Aposta do Brasil para o Oscar, ‘Feito pipa’ chega aos cinemas: ‘Histórias que precisamos contar’, diz Lázaro Ramos

Aposta do Brasil para o Oscar, ‘Feito pipa’ chega aos cinemas: ‘Histórias que precisamos contar’, diz Lázaro Ramos - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Após sua estreia mundial no Festival de Berlim, em fevereiro, e passar por mais de 50 mostras e festivais pelo mundo, “Feito pipa”, de Allan Deberton, chega finalmente hoje aos cinemas brasileiros. Em setembro, o longa foi escolhido para representar o Brasil na corrida por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional, e tentará seguir os passos de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, vencedor na categoria, e “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, finalista.

Ao mesmo tempo que chega ao público brasileiro, o filme vive momento relevante em sua trajetória de divulgação internacional. No domingo, “Feito pipa” foi exibido no Los Angeles Brazilian Film Festival, dedicado à promoção do cinema brasileiro na cidade californiana.

No dia seguinte, também em LA, o ator já indicado ao Oscar Wagner Moura apresentou sessão voltada para membros da Academia. 'Feito pipa': Wagner Moura apresenta sessão de filme com Lázaro Ramos em Los Angeles; veja fotos

'Ficamos à mercê da boa vontade política': 'Minha melhor amiga' salva ano do cinema brasileiro, mas cenário preocupa analistas — Na sequência, teremos mais screenings em Los Angeles, além de sessões em São Francisco, Chicago, Nova York, Londres, Madri e diversas outras capitais do mundo.

São oportunidades importantes para ampliar a visibilidade do filme e criar conexões com o público — explica Deberton, de 44 anos. — Nosso objetivo é conquistar uma vaga na shortlist dos 15 filmes que será divulgada no dia 15 de dezembro.

Estamos conscientes dos desafios, ainda mais este ano, com número recorde de qualificados na categoria (são 105 filmes de diversos países na disputa). Vivemos essa etapa com entusiasmo, responsabilidade e a alegria de perceber a torcida do Brasil e de todos que estão abraçando o projeto.

Na agenda internacional, o diretor conta com a companhia de Lázaro Ramos, vencedor do Kikito de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado pelo trabalho no longa. — Ser escolhido o representante brasileiro gera uma certa ansiedade, é uma responsabilidade grande, mas estou muito feliz principalmente por causa do resultado do filme com as plateias.

Estou animado para a campanha e para tentar fazer muitos votantes assistirem ao filme, sabendo que essa repercussão internacional também pode ajudar a fazer as pessoas se interessarem pelo filme no Brasil — aponta Lázaro, de 48 anos. Lázaro Ramos e Yuri Gomes em cena de "Feito pipa", de Allan Deberton

Divulgação / Jamille Queiroz “Feito pipa” conta a história de Gugu (Yuri Gomes), um menino apaixonado por futebol e dança que vive no sertão cearense.

Criado de maneira livre e afetuosa pela avó, Dilma (Teca Pereira), ele se vê diante de um grande desafio quando começa a notar que a avó passa por problemas de saúde. Sem querer mudar para a casa do pai conservador, Batista (Lázaro Ramos), com quem tem uma relação difícil, ele tenta de toda maneira esconder os problemas de Dilma.

Ao lado do roteirista André Araújo, Deberton conta que trabalhou sua trama de “amadurecimento queer” tentando evitar estereótipos. — Existe essa visão de que a criança ou a pessoa queer vai ser aquela que gosta apenas de divas pop ou que vai sempre expor seu lugar feminino, mas queria colocar o personagem do Gugu como uma incógnita, queria colocar ele num lugar de experiência.

Ele gosta de dançar, mas também ama futebol — destaca o diretor. Para encontrar Gugu, Deberton e a diretora de elenco Luciana Vieira testaram mais de 700 crianças.

Até que chegaram a Yuri, um menino de 10 anos de Salvador que “tinha um lado introspectivo, mas a capacidade de entrar em ebulição”, lembra o diretor. — Foi uma experiência incrível que nunca tinha vivido.

Pretendo fazer muito mais filmes depois desse — diz Yuri, hoje com 12 anos. — A parte de dançar foi fácil para mim, porque já fazia aulas de dança.

O mais desafiador foi jogar bola. Yuri nunca tinha atuado antes de ser selecionado para “Feito pipa”, mas já tinha experiência no mundo da arte como parte do grupo de dança do Projeto Axé, ONG baiana voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

— O Yuri é um menino com que tenho muita identificação. É uma criança baiana, que desde muito cedo faz teatro no Projeto Axé.

É um menino preto extremamente talentoso e vejo que a arte fez diferença na vida dele — diz Lázaro sobre seu filho na ficção. — Ele é alma desse filme.

Ele tem o talento, a espontaneidade e o frescor da criança, mas também já entende como funciona um filme. Hoje, eu torço muito e tenho uma admiração profunda por ele.

Sonho que virou realidade O encontro entre Lázaro Ramos e Allan Deberton nasce de um desejo por parte do ator, que se encantou ao assistir ao primeiro longa do cineasta, “Pacarrete”, grande vencedor do Festival de Gramado de 2019.

Teca Pereira, Wagner Moura, Yuri Gomes, Allan Deberton e Lázaro Ramos em sessão de "Feito pipa", em Los Angeles Divulgação / Paula Neves

— Faço cinema há muitos anos, já fiz todo tipo de filme. De alguns anos para cá, venho pensando muito em quais projetos me envolver.

Quero fazer filmes que vão contribuir para aquilo que eu acho que o cinema brasileiro precisa e merece. Quando eu vi “Pacarrete”, eu senti que o cinema brasileiro precisava daquele olhar e falei com o Allan que queria trabalhar com ele — lembra o ator.

— O Allan tem um olhar sobre o Nordeste que é delicado, curioso, com personagens complexos e sem esteriótipos. Não é só o roteiro que me atrai, são as histórias que precisamos contar.

Deberton lembra do primeiro contato com Lázaro e de como foi para um realizador na época em seus primeiros passos ter um ator de grande projeção manifestando interesse numa parceria. — Foi um sonho, mas também uma responsabilidade.

Porque carrega também tentar acertar, fazer jus a esse convite, dar algo em troca por tanta generosidade. Na verdade, Lázaro nos presenteou diversas vezes neste projeto.

Não só nessa vontade de participar, mas principalmente pela disposição de trabalhar junto — conta o diretor cearense. — Ele ajudou muito a trazer o Yuri para dentro do projeto ao brincar e conversar com ele.

‘O pai ama esse menino’ Feliz com o resultado da parceria, Lázaro revela que encontrou em “Feito pipa” o tipo de personagem que tem buscado.

Ele dá vida a um pai conservador, duro, que ama o filho, mas claramente não sabe lidar com sua realidade como criança queer. — Passei muito tempo fazendo personagens gostáveis, carismáticos, sorridentes e empáticos.

E estava querendo muito me entender como ator, entender como eu faria personagens como este. Na minha carreira, não tinha tido a oportunidade de interpretar personagens como o Batista e o Vicente (personagem do ator no thriller “Antártida”, lançado em agosto).

São homens lutando contra os códigos masculinos que receberam — defende o ator. — Foi um aprendizado pensar estes personagens não como monstros distantes de mim.

O pai que faço em “Feito pipa” ama esse menino, mas tem uma impossibilidade de aceitá-lo como ele é. Foi um desafio muito interessante.

Talvez tenha sido o trabalho que eu mais esculpi. Lázaro Ramos e Yuri Gomes em cena de "Feito pipa", de Allan Deberton

Divulgação Lázaro aponta “Feito pipa” como o tipo de “histórias que o audiovisual nacional deve contar”.

— No passado, acho que fizemos filmes por encomenda do mercado ou do algoritmo, fizemos alguns filmes que não têm alma, que terminam e você não lembra da história ou do nome do protagonista. Acho que não podemos perder a nossa assinatura do que é o cinema brasileiro.

E isso “Feito pipa” tem de sobra — conclui o ator.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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