Ativos locais vão aos piores níveis do ano com temor sobre condução da economia

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Fonte da notícia: Valor Valor

Os ativos brasileiros registraram mais uma sessão negativa ontem e terminaram o dia nos piores patamares observados em 2026. As incertezas relacionadas à condução futura da política econômica no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltaram a pressionar os mercados locais um dia antes da decisão de política monetária do Banco Central (BC).

O dólar comercial terminou o pregão em alta de 0,79%, negociado a R$ 5,4871, no maior nível de fechamento desde o fim de dezembro. Já o Ibovespa caiu 1,42%, aos 165.529 pontos, em seu menor patamar desde o dia 16 de janeiro.

A queda acumulada desde as máximas registradas no mês de outubro é de 20,82%, o que coloca o índice em território de “bear market” (baixa). Os últimos dias foram ocupados pelo debate relacionado à proposta do economista André Lara Resende, um dos autores do Plano Real, de derrubar a Selic para 7,5% em até 12 meses.

A motivação seria o custo elevado do financiamento da dívida, que ele atribui mais a um problema de ordem monetária do que, propriamente, fiscal. Como membros do PT endossaram publicamente as ideias nos últimos dias, participantes do mercado temem que o experimento heterodoxo, caso seja implementado, possa gerar uma reprecificação violenta dos ativos locais, com custos à credibilidade institucional e às reservas internacionais.

Ao mesmo tempo, a ausência de sinalização de uma política econômica voltada ao centro, seja nas nomeações para o ministério da Fazenda ou para as diretorias do Banco Central, segue contribuindo para a piora dos preços de mercado. “Embora duvidemos que a proposta saia do papel, a discussão sugere que o governo Lula pode estar buscando formas de evitar o doloroso ajuste fiscal necessário para estabilizar os mercados", afirma William Jackson, economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics.

“Isso colocaria em xeque nosso cenário-base de que haverá medidas pontuais de austeridade para melhorar o resultado primário nos próximos anos e manteria vivo o risco de novas turbulências nos mercados financeiros.” De acordo com ele, caso a política seja implementada, deve haver um aumento da demanda em razão dos juros mais baixos, mas também inflação mais alta e pressão sobre o real.

“As autoridades provavelmente precisariam adotar controles de capitais, pois, caso contrário, os baixos diferenciais de juros levariam a uma fuga prolongada de capitais”, diz. Para o sócio e gestor da Oby Capital, Camilo Cavalcanti, é cedo para dizer se há espaço para a alta adicional do dólar.

“Ao mesmo tempo em que as sinalizações de caminhos que podem ser perseguidos pela política econômica sugerem um câmbio mais alto, o alto nível dos juros faz seu trabalho tornando ‘cara’ uma posição contra o real. Assim, o ‘timing’ acaba sendo bastante importante”, afirma.

A Oby, no momento, não possui direcionais no mercado doméstico e mantém apenas posições relativas na curva de juros. As taxas tiveram forte alta na sessão de ontem.

O juro do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 avançou de 14,96% para 15,13%; e a do DI de janeiro de 2031 saltou de 15,27% para 15,43%. Em outro desdobramento importante para os mercados, o Relatório Focus, do Banco Central, mostrou piora expressiva nas expectativas de inflação dos agentes, o que alimenta os receios de que a autoridade monetária se verá obrigada a encerrar o ciclo de cortes de juros na reunião de hoje do Copom.

A mediana das expectativas do IPCA para 2027 saltou de 4,34% para 4,76%, enquanto a projeção para a inflação de 2028 subiu de 3,75% para 4%. Houve desancoragem adicional também nas expectativas mais longas: a de 2029 passou de 3,5% para 3,98% e a de 2030 avançou de 3,5% para 3,82%.

Na bolsa, houve preocupação adicional com a defasagem dos preços praticados pela Petrobras, que viu suas ações preferenciais (PN) terminarem o dia em queda de 3,79%. Outras “blue chips” também cederam em bloco: as PN da Vale perderam 2,85%, enquanto as ordinárias do Bradesco lideraram as maiores desvalorizações entre os bancos, com queda de 2,02%.

Um participante do mercado, sob anonimato, afirma que tanto o receio de uma condução heterodoxa da Fazenda quanto as notícias sobre as indicações para o BC e um possível isolamento do presidente da instituição, Gabriel Galípolo, ajudaram a elevar o mau humor dos agentes financeiros ontem, embora, para ele, as preocupações ainda não estejam “totalmente precificadas”.

“Os preços ainda não refletem totalmente esse receio com uma condução mais heterodoxa na Fazenda e no BC; apenas refletem um sinal de alerta, por ora”, diz. Com a indicação de seis diretores até o fim de 2027, o mercado teme que Lula altere o perfil técnico do BC e que a instituição passe a ser mais leniente no combate à inflação.

Para o chefe de análise da Eleven Financial Research, Fernando Siqueira, a proposta de Lara Resende de reduzir os juros para diminuir o déficit público gerou comparações com a Turquia, onde cortes forçados de juros a partir de 2021 foram acompanhados de alta da inflação e de forte desvalorização cambial, e acabaram sendo revertidos.

“É provável que nos próximos dias esse assunto continue impactando o mercado e o noticiário”, escreveu Siqueira em sua página no LinkedIn. “Olhando para o que ocorreu na Turquia, não me espantaria se víssemos uma depreciação do real e um aumento da inflação implícita nos próximos dias.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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