Às vésperas da eleição, dirigente de conselho que fiscaliza Meta cobra rigor para evitar falhas nas redes

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A dois dias do segundo turno das eleições presidenciais, o copresidente do Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta, conhecido como Oversight Board, Paolo Carozza, cobrou que a empresa de Mark Zuckerberg aplique com rigor os protocolos desenvolvidos para evitar falhas na moderação de conteúdos durante períodos eleitorais.

Em entrevista ao GLOBO, ao fim de uma palestra na Fundação Getúlio Vargas (FGV), na Praia de Botafogo, na Zona Sul do Rio, nesta sexta-feira, ele afirmou que a adoção desses mecanismos é fundamental para proteger a integridade das eleições e impedir a remoção indevida de publicações legítimas nas redes sociais.

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— A Meta possui protocolos de crise que desenvolveu em resposta às nossas recomendações anteriores, especialmente para contextos eleitorais. Acredito que a empresa precisa implementá-los, continuar investindo em sua manutenção e aplicá-los com seriedade — afirmou Carozza, que também é professor de Direito da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

O Oversight Board é formado por especialistas externos e independentes de diferentes países e avalia decisões da empresa sobre a permanência ou remoção de conteúdos em plataformas como Facebook e Instagram. Embora financiado pela própria Meta, o órgão possui uma estrutura administrativa independente.

Os recursos destinados ao seu funcionamento são administrados por terceiros, responsáveis por garantir sua autonomia financeira, e não podem ser retirados pela empresa como retaliação a decisões contrárias aos seus interesses. 'Na cabeça dos candidatos': Flávio tem o pai e Lula entre as palavras que mais usou no ano; petista foca no apelo social

A cobrança ocorre em meio a uma série de questionamentos sobre a atuação da Meta na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Na quinta-feira, o Instagram retirou do ar um vídeo estrelado pelo cantor MC Cabelinho com críticas à trajetória política de Flávio, sob a justificativa de que o conteúdo apresentava sinais de utilização de inteligência artificial.

Os responsáveis pela produção negaram o uso da tecnologia e contestaram a decisão. Uma nova publicação do vídeo foi feita posteriormente.

No mesmo dia, um grupo de 13 parlamentares dos Estados Unidos, entre eles o senador Bernie Sanders, cobrou explicações de Zuckerberg sobre denúncias de tratamento desigual entre as campanhas presidenciais brasileiras. Em carta enviada ao executivo, os congressistas também defenderam que auditores independentes tenham acesso a dados internos da companhia para avaliar possíveis falhas.

A Meta nega favorecimento político e atribui os problemas identificados a falhas técnicas. Além disso, Lula criticou a atuação da empresa durante uma transmissão ao vivo promovida pelo deputado federal André Janones (Rede-MG).

O presidente afirmou que a Meta precisará ser "reinventada" e acusou a companhia de favorecer determinados grupos em detrimento da democracia. 'Pela democracia': Madonna compartilha post que defende voto em Lula

Questionado sobre a retirada do vídeo de MC Cabelinho, Carozza evitou avaliar o episódio, alegando desconhecer os detalhes da decisão. Ele também ressaltou não ter acesso ao funcionamento interno dos sistemas da Meta, mas insistiu na importância dos protocolos de proteção eleitoral.

— Não sei o que está acontecendo dentro da Meta, então não posso comentar o que estão ou não fazendo. Mas sabemos que esses protocolos existem para ajudar a proteger a integridade eleitoral e evitar que informações legítimas sejam removidas das plataformas.

Por isso, precisam ser aplicados com seriedade — disse. Defesa de auditorias independentes

Carozza também defendeu a realização de auditorias independentes para investigar possíveis falhas na moderação de conteúdos. Segundo ele, embora os erros fujam do controle diante do volume de publicações processadas pelas plataformas, é possível reduzir sua ocorrência e garantir que decisões equivocadas sejam corrigidas rapidamente.

— A supervisão independente das plataformas é sempre necessária, em todos os momentos. Os erros sempre vão acontecer, são inevitáveis.

Não é possível eliminá-los completamente, mas é possível tentar reduzi-los e garantir que haja supervisão humana e responsabilização. O representante do conselho destacou que auditorias realizadas após episódios controversos podem ajudar a identificar as causas dos erros e eventuais problemas estruturais que contribuíram para sua ocorrência.

Segundo ele, o objetivo deve ser compreender não apenas uma decisão equivocada, mas os mecanismos que permitiram que ela acontecesse. — As auditorias posteriores, quando há circunstâncias difíceis, certamente podem ajudar a produzir informações sobre por que as falhas aconteceram.

É uma ferramenta extremamente útil — acrescentou. Ele revelou ainda que a Meta implementou cerca de 75% das aproximadamente 350 recomendações apresentadas pelo Comitê de Supervisão de Conteúdo.

Segundo o professor, as orientações restantes não foram adotadas por diferentes razões, que incluem divergências da companhia quanto às propostas, dificuldades técnicas e avaliações de que determinadas medidas já estariam sendo executadas de outras maneiras. — Às vezes, a Meta simplesmente discorda de nós.

Em outras ocasiões, considera que a implementação é tecnicamente difícil demais. Há também situações em que acredita que já está fazendo o que pedimos, mas de uma maneira diferente — explicou.

Na quarta-feira, durante evento promovido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), Carozza já havia alertado para a gravidade das denúncias envolvendo a atuação da Meta nas eleições brasileiras. Na ocasião, afirmou que o conselho não havia realizado uma investigação independente sobre os episódios recentes, mas destacou a necessidade de aprimorar os mecanismos de transparência, supervisão humana e acesso de pesquisadores aos dados das plataformas.

Questionado nesta sexta-feira sobre a atuação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, diante das controvérsias envolvendo a Meta, Carozza preferiu não opinar. Ele afirmou não conhecer suficientemente as medidas adotadas pelo magistrado para fazer uma avaliação sobre sua condução do tema.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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