A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) publicou hoje uma agenda para ampliar o papel do mercado de capitais no desenvolvimento do Brasil. O documento vem sendo apresentado aos assessores econômicos dos candidatos à Presidência da República e tem servido de subsídio para uma série de encontros.
Participam dessas rodadas membros da diretoria da Anbima e do grupo consultivo macroeconômico, formado por 25 economistas-chefes das principais instituições associadas.
A agenda compila o posicionamento da entidade para temas considerados estratégicos para o longo prazo, como financiamento da economia, ambiente institucional e regulatório, ampliação da base de investidores, educação financeira, transformação digital e incorporação dos princípios de responsabilidade ambiental, social e de governança (ESG).
A agenda também traz recomendações para questões voltadas para a competitividade da economia, como inteligência artificial, ativos virtuais, cibersegurança e sustentabilidade.
“A Anbima não pode se abster dos debates que antecedem um momento tão decisivo para o futuro do país. Essa agenda é um convite ao diálogo. Queremos intensificar a interlocução do mercado de capitais com toda a sociedade, contribuindo para uma agenda econômica que favoreça o desenvolvimento do Brasil”, afirma Roberto Paris, presidente da Anbima, em nota.
O documento parte do entendimento de que os avanços alcançados nas últimas décadas criaram uma base sólida para o desenvolvimento do mercado de capitais, mas ainda existe espaço para ampliar sua contribuição ao crescimento econômico. Para isso, a associação defende medidas que reduzam o chamado custo Brasil, aumentem a previsibilidade regulatória, fortaleçam a segurança jurídica e estimulem investimentos de longo prazo.
“O mercado de capitais ganha cada dia mais espaço no financiamento ao setor produtivo, mostrando-se como alternativa ou complemento ao financiamento bancário ou de agentes de fomento. Para dar continuidade a esse movimento é fundamental que se crie um ambiente de negócios compatível com os desafios atuais e futuros”, afirma Paris.
O impulso do financiamento privado Entre os pontos que a Anbima destaca em seu estudo divulgado junto com a agenda do setor está o de que o financiamento via mercado de capitais já chega às pequenas e médias empresas por meio de fundos de recebíveis (FIDC), notas comerciais, crowdfunding e de investimentos por meio de fundos de participações em empresas (FIP).
Os FIDCs financiavam 2.913 empresas em dezembro de 2025, enquanto os FIPs tinham empresas investidas principalmente em segmentos como varejo, construção, indústria digital, bens de capital, energia e serviços profissionais.
O mercado privado é citado como instrumento para fechar o déficit no setor de infraestrutura, que tem potencial para elevar os investimentos dos atuais 2,2% para cerca de 4% do PIB nos próximos anos no país. O setor privado já responde por 83,9% do financiamento, enquanto a participação pública é de 16,1%. A Anbima aponta que o déficit ocorre, principalmente, em transporte e logística. Em 2025, foram investidos R$ 76,5 bilhões no segmento, mas seriam necessários R$ 282,5 bilhões, o que representa um hiato de R$ 206 bilhões.
As debêntures incentivadas já desempenham papel relevante no financiamento. Entre 2018 e 2025, esses títulos levantaram aproximadamente R$ 497,1 bilhões, dos quais 86% foram direcionados à infraestrutura, especialmente energia elétrica, transporte, logística, saneamento e telecomunicações.
Além do efeito direto sobre projetos, a Anbima calcula que os investimentos em infraestrutura se multiplicam pela economia. Para cada R$ 1 milhão investido, o efeito total estimado é de: R$ 2,86 milhões em produção nos setores de eletricidade, gás, água, esgoto e resíduos; R$ 3,04 milhões na construção civil; R$ 3,34 milhões em transporte, armazenagem e correio; R$ 2,99 milhões em informação e comunicação.
Na geração de empregos, cada R$ 1 milhão investido pode criar até 33,25 postos de trabalho na construção civil, considerando efeitos diretos, indiretos e de renda. Em transporte, o multiplicador chega a 31,77 empregos.
Agro gira R$ 1,37 trilhão em títulos O mercado de capitais vem ampliando sua participação no financiamento da cadeia do agronegócio, que inclui produtores, cooperativas, empresas de insumos, agroindústrias e prestadores de serviços.
O estoque de títulos bancários e não bancários com lastro agropecuário alcançou R$ 1,373 trilhão em dezembro de 2025. A soma dos CRAs e dos ativos reais dos Fiagros correspondia a 33% do crédito rural em mercado, ante 19% em 2021.
Apesar do avanço, os ativos ligados ao agronegócio ainda representam apenas 2,5% do mercado de capitais, indicando espaço significativo para crescimento, aponta a Anbima. O setor representa aproximadamente 29,4% do PIB brasileiro e responde por 26,35% da população ocupada.
Tecnologia, sustentabilidade e educação financeira Com a evolução da inteligência artificial, dos ativos digitais, das plataformas online e do open finance, abrem-se oportunidades no mercado, mas a inovação exige maior atenção à governança e à cibersegurança, aponta o estudo da Anbima, divulgado junto com a agenda para o setor.
Em 2026, foram publicadas diretrizes com normas para a custódia de ativos virtuais, incluindo segregação patrimonial, gestão de chaves privadas, definição de responsabilidades e prova de reservas.
A entidade ainda expõe que a agenda sustentável ganhou dimensão financeira. A padronização de informações é apontada como essencial para evitar o “greenwashing”, estratégia de marketing enganosa ligada à economia verde. É o que permite que investidores avaliem adequadamente riscos e oportunidades associados a aspectos ESG.
Outro desafio é ampliar o letramento da população em temas relativos a investimentos. Apenas 36% dos brasileiros investem em produtos financeiros, e 31% não têm nenhuma reserva para imprevistos. Além disso, só 11% das pessoas que investem apontam a aposentadoria como principal objetivo.
Valor