Assédio de torcedores, ataques nas redes e investidas nada profissionais: mulheres compartilham suas vivências no jornalismo esportivo

 

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O ano de 2025 ficou marcado pela quantidade de episódios de violência contra as mulheres no país. E, como espelho da sociedade brasileira, o futebol também foi palco para casos do tipo.

As últimas semanas do ano apresentaram uma sequência de casos que ganharam repercussão e ilustraram a situação vivida pelas mulheres. Episódios de agressão a jornalistas ou criadoras de conteúdo enquanto exerciam sua atividade.

Três delas compartilharam com O GLOBO as situações vivenciadas e falaram sobre como é ser mulher nesse meio: Duda Dalponte, da TV Globo; que levou três puxões de cabelo durante transmissão do aeroFla (festa do torcida em torno do ônibus a caminho do aeroporto) da final da Libertadores; Nani Chemello, da Rádio Inferno, especializada em notícias do Internacional, que teve o fone de ouvido retirado pelo lateral Bernadei e foi intimidada por ele na saída do campo por críticas feitas ao time; e Aline Gomes, da CazéTV; empurrada por um torcedor ao vivo após jogo do Santos, na Vila Belmiro.

Lado a lado, seus relatos mostram experiências comuns à trajetória de muitas mulheres no meio do jornalismo esportivo. De assédio sofrido em gravações com torcedores a investidas nada profissionais de personagens do futebol, passando por ataques nas redes sociais.

Apesar da repercussão que tiveram, os casos não são inéditos. Em 2018, a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo; foi beijada à força por um torcedor. No mesmo ano, Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi chamada de puta e agredida por um homem no estádio. Em 2024, o técnico Abel Ferreira afirmou que “só devia satisfação a três mulheres” após pergunta feita por Alinne Fanelli, da Rádio BandNews.

Que 2026 marque o início de uma mudança.

Duda Dalponte, repórter da TV Globo

Ana Branco

Duda Dalponte, repórter da TV Globo

Na primeira vez que puxaram o meu cabelo durante a cobertura do aeroFla, achei que tivesse sido sem querer. Porque nesses eventos ao vivo acontecem coisas fora do comum: um empurrão, uma cerveja que cai na gente... Uma vez, na festa do título da Libertadores do Botafogo, uma mulher pintada de preto esbarrou em mim e me sujou inteira!

No segundo puxão entendi que foi proposital. Ainda assim, consegui terminar a entrada ao vivo. No terceiro, virei e perguntei quem foi. O pessoal se solidarizou. Mas ninguém apontou. Tinha muita gente, os seguranças também não viram.

Naquele momento senti muita raiva. Mas não deu para processar tudo. Quando estava voltando, no carro, é que comecei a entender. Muita gente me mandou o vídeo. E ficar vendo foi muito ruim. Minha família é de Santa Catarina e ficou preocupada.

Desde pequena eu pensava em trabalhar com TV. Na faculdade me apaixonei pelo jornalismo esportivo. No primeiro semestre trabalhei num programa da rádio universitária que comentava as rodadas do Brasileirão. E, em 2019, ano da Copa do Mundo de Futebol Feminino, algumas meninas falaram comigo: “Queremos fazer uma cobertura na rádio, mas não nos sentimos à vontade naquele ambiente masculino. Toparia fazer conosco um grupo só de mulheres?”. Entrei como narradora, fizemos dez jogos e uma porta se abriu.

Passei a ser chamada para narrar em web rádios. Uma narração minha de um jogo do Avaí viralizou e acabei virando também locutora do Estádio da Ressacada por um tempo.

Virei estagiária da afiliada da Globo em Santa Catarina, viram que eu ia bem no vídeo e me chamaram para apresentar o Globo Esporte. Depois passei dois meses na Globo de São Paulo e, há três anos, trabalho no Rio.

O dia a dia, em geral, não é difícil. As pessoas estão entendendo que nosso lugar é ali também. Mas há episódios que são exceções. Nas ruas, alguns torcedores me chamam de linda e fazem comentários desnecessários. Para falar com pessoas do meio do futebol, tem que reforçar que o contato é profissional. Várias mulheres já tinham me alertado: às vezes, querem saber mais da nossa vida, perguntam coisas que não são da profissão.

Temos que estar muito mais preparadas do que qualquer homem. Porque cascas de banana que não aparecem para eles podem surgir para nós. Conquistamos um lugar, mas ainda não é para sempre. Esperamos um dia não precisar ficar lutando, só exercer nossa profissão.

Por isso, entendi que a repercussão da imagem do puxão de cabelo foi importante. Para falarmos mais sobre o tema e não deixarmos parar debaixo do tapete.

Nani Chemello, repórter da Rádio Inferno

Arquivo pessoal

Nani Chemello, repórter da Rádio Inferno

Não gosto de falar sobre aquele caso no Beira-Rio. Pelo nível de agressividade de algumas mensagens e comentários. Tive que restringir interações no Instagram e me afastar do X. Aquela semana foi bem difícil. Já vinha com uma carga emocional muito grande pelo risco do Inter ser rebaixado. E aí, no dia seguinte ao jogo e ao episódio, eu chorei. Precisava para me acalmar.

Vou ao Beira-Rio desde meses de idade. Minha avó é sócia, minha mãe sempre frequentou. É a minha casa. E minha realização profissional também passa pelo Inter.

Minha primeira escolha foi pela gastronomia. Mas percebi que não me encaixava. Ao mesmo tempo, na vida pessoal saí de um relacionamento abusivo. Foi neste momento que entrei para um grupo de coloradas que se reuniam para ir aos jogos. Tudo mudou.

Um repórter levou algumas delas para uma live no canal dele no YouTube. Ele gostou de um comentário que deixei e me chamou para participar. Já na primeira transmissão me apaixonei por aquilo. Aí fiz curso técnico de radialista, entrei para aquele canal e depois fui para a Rádio Inferno, que só fala do Inter, onde estou há quatro anos.

Dentro da rádio, dei muita sorte. Mas, do lado de fora, já passei por situações que às vezes me fazem achar que o ambiente não me quer.

Algumas são veladas. Nas salas de imprensa dos estádios, alguns jornalistas (principalmente homens mais velhos) ignoram as repórteres mulheres. Outras são mais escancaradas.

Cobrindo um jogo na Arena MRV, em Belo Horizonte, entrei no elevador com dois repórteres. Era dia dos namorados, e um deles abordou a ascensorista com coisas como: “Não quer passar o dia dos namorados comigo?”. Tive que interromper: “Não estão vendo ela constrangida?!”.

Na tribuna do Beira-Rio, já reparei que um jornalista tirava fotos da minha bunda. Dias depois ele me mandou um e-mail justificando que era para um trabalho de faculdade. Olha a audácia!

E não são só jornalistas. Fiquei um ano sem entrevistar torcida no pátio do Beira-Rio porque tentam te beijar, agarrar sua cintura... Quando a fase do Inter é boa e as pessoas ficam mais animadas, infelizmente isso é comum. Principalmente à noite.

Já recebi mensagem por rede social de ex-jogador e ex-membro de comissão técnica me chamando para sair. Nunca respondi.

Faço terapia e tenho uma rede de apoio muito forte: família, amigos, namorada. Nesse episódio do Bernabei, recebi mensagens de solidariedade de jornalistas do Brasil todo. Por isso entendo que a repercussão é necessária. Até pela quantidade de outros casos que a gente vê. Então me apego às pessoas que gostam de mim e no trabalho que amo fazer. Não vão conseguir me tirar desse espaço. Enquanto quiser eu vou estar ali.

Aline Gomes, criadora de conteúdo e repórter da Cazé TV

Arquivo pessoal

Aline Gomes, repórter da Cazé TV

Embora tenha me passado a paixão pelo Santos, meu pai nunca me incentivou a ir a jogos. Dizia que não era ambiente seguro para mulheres. “Pai, com 18 anos eu vou, você querendo ou não”, eu dizia. E foi o que aconteceu. Comecei a ir sozinha mesmo e nunca tive medo. E fui mostrando, de forma orgânica, nas minhas redes sociais.

Aquela não era minha profissão. Sou da área de TI. Mas deu certo. A ponto de ter essa parceria com a Cazé TV para criar conteúdo para redes e transmissões. Um torcedor falando para a torcida. Também por isso fiquei chateada com o que aconteceu naquele dia do lado de fora da Vila Belmiro.

Quando íamos entrar no ar, estava todo mundo feliz. O Santos havia vencido e permanecido na Série A. Começou uma confusão generalizada que eu não sabia o que era, me afastei por segurança, pedi ao cinegrafista para evitar gravar rostos dos torcedores — porque eles não gostam e eu respeito — e comecei a relatar.

Aquele cara veio por um lado lado que a câmera não pegava e passou muito rápido na frente, puxando os cabos. Eu usava um ponto no ouvido. Então me machucou bastante. Saiu puxando várias coisas. A câmera foi ao chão. Ele passou olhando para a gente como se estivesse certo. Infelizmente ninguém o parou e nem conseguiu identificá-lo.

Tive uma crise de ansiedade forte. Sentei na calçada e tive falta de ar, pés formigando... Outros torcedores me ajudaram, e isso foi importante para mim, por mostrar que o cara não resume toda uma torcida.

Trabalhei a cabeça para não deixar aquilo me consumir. E recebi muitos apoios. Isso foi me tranquilizando e me ajudando a ver a situação pelo lado do copo meio cheio.

Nunca havia tido uma experiência ruim como mulher nesse meio. Ainda temos muito para conquistar. Mas, no geral, acho que sempre fui bem tratada. A exceção é a internet.

É um ambiente muito confortável para destilar ódio. Quando posto sobre futebol, tenho que ficar provando que sei. Porque sempre vai ter alguém para atacar.

Uma vez gravei um vídeo com o Neymar e brinquei dizendo que nunca mais ia lavar a mão. Fui muito criticada: “Sua nojenta”, “Amar só a Deus”. Uma semana depois outro criador fez o mesmo e as reações eram: “Você é foda”. São coisas sutis.

Mas também tem as não sutis, como eu dar uma opinião e ser xingada ou responderem “Vai lavar uma louça”. É a frase que mais recebo. Chega a ser cansativo. Mas como é meu sonho, tento pegar como combustível. Estão se incomodando por que falo de futebol? Então vou continuar. Da mesma forma que passei a ir aos estádios mesmo sem incentivo.

Hoje, inclusive, meu pai entende que, além de eu gostar muito, é a minha profissão. Que a gente tem que buscar nosso lugar, que não há espaço só de homem ou só de mulher.