A Finlândia viu uma onda de indignação crescer no país e ampliar o debate sobre os custos ambientais da expansão da inteligência artificial (IA) após o Google derrubar milhares de árvores em duas áreas destinadas à construção de centros de dados. As obras foram temporariamente suspensas pelas autoridades, mas moradores e ambientalistas permanecem questionando os benefícios econômicos dos investimentos das gigantes de tecnologia, diante dos possíveis impactos sobre o meio ambiente e as comunidades locais.
Contexto: Finlândia freia construção de dois ‘data centers’ da Google por impacto ambiental Quer morar fora do Brasil? Guia interativo reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A controvérsia envolve terrenos nas regiões de Muhos e Otanmäki, no norte do país, que integram um projeto de infraestrutura de IA do Google avaliado em aproximadamente € 13 bilhões (cerca de R$ 73 bilhões). Trata-se do maior investimento desse tipo já anunciado na Finlândia, que se tornou um dos principais destinos da expansão global dos centros de dados, impulsionada pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial. Em Muhos, uma área de 330 hectares de floresta foi amplamente desmatada nos últimos meses. Segundo estimativas citadas pelo The Guardian, cerca de 250 mil árvores ocupavam o terreno antes da chegada do Google. Agora, todas desapareceram, enquanto a ecologista Mari Annala, da Associação Finlandesa para a Conservação da Natureza (SLL), estima que outras 150 mil árvores tenham sido derrubadas em Otanmäki.
Depois que a área foi desmatada ilegalmente para construir um centro de dados — removendo até mesmo a camada superficial do solo —, tudo o que restou foi uma vasta extensão de lama, marcada pelos rastros de máquinas, poças d’água e montes de terras, raízes e galhos, publicou o Guardian. Ao jornal britânico, moradores afirmaram que a água barrenta que escorre do terreno está chegando a um riacho que deságua no rio Oulujoki.
— Não acaba. Continua, continua, sem parar — disse Annala, acrescentando que, como o desmatamento foi realizado ilegalmente, a madeira retirada dos dois terrenos não pode ser vendida a indústrias de processamento.
‘Banho de água fria’ No início do mês, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão (LVV) determinou que o Google interrompesse temporariamente os trabalhos nos dois terrenos, afirmando que a empresa não realizou as avaliações de impacto ambiental necessárias antes do desmatamento. Na semana passada, o diretor do Google na Finlândia, Antti Järvinen, pediu desculpas, mas disse que a companhia agiu “com o melhor entendimento” que tinha “naquele momento”.
A revelação das irregularidades, no entanto, provocou grande reação pública em um país onde a preservação da natureza é motivo de orgulho nacional. Mais de 93 mil pessoas assinaram uma petição exigindo regras mais rígidas para a instalação de centros de dados e a criação de uma taxa destinada a compensar comunidades locais pelos danos ambientais.
Desde que o caso veio à tona, o primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo, descreveu o episódio em Muhos como um “banho de água fria”. Já a presidente do conselho da SLL, Hanna Halmeenpää, afirmou ter ficado incrédula ao descobrir que o Google havia descumprido a legislação. Segundo ela, o sistema finlandês depende fortemente da confiança no cumprimento das regras, algo de que, disse, a empresa “se aproveitou”. — Nunca ouvi falar de nenhuma empresa que tenha feito algo assim na Finlândia. Eles compraram aquela enorme área de terra e simplesmente começaram a derrubar as árvores, assim, sem mais nem menos — disse ela ao Guardian, acrescentando que a velocidade com que os projetos avançaram também surpreendeu a população e provocou questionamentos sobre a necessidade de receber tantos investimentos do setor.
Hanna Halmeenpää, presidente da Associação Finlandesa para a Conservação da Natureza, perto de área destinada a centro de dados do Google em Muhos, na Finlândia Alessandro Rampazzo/AFP Investimentos bilionários Com 145 novos centros de dados em diferentes estágios de planejamento, a Finlândia se tornou um dos principais destinos da recente onda de expansão das empresas de tecnologia. Além da relativa estabilidade geopolítica e geológica e da disponibilidade de grandes extensões de terra, o clima frio torna o país capaz de reduzir os custos de energia necessários para as instalações, tornando-o especialmente atraente para empresas de tecnologia.
O governo finlandês, que promoveu profundos cortes de gastos, tem incentivado a chegada desses investimentos. No mês passado, quando os planos do Google foram anunciados, Orpo afirmou que atrair capital era uma “prioridade máxima” e destacou que o valor da economia de dados ultrapassava os investimentos diretos. Segundo ele, o acordo com a empresa americana proporcionaria “benefícios duradouros para ambas as partes”. Nos Estados Unidos, porém, o projeto atraiu críticas do presidente Donald Trump, que sustenta que os centros de dados devem ser construídos em território americano. Em setembro, ele pediu publicamente que o Google reconsiderasse a decisão de instalar as estruturas na Finlândia, chegando a escrever que não estava “nada contente com isso”.
Ao mesmo tempo, na Finlândia, a expansão do setor passou a ser questionada por seus efeitos sobre os preços da energia para as famílias, além do uso de fontes renováveis para abastecer multinacionais e os benefícios efetivos para a economia nacional. A expectativa é que o tema se torne uma das principais questões das eleições previstas para abril. Para Jussi Kangasharju, chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade de Helsinque, embora os centros possam gerar empregos, os benefícios em escala nacional são mínimos.
— Na realidade, para a Finlândia, não há benefícios. São empresas internacionais que atendem clientes internacionais. Muito pouco do imposto sobre os lucros das empresas fica na Finlândia. No fim das contas, os centros de dados trazem pouquíssimos benefícios para qualquer pessoa além de seus operadores — afirmou ao Guardian. Legislação defasada A velocidade dos investimentos também expôs dificuldades da legislação em acompanhar a expansão do setor. Enquanto as regras ainda passam por adaptações, há uma corrida para colocar os projetos em andamento o mais rapidamente possível.
Algumas pessoas defendem a criação de um órgão centralizado para coordenar os projetos de centros de dados, em vez de deixar grande parte das decisões nas mãos das administrações municipais, que provavelmente darão prioridade às necessidades imediatas de suas regiões. Em Muhos e Otanmäki, embora haja moradores que apoiem os projetos, muitos acreditam que os municípios aceitaram acordos pouco vantajosos.
Morador de Muhos, Antti Jakonen afirmou que, embora as árvores derrubadas representem uma pequena parcela das florestas finlandesas, a maneira como o desmatamento foi realizado é inaceitável. Ex-empresário e pescador, Jakonen defende que o Google ofereça uma compensação ambiental por meio de investimentos na recuperação da população local de salmões, destruída décadas atrás pela geração de energia hidrelétrica. — Foi feito da maneira errada. Ao estilo americano. Sem sentido. Sem sentido algum — disse ele ao Guardian. População e fauna Antiga comunidade de mineração, Otanmäki é conhecida pela presença de elementos de terras raras, e os efeitos da derrubada das árvores já são percebidos no cotidiano local. Anni Ranta, de 53 anos, cuja família vive na região há gerações, disse que lobos que habitavam a floresta passaram a circular pela localidade depois que as árvores foram removidas. Agora, afirmou, o barulho das obras ao lado da área desmatada pelo Google ecoa pela região.
— Tivemos lobos entrando na vila porque todos os animais selvagens saíram da floresta. Eles fugiram — disse. — O que também me preocupa em relação aos centros de dados é o barulho, porque o solo aqui é de rocha dura. Mesmo quando estamos aqui, parados, conversando, é como um tambor. Vista aérea mostra linhas de transmissão de energia próximas ao terreno destinado à construção de centro de dados do Google em Muhos, na Finlândia Alessandro Rampazzo/AFP A oposição à chegada da empresa é tão intensa que Ranta considera deixar a região. Ela também teme que a presença do centro de dados transforme a vila em um possível alvo da Rússia, país com o qual a Finlândia compartilha uma extensa fronteira. O pai de Ranta, Pentti Korhonen, um guia de atividades na natureza aposentado, afirmou que a água de um riacho próximo ficou marrom desde a destruição da floresta. Ele também se opõe à instalação. — Não há necessidade alguma de centros de dados na Finlândia. Nenhuma necessidade de centros de dados — disse. Vesa Hyyryläinen, presidente da seção regional da SLL, afirmou que pica-paus-de-três-dedos foram expulsos da área. Biólogo e especialista em águias-pescadoras, ele manifestou preocupação com as decisões políticas relacionadas à preservação ambiental no país, embora tenha reconhecido que o envelhecimento da população e a saída de jovens para outras cidades ajudam a explicar o interesse das autoridades locais em atrair investimentos e empregos. — Todos nós, ambientalistas, estamos muito preocupados com a situação política da Finlândia e com a política do país. Fico me perguntando por que precisamos sacrificar tanto da nossa natureza. Eles entregam tudo com muita facilidade — declarou. — [Mas] os jovens vão para Helsinque, Berlim e Paris. Há tão poucas pessoas. Temos que fazer sacrifícios. Diante da repercussão, o diretor-geral do Ministério do Meio Ambiente, Veli-Matti Uski, afirmou que o governo acompanha o desenvolvimento do setor e a aplicação da legislação, além de estar preparado para propor alterações nas regras, caso sejam necessárias. O Google, por sua vez, informou que trabalha para proteger a qualidade da água no terreno de Muhos e que pretende plantar árvores em uma área de 130 hectares.
Ambientalistas, porém, consideram que a extensão é insuficiente para produzir efeitos significativos diante dos danos provocados pelo desmatamento. Em nota, um porta-voz da companhia afirmou que o Google atua na Finlândia há 15 anos e que sempre buscou cumprir ou superar as exigências de zoneamento, ambientais, de saúde e de segurança: “Depois de recebermos as notificações da LVV, em 6 de outubro, interrompemos os trabalhos preparatórios em Muhos e Kajaani [onde fica o terreno de Otanmäki] e apresentamos uma resposta formal à LVV confirmando essa medida”, afirmou a empresa, ressaltando que cumprirá integralmente as solicitações das autoridades finlandesas e que pretende manter um diálogo aberto com os órgãos públicos e as organizações locais. “Esperamos manter um diálogo ativo e aberto com todas as autoridades para fortalecer nossa parceria com a Finlândia e com as organizações locais”, concluiu.
O Globo