Após ‘Ainda estou aqui’ e ‘O agente secreto’, próximo representante do Brasil ao Oscar ‘explora toda a complexidade’ do país

Após ‘Ainda estou aqui’ e ‘O agente secreto’, próximo representante do Brasil ao Oscar ‘explora toda a complexidade’ do país - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Allan Deberton resume “Feito pipa” com uma frase: “Um filme afetivo sobre identidade e pertencimento em um sertão mais colorido e antenado com o resto do mundo”. Nem o fato de o drama representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional induz o diretor cearense a turbinar o modo como vende a obra, concebida para tocar a plateia com sinceridade, poesia e sutileza.

Sem grandes dramas ou reviravoltas, a história de Gugu (Yuri Gomes), um menino queer sertanejo, se concentra nos pequenos detalhes, nos sentimentos mais profundos e nos silêncios. No seu mundo, não existe contradição em gostar de dançar, com maquiagem e roupa cintilante, e ter o sonho de se tornar jogador de futebol profissional.

Seus dias livres e felizes morando com a avó (Teca Pereira) chegam ao fim, assim que ela começa a apresentar sinais de demência. Gugu é forçado então a viver com o pai (Lázaro Ramos), um tipo que exala intolerância diante da personalidade livre e vibrante do garoto.

“É um filme humano e realista que explora toda a complexidade do Brasil, mas continua acessível em qualquer lugar do mundo, por trazer personagens com conflitos muito universais”, conta Deberton, vencedor de 15 prêmios (nacionais e internacionais) pelo trabalho, que acaba de chegar aos cinemas.

Os dois primeiros troféus foram o Urso de Cristal de melhor filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim, onde “Feito pipa” fez a sua première mundial, em fevereiro. Quando se pensa em Oscar de filme internacional, no entanto, Deberton reconhece o grande desafio.

“Feito pipa” foi realizado com R$ 9 milhões, um valor modesto, se comparado aos outros candidatos na categoria. “Estamos disputando com gigantes”, afirma ele, referindo-se a representantes da Espanha, França, Romênia e Polônia.

O espanhol “A bola preta” teve um orçamento superior a US$ 15 milhões, além de ter distribuição nos EUA pela Netflix. Seu favoritismo vem desde o Festival de Cannes, onde conquistou a estatueta de melhor direção, dividindo o prêmio com “A terra do meu pai”, que é outro forte candidato, representando a Polônia, uma produção de mais de US$ 11 milhões, com o selo da Mubi nos EUA.

Uma das cinco vagas ao Oscar da categoria deve ficar com o candidato da Romênia, “Fjord”, o ganhador da Palma de Ouro de Cannes, realizado com US$ 5 milhões e com distribuição da Neon em solo americano. Outro provável concorrente é “Minotauro”, que venceu o Grande Prêmio do Júri de Cannes e é o representante da França, com orçamento de US$ 7,5 milhões e suporte da Mubi no lançamento nos Estados Unidos.

Até o fechamento desta edição, “Feito pipa” ainda não tinha distribuidor nos EUA, o que é essencial para a campanha. Mesmo que o filme não precise, tecnicamente, de um distribuidor para inscrevê-lo em uma ou mais categorias no Oscar, essa empresa é quem oferece a infraestrutura operacional, o apoio financeiro e os contatos na indústria.

“Ainda estou aqui’’, que fez história ao conquistar o primeiro Oscar de filme internacional para o Brasil, teve distribuição nos EUA pela Sony. Já “O agente secreto’’ entrou na briga com o aval da Neon.

“Continuamos com o trabalho bonito que fizemos até então, deixando o filme falar por conta própria, sobre o que ele é”, afirma Deberton, que está nos EUA no momento. Há sessões especiais de “Feito pipa” em Los Angeles, para membros da Academia e convidados, com a presença de Lázaro Ramos e também do amigo Wagner Moura.

Por lá, a agência de relações públicas coordenando a estratégia de divulgação do filme é a Joshua Jason PR, responsável por mais de 300 campanhas para o Oscar, incluindo a de “Pecadores”, ganhador este ano de quatro prêmios da Academia. “O que joga a nosso favor é que começamos a fazer nossas conexões internacionais há bastante tempo.

Estamos nos preparando muito para isso. É uma eterna construção”, diz Deberton, acrescentando que “Feito pipa” está ampliando o seu alcance no exterior.

Negociado pelo agente de vendas M-Appeal, o longa tem distribuição garantida em países da América Latina, como Argentina e Colômbia, além da Europa, incluindo Dinamarca, Bélgica, Holanda e Espanha. O sertão mais moderno que Deberton retrata é um diferencial de “Feito pipa”, algo que o diretor busca explorar na campanha.

As filmagens foram realizadas em Quixadá e em cidades vizinhas no interior do Ceará, o que confere uma forte identidade brasileira à produção, mas sem recorrer a estereótipos. “É um sertão muito diferente daquele que nós nos acostumamos a ver no cinema.

Está longe daquele lugar considerado menor, o sertão da seca e da improdutividade.” Os personagens saídos da imaginação do roteirista André Araújo povoam uma região acolhedora, moldada por afetos e belezas naturais.

“Como André é do mesmo interior onde eu nasci [na cidade de Russas], o filme é um recorte dos meus sentimentos de infância também. E, como tudo o que eu faço, as relações humanas são a base de tudo”, comenta Deberton, também diretor dos longas “Pacarrete” (2019) e “O melhor amigo” (2024).

Uma das maiores qualidades de “Feito pipa” é tocar em questões como identidade queer em família negra, homofobia e masculinidade tóxica sem carregar nas tintas. Ou pior, cair na violência ou na tragédia.

O fato de o menino não sofrer grandes abusos e de o pai ser apenas um produto da sociedade conservadora (e não necessariamente um monstro) não deixa o filme menos contundente. É tocante perceber que o pai tem muito carinho pelo filho, embora não consiga quebrar a rigidez da mentalidade machista, o que explica as suas microagressões ao menino.

A abordagem menos radical ainda permite a Lázaro Ramos trabalhar o personagem com muito mais nuances, sem comprometer a leveza que é necessária no filme. O título é uma metáfora da liberdade que o menino deve buscar, aprendendo a voar, mesmo com os ventos contrários.

“Mesmo entendendo a problemática do mundo em que vivemos, com as questões de gênero, sinto no ar um certo desejo de que filmes como esse vejam o lado positivo das coisas também. E isso se dá pelo afeto”, conta Deberton, lembrando que talvez essa seja a arma secreta de “Feito pipa’’ contra as grandes produções cotadas para o Oscar da categoria.

“A consciência de que nosso filme toca as pessoas por onde passa, nós temos. ‘Feito pipa’ não nasceu apenas para criticar a intolerância, mas sim para despertar a família para essa necessidade de conexão, de amor, de cuidado e de respeito.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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