André Lara Resende critica juros altos e defende revisão da política econômica brasileira

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A economia brasileira está limitada por uma “camisa de força teórica” e por juros reais elevados, na avaliação do economista André Lara Resende. Em entrevista ao programa “Kafé com Kinea”, em setembro de 2025, ele contestou a ideia de que a taxa básica de juros seja necessária, por si só, para controlar a inflação e defendeu uma política econômica que combine decisões fiscais e monetárias com investimentos públicos bem planejados. 

O conteúdo da análise de Lara Resende ganha importância neste momento, pouco mais de um ano depois, diante do encontro agendado entre ele e o presidente Lula (PT) para esta semana, em Brasília. Um dos criadores do Plano Real e da Unidade Real de Valor (URV), ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES, Lara Resende destacou na ocasião que a Selic é fixada pelo Banco Central e que a relação entre juros e inflação não é direta.

“A taxa de juros no Brasil é alta porque o Banco Central mantém a taxa de juros alta. Só por isso”, disse.

Para ele, a explicação convencional — segundo a qual juros maiores reduzem consumo e investimento, elevam o desemprego e, assim, contêm os preços — não descreve adequadamente o funcionamento da economia atual. O economista também questionou a visão de que o crédito depende de uma poupança previamente acumulada.

Segundo ele, bancos comerciais podem conceder empréstimos e criar depósitos no processo, sem precisar primeiro captar o mesmo valor em depósitos. “Quando o banco dá o crédito, ele cria o depósito”, afirmou.

Na avaliação de Lara Resende, a macroeconomia deveria incorporar melhor o papel do crédito e da criação de moeda pelo sistema bancário. Juros, dívida pública e inflação

Lara Resende considera que a manutenção de juros reais elevados por décadas precisa ser reavaliada. No início do Plano Real, argumentou, taxas altas eram compreensíveis diante da fragilidade externa do país e da necessidade de atrair ou reter capitais.

O prolongamento desse patamar, porém, não se justifica automaticamente, segundo ele. O economista rejeitou a interpretação de que a dívida pública interna represente, por si só, um ônus transferido às gerações futuras.

Como a maior parte dos títulos é denominada em reais e detida por brasileiros, os pagamentos de juros são, em grande medida, transferências do Estado para o setor privado nacional. Ele chamou esse fluxo de “bolsa financista” e distinguiu os rentistas — que recebem rendimentos de aplicações — dos investidores que financiam novos projetos produtivos.

Na entrevista, também defendeu que política monetária e política fiscal sejam tratadas de forma coordenada. Em vez de um comitê dedicado apenas à política monetária, propôs um colegiado que articule as duas áreas e estabeleça programas de investimento de longo prazo, com revisões periódicas de custos e retornos.

Para ele, projetos produtivos podem ser financiados sem depender exclusivamente de arrecadação tributária, desde que gerem retorno superior ao custo da dívida. Lara Resende defende um plano para reestruturar a condução da política monetária no Brasil e promover uma queda expressiva da taxa básica de juros, reduzindo-a a aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses.

Ele propõe estabelecer um intervalo permanente para a taxa entre 3% e 5,5% ao ano por meio da criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), órgão incumbido de definir metas integradas para as políticas fiscal e monetária em horizontes de quatro a cinco anos. Essa mudança permitiria encerrar a divisão rígida entre as duas esferas.

O Banco Central manteria a gestão operacional, mas passaria a atuar submetido a diretrizes conjuntas para juros, meta de inflação e sustentabilidade das contas públicas. O aspecto mais ousado do plano é a imposição de limites explícitos para a Selic — medida que causa apreensão no mercado financeiro e entre investidores estrangeiros.

O piso ficaria atrelado à meta de inflação (atualmente em 3% ao ano), enquanto o teto corresponderia ao crescimento nominal potencial da economia (soma da meta de inflação ao crescimento real potencial). A proposta do economista e seu encontro com o presidente Lula provocou apreensão entre gestores do mercado financeiro, que temem uma intervenção política nas decisões sobre os juros.

Diante destes rumores, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou no domingo (1º) que o governo Lula não pretende adotar qualquer mecanismo de tabelamento da taxa básica de juros. Investimento público e entraves ao crescimento

Ainda na entrevista ao “Kafé com Kinea”, o economista atribuiu parte do baixo crescimento brasileiro a escolhas institucionais e a ideias econômicas que, em sua avaliação, restringem a capacidade de investimento. Como exemplo, comparou a trajetória do país com a de economias asiáticas: “nos últimos 40 anos, a China multiplicou sua renda per capita por mais de 20 vezes, perto de 25 vezes, e o Brasil dobrou”.

Para Lara Resende, o desafio não é simplesmente ampliar gastos, mas selecionar e executar bons projetos. Ele considera o investimento público complementar ao privado, sobretudo em infraestrutura, educação, saneamento, ciência e tecnologia.

Também citou a necessidade de ampliar a capacidade brasileira em áreas como centros de processamento de dados e de rever barreiras tarifárias que, segundo ele, encarecem equipamentos e limitam a atividade industrial. O economista criticou a carga tributária e o custo burocrático de cumprimento das obrigações fiscais, além da combinação de impostos elevados com juros altos.

Disse que a economia brasileira é pensada pela Receita Federal, que, em sua avaliação, “só pensa em aumentar a arrecadação”. Também apontou problemas na qualidade do gasto público e falta de transparência em mecanismos como as emendas parlamentares.

Ao tratar da participação do Estado, Lara Resende se definiu como liberal e defendeu que o setor público atue no que considera indispensável: bens públicos, segurança, saúde e educação básica, infraestrutura e ciência e tecnologia. “Tudo que o setor privado pode fazer melhor que o público, o público deve se abster de fazer”, afirmou.

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