247 – Investidores que apostaram na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026 acumularam prejuízos que chegaram a superar todo o patrimônio aplicado no mercado financeiro. De acordo com matéria publicada nesta quinta-feira (29) pelo jornal O Estado de S.
Paulo, publicada após o segundo turno de domingo (25), pessoas físicas realizaram operações alavancadas com derivativos, confiando em pesquisas que apontavam vantagem para o candidato da direita. Um investidor perdeu R$ 1,2 milhão, enquanto um funcionário de uma estatal viu desaparecerem seus R$ 400 mil em aplicações e ainda acumulou uma dívida de R$ 700 mil com a plataforma XP.
O gestor Hégler Henrique, sócio da Amplus Capital, afirmou que recebeu pedidos de ajuda de mais de 40 pessoas que tiveram prejuízos relacionados às apostas eleitorais. A dimensão das perdas reflete o risco assumido por investidores que utilizaram mecanismos de alavancagem para ampliar os ganhos esperados com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
Essas operações permitem movimentar valores superiores ao capital disponível, mas também podem gerar prejuízos que ultrapassam a quantia inicialmente investida. O resultado das urnas contrariou as expectativas de parte do mercado financeiro.
No primeiro pregão após a reeleição de Lula, na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88%. Investidor perde R$ 400 mil e fica devendo R$ 700 mil à XP
Um dos episódios envolve um funcionário de uma empresa estatal que preferiu não divulgar sua identidade. Convencido de que Flávio Bolsonaro venceria a eleição, ele utilizou seu patrimônio de aproximadamente R$ 400 mil como garantia para assumir uma posição no mercado de opções.
O investidor apostou na valorização das ações do Banco do Brasil e vendeu opções de venda, conhecidas como puts, em volume superior à sua capacidade financeira. A estratégia poderia gerar ganhos caso os papéis permanecessem acima do preço estabelecido nos contratos.
A vitória de Lula desencadeou uma reação negativa nas ações do banco estatal, frustrando a expectativa do investidor. A desvalorização dos papéis provocou perdas superiores aos recursos que ele havia depositado como garantia.
Em mensagem enviada ao gestor Hégler Henrique, o funcionário relatou a dimensão do prejuízo e atribuiu sua decisão à confiança no resultado eleitoral que esperava. “Dormi vendido num put (opção de venda de ações) de BBAS3 (Banco do Brasil) num volume astronômico, pensando na vitória do Flávio.
Me arrombei. Quebrei a conta e fiquei devendo -700k na XP.”
A corretora realizou uma zeragem compulsória da posição para limitar a exposição da conta diante do aumento das perdas. O procedimento encerrou os contratos, mas não impediu que o saldo negativo chegasse a aproximadamente R$ 700 mil, segundo o relato.
O investidor perdeu integralmente os R$ 400 mil que havia utilizado como garantia. Somados o patrimônio consumido pela operação e a dívida restante, o impacto financeiro relatado alcançou cerca de R$ 1,1 milhão.
Gestor relata impacto das perdas sobre famílias Após sofrer o prejuízo, o funcionário da estatal procurou Hégler Henrique em busca de orientação jurídica para lidar com a dívida.
Ele solicitou a indicação de um profissional especializado em disputas envolvendo instituições financeiras. “Vc conhece algum advogado de contencioso bancário e ou mercado de capitais para me indicar”, escreveu o investidor em uma mensagem privada.
O sócio da Amplus Capital afirmou que o contato revelou as consequências pessoais das operações realizadas com base nas expectativas eleitorais. “Me emocionei quando conversamos porque ele tem uma filha da idade da minha”, relatou o gestor.
“Perder tudo e ainda ficar devendo R$ 700 mil faz falta para muita gente.” O profissional organizou uma força-tarefa com integrantes de sua equipe para atender pessoas que enfrentam situações semelhantes.
Segundo ele, mais de 40 investidores procuraram orientação após a divulgação do resultado presidencial. “Mas tenho certeza de que são milhares que se deram mal não só no mercado de ações, mas também com dólar e índices futuros”, afirmou.
Como a aposta na vitória de Flávio provocou prejuízos O caso do funcionário da estatal envolve um instrumento financeiro conhecido como opção de venda.
Esse contrato concede ao comprador o direito de vender determinado ativo por um preço estabelecido previamente, dentro das condições previstas na operação. Quem vende a opção recebe um prêmio, mas assume a obrigação de comprar o ativo pelo preço contratado caso o titular exerça esse direito.
Se a cotação cair de maneira acentuada, o vendedor pode acumular perdas. O investidor que apostou na vitória de Flávio Bolsonaro assumiu compromissos de compra de ações do Banco do Brasil com a expectativa de valorização dos papéis.
A queda registrada após o segundo turno tornou sua posição financeiramente desfavorável. Como o volume dos contratos ultrapassava o patrimônio disponível, a perda consumiu os recursos depositados e gerou um saldo devedor.
Esse mecanismo explica por que a alavancagem pode produzir prejuízos superiores ao capital inicial. A situação também evidencia a diferença entre comprar ações com recursos próprios e assumir obrigações financeiras por meio de derivativos.
Na compra convencional de ações sem alavancagem, a perda máxima corresponde ao valor aplicado. Em determinadas estratégias com derivativos, as perdas podem ultrapassar esse limite.
Mais investidores relatam perdas na Bolsa e na Polymarket Os prejuízos também apareceram em operações com outros ativos financeiros.
O especialista Victor Garcia, que trabalha com análise de fluxo de ordens, afirmou ter recebido mensagens de investidores que perderam recursos após apostar no resultado presidencial. A técnica utilizada pelo profissional acompanha a movimentação de ordens de compra e venda no mercado para identificar a atuação dos participantes e avaliar a dinâmica das negociações.
“Estou conversando com pessoas que perderam todo o patrimônio apostando na bolsa e na Polymarket (mercado de previsões) em uma ‘eleição ganha’”, publicou Garcia. A Polymarket permite negociar contratos associados à ocorrência de determinados acontecimentos, incluindo resultados eleitorais.
Participantes podem ganhar ou perder dinheiro conforme o desfecho dos eventos sobre os quais fizeram suas apostas. Os relatos indicam que a expectativa de vitória do candidato do PL influenciou decisões de investimento em diferentes mercados, desde ações e opções até contratos futuros e plataformas de previsão.
Pesquisas eleitorais influenciaram decisões de investimento O sócio da Amplus Capital avalia que muitos investidores não assumiram posições arriscadas apenas por identificação política com Flávio Bolsonaro.
Segundo Hégler Henrique, a confiança nas pesquisas eleitorais levou parte desse público a tratar a vitória do candidato como um resultado praticamente certo. A interpretação dos levantamentos teria contribuído para a concentração de recursos em operações que dependiam de um desfecho específico nas urnas.
Com a vitória de Lula, a mudança das expectativas provocou ajustes nos preços dos ativos. O gestor também atribui parte dos prejuízos à influência de profissionais e comunicadores que divulgam estratégias financeiras sem apresentar adequadamente os riscos envolvidos.
“As pessoas físicas confiam muito em assessores de investimento e influenciadores que disseminam operações extremamente arriscadas”, afirmou. “O mais importante é conhecer, estudar e entender os riscos de operar num momento tão complexo e de extrema volatilidade.”
A volatilidade posterior à eleição atingiu diversos segmentos da Bolsa brasileira. Além do Banco do Brasil, as ações do BTG Pactual (BPAC11) perderam 24,83%, enquanto Bradesco (BBDC4) e Itaú Unibanco (ITUB4) recuaram 21,70% e 13,66%, respectivamente, no pregão de segunda-feira (26).
A queda das cotações ampliou as perdas de investidores que haviam assumido compromissos financeiros elevados, especialmente nas estratégias que exigiam garantias adicionais diante da desvalorização dos ativos. Endividamento leva investidores a buscar acordos
O gestor Hégler Henrique afirmou que as pessoas que tiveram prejuízos precisam avaliar as condições de suas posições e a dimensão das dívidas acumuladas. Nos casos de operações alavancadas, novas tentativas de recuperar rapidamente o dinheiro podem aumentar a exposição financeira.
“A orientação que eu dou é a zerar essas operações para preservar algum valor residual e orientar para que ele evite tentar recuperar os valores a qualquer custo porque muitos acabam perdendo ainda mais”, explicou. O profissional também mencionou a possibilidade de negociar os saldos devedores com as instituições financeiras, especialmente quando o encerramento das posições não elimina os compromissos assumidos pelo investidor.
“Nesse caso, o que dá para fazer é pelo menos buscar algum acordo para negociar e parcelar a dívida que porventura ficou.” Os relatos reunidos pelo gestor e por outros profissionais do mercado mostram como a combinação entre expectativas eleitorais, operações com derivativos e uso de alavancagem produziu consequências financeiras para investidores individuais.
No caso do funcionário da estatal, a aposta na derrota de Lula terminou com a perda de suas economias e a formação de uma dívida superior ao patrimônio que possuía antes da eleição. Outros investidores continuam procurando orientação para lidar com os prejuízos após a mudança das condições do mercado financeiro.
Brasil 247