêndio havia "ganhado vida própria". Galerias Relacionadas Os incêndios já provocaram a evacuação de cerca de 220 mil pessoas na França e de mais de 100 mil na Espanha, onde focos também seguem fora de controle na região oeste de Madri. Em Cestas, ao sul de Bordeaux, o prefeito Jerome Steffe afirmou que 17 mil moradores precisaram deixar suas casas durante a noite após o avanço das chamas. Segundo ele, 240 residências foram destruídas e a área queimada já ultrapassa 42 mil hectares. — Este será o incêndio do século — afirmou. Steffe disse que a propagação do fogo diminuiu, mas alertou que o risco permanece elevado devido às possíveis mudanças na direção do vento e ao transporte de brasas. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou que o país atravessa uma temporada de incêndios sem precedentes. Desde janeiro, já foram registrados 13.566 focos, que destruíram mais de 116 mil hectares de vegetação. Segundo Lecornu, nove em cada dez incêndios são provocados por ação humana, principalmente por descuido, como bitucas de cigarro, churrascos e trabalhos realizados sem as devidas precauções. Ele acrescentou, porém, que parte dos casos é criminosa. Desde 6 de julho, 162 pessoas foram presas por suspeita de envolvimento em incêndios provocados. Milhares são evacuados de destino turístico na França em meio a incêndios florestais, e Espanha declara estado de emergência AFP Fauna devastada Além dos prejuízos a casas, lavouras e veículos, especialistas alertam para o impacto profundo sobre a biodiversidade. Veados, lagartos, anfíbios, aves, insetos e pequenos mamíferos estão entre os animais afetados pela destruição dos habitats. A ministra Monique Barbut afirmou que ainda é cedo para medir a extensão dos danos, mas destacou que as perdas para a fauna são "extremamente significativas". Fotografia mostra um veado morto em Andernos-les-Bains, a cerca de 40 quilômetros de Bordeaux, em 27 de julho de 2026, enquanto um incêndio florestal avança pela mata na região de Gironde, no sudoeste da França ALAIN JOCARD / AFP Em municípios como Le Porge, na costa atlântica, praticamente nenhum animal teria sobrevivido à intensidade das chamas, segundo Laurent Tillon, engenheiro do Escritório Nacional de Florestas. Espécies ameaçadas, como o sapo-de-esporão-ocidental, estão entre as mais vulneráveis por não conseguirem escapar do calor extremo. Também sofreram impactos animais como o lagarto-ocelado, a musaranha-etrusca e diversas espécies de aves e insetos. De acordo com o ornitólogo Grégoire Lois, do Museu Nacional de História Natural de Paris, a morte em massa de insetos comprometerá a recuperação do ecossistema por vários anos. — No ano que vem, aquela área será completamente inóspita — disse. Especialistas também alertam que a fumaça e os gases tóxicos afetam a saúde dos animais sobreviventes, enquanto a destruição das florestas reduz drasticamente as áreas de alimentação e reprodução. Animais que conseguem fugir das chamas acabam disputando espaço e recursos em territórios já ocupados ou se aproximam de rodovias e ferrovias, aumentando o risco de acidentes. O impacto ambiental dos incêndios e as medidas para proteger a fauna serão discutidos pelo gabinete do primeiro-ministro francês nesta terça-feira. Segundo Barbut, a reintrodução de espécies deslocadas pelo fogo é um desafio quando os habitats naturais foram completamente destruídos. — A vida selvagem precisa de um habitat — concluiu a ministra.
O Globo