A empresa de inteligência artificial Anthropic, desenvolvedora do assistente Claude, tornou público nesta segunda-feira (26) seu prospecto de abertura de capital nos Estados Unidos. O documento enviado à Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC, o órgão regulador do mercado de capitais local) revela um prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões e uma receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Com sede em São Francisco, na Califórnia, a companhia solicitou a listagem de suas ações ordinárias Classe A na bolsa Nasdaq sob o código de negociação ANT, após ter submetido um pedido confidencial em 1 de junho de 2026. No formulário oficial de registro, denominado S-1, a empresa declarou que “nós acreditamos que essa abundância de IA transformará rapidamente todos os setores da economia global de maneiras maiores do que o impacto da industrialização, da eletricidade, dos semicondutores e da internet”, em tradução livre.
Veja também: Anthropic registra prejuízo de US$ 80,7 bilhões no 1º semestre A perda líquida de US$ 80,7 bilhões registrada nos seis primeiros meses de 2026 supera o prejuízo líquido de US$ 13 bilhões apurado no mesmo período de 2025, mas é explicada majoritariamente por fatores contábeis que não representam saída direta de dinheiro.
Cerca de US$ 72,4 bilhões desse saldo negativo decorrem de encargos sem efeito em caixa, atrelados à variação do valor justo de notas conversíveis (títulos de dívida que podem ser transformados em participação acionária) e de outros instrumentos financeiros que se valorizaram conforme a avaliação de mercado da própria empresa subiu.
Na atividade direta do negócio, a receita semestral de US$ 16,3 bilhões superou a marca de US$ 1,16 bilhão registrada na primeira metade de 2025. As despesas operacionais somaram aproximadamente US$ 17 bilhões no semestre encerrado em 30 de junho de 2026, gerando um prejuízo operacional de US$ 693 milhões — recuo ante a perda operacional de US$ 2,14 bilhões de um ano antes.
Ao excluir gastos com remuneração baseada em ações e doações não monetárias, a empresa apurou lucro operacional ajustado de US$ 1,62 bilhão. O demonstrativo financeiro enviado à SEC e os registros de clientes corporativos da Anthropic detalham outros indicadores de custos, reservas financeiras e expansão comercial da companhia:
Constituída sob o modelo jurídico americano de corporação de benefício público (Public Benefit Corporation, estrutura que permite aliar fins lucrativos a metas de interesse coletivo), a empresa desenhou uma governança específica para a estreia na bolsa. A maioria do conselho de administração será eleita pelo fundo fiduciário Long-Term Benefit Trust por meio de ações Classe T, enquanto uma única ação Classe F emitida para uma entidade dos fundadores concentrará 50,1% do poder total de voto.
Os fundadores também assumiram no prospecto o compromisso de doar 80% de sua participação acionária para instituições de caridade e de manter o sistema Claude livre de publicidade. O documento protocolado na SEC traz ainda alertas obrigatórios aos investidores sobre ameaças financeiras, operacionais e de segurança tecnológica.
A administração adverte para a possibilidade de desaceleração no ritmo de crescimento das receitas e para o risco de não atingir ou sustentar lucratividade diante da expansão contínua dos gastos com centros de processamento de dados e equipamentos. No campo técnico, a empresa presidida pelo executivo-chefe Dario Amodei aponta riscos de sistemas autônomos de inteligência artificial agirem fora do controle humano ou gerarem responsabilidades legais não cobertas por apólices de seguros, relatando que testes internos já identificaram modelos tentando ocultar informações, evitar o desligamento ou usar ameaças para atingir objetivos.
Fundada em 2021 por ex-pesquisadores do setor de inteligência artificial, a Anthropic tem a Amazon e o Google entre seus principais investidores estratégicos e fornecedores de infraestrutura de computação em nuvem. Em todo o ano de 2025, a companhia havia faturado cerca de US$ 4,6 bilhões — acima dos US$ 386 milhões registrados em 2024 — e acumulado prejuízo líquido anual de aproximadamente US$ 42 bilhões, sendo mais de US$ 34 bilhões provenientes de encargos contábeis de instrumentos conversíveis.
Em maio de 2026, uma rodada privada de captação avaliou a desenvolvedora do Claude em US$ 965 bilhões. Já nas discussões prévias à oferta pública inicial, investidores do mercado financeiro passaram a trabalhar com uma faixa de avaliação entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões, com estimativas de mercado apontando potencial de captação próximo a US$ 100 bilhões, patamar que pode igualar ou superar a oferta pública da empresa aeroespacial SpaceX na Nasdaq, que levantou US$ 85,7 bilhões meses antes em 2026.
No mesmo setor, a concorrente OpenAI, criadora do ChatGPT, também protocolou pedido confidencial de abertura de capital em junho de 2026 com previsão de estreia até o início de 2027. O formulário S-1 divulgado nesta segunda-feira (26) ainda mantém em branco a quantidade exata de ações que serão colocadas à venda, a faixa de preço por papel e a data oficial definitiva para o início das negociações na Nasdaq.
A oferta pública é coordenada por um sindicato de 22 instituições financeiras subscritoras liderado pelos bancos Goldman Sachs e Morgan Stanley, com previsão de início das apresentações formais a investidores na semana de 9 de novembro de 2026 e estreia estimada na bolsa para a semana de 16 de novembro de 2026.
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