ANÁLISE: Trump perde o Congresso em terremoto político nos EUA

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Fonte da notícia: Valor Valor

O presidente Donald Trump sofreu uma das maiores derrotas políticas da história recente dos EUA. Os americanos disseram um retumbante não ao seu governo e ao Partido Republicano nas eleições de ontem.

Numa guinada histórica, o Partido Democrata obteve a maioria na Câmara e no Senado. Se eleições fossem terremotos, essa foi o Big One para Trump.

As consequências serão enormes, para os EUA e para o mundo. A apuração até esta madrugada mostrava uma onda azul, a cor dos democratas.

Projeções da mídia americana indicavam uma ampla maioria democrata na Câmara e uma sólida maioria no Senado. Foi uma eleição de grandes reviravoltas para a política americana.

Os democratas não elegiam um senador no Texas desde 1988. Em Kansas, desde 1932.

Não elegiam um governador em Ohio havia 20 anos. A votação mostrou ainda que, pela primeira vez em décadas, o partido pode ser competitivo em bastiões republicanos, como Texas, Carolina do Sul, Kansas e Flórida.

E, quase tão importante, os democratas deverão governar todos os principais Estados que costumam definir as eleições presidenciais americanas. As consequências desse terremoto político serão importantes.

Trump ficará acuado por um Congresso opositor até o final do seu mandato. Ele não conseguirá aprovar mais nada sem negociar com a oposição, inclusive o orçamento.

É provável ainda que a Câmara abra processo de impeachment contra o presidente e talvez contra membros de seu governo, como os secretários de Defesa, Pete Hegseth, e da Saúde, Robert F. Kennedy Jr.

O Congresso oposicionista deverá limitar ou rever várias das políticas do governo Trump, como a perseguição a imigrantes, o desmanche da legislação ambiental, a redução de impostos para os mais ricos etc. Trump poderá vetar essa agenda democrata, mas isso obrigará os congressistas republicanos a apoiar o veto, o que promete ser impopular.

Há o risco real de o Congresso derrubar eventuais vetos. O presidente também não conseguirá mais aprovar no Senado juízes federais alinhados a ele.

Os dados iniciais apontam que Trump perdeu a parcela de voto negro, latino e operário que ele havia conquistado em 2024. Isso pode ter efeitos de longo prazo para os republicanos.

O Partido Republicano deverá entrar em guerra civil a partir de hoje, nas palavras de Steve Bannon, ex-estrategista de Trump. O grupo extremista Maga (Make America Great Again) e a ala mais moderada vão se digladiar pelo controle da legenda.

Trump será responsabilizado pela derrota e sairá enfraquecido. Ele transformou a eleição num referendo sobre o seu governo, e acabou amplamente derrotado.

Escolheu ainda uma série de candidatos polêmicos, o que contribuiu para a derrota no Senado. O presidente se mostrou tóxico, o que pode levar políticos republicanos que sobreviveram ao massacre eleitoral a se distanciar dele.

O governo Trump começou a acabar ontem. O resultado abre a corrida para as eleições presidenciais de 2028.

Do lado democrata, o senador Jon Ossoff (Geórgia) e o governador Josh Shapiro (Pensilvânia), reeleitos ontem, saem fortalecidos. Do lado republicano, o vice-presidente J.D.

Vance (ligado ao movimento Maga) sai enfraquecido pela derrota republicana no seu Estado. Isso pode favorecer o secretário de Estado, Marco Rubio, mas muito vai depender do resultado da guerra interna no partido.

Para o mundo, a eleição americana também traz consequências importantes. Ainda que Trump mantenha muitos poderes na área comercial, o Congresso tentará limitar a sanha tarifária do presidente.

Deverá ainda ampliar o apoio político, militar e financeiro, à Ucrânia na guerra contra a Rússia, e cortar a ajuda a Israel. O presidente russo, Vladimir Putin, e o premiê de Israel, Benyamin Netanyahu, são vítimas colaterais da eleição de ontem nos EUA.

O Irã ganhou a guerra contra Trump. O aumento do preço dos combustíveis e da energia, causado pela guerra e pelo fechamento do estreito de Ormuz, foi provavelmente fundamental para a dimensão da vitória eleitoral democrata.

Ambos os partidos devem agora pressionar o presidente a não atacar novamente o Irã e a buscar um acordo para reabrir o estreito ao tráfego marítimo. Em termos de interesses diretos do Brasil, deve crescer a pressão para que o governo Trump reduza as tarifas comerciais punitivas aplicadas a produtos brasileiros.

Deve cair ainda o risco de sanções contra autoridades brasileiras e o risco de ações militares na América Latina. O governo Lula ganhará mais interlocutores nos altos escalões do poder em Washington.

Resta, porém, uma grande incógnita: qual será a reação de Trump? Sua personalidade narcisista é avessa a aceitar derrotas. Ele tem 80 anos e não poderá mais se reeleger, ou seja, não precisa cortejar o Congresso nem os eleitores.

Quando acuado, seu instinto é lutar. Não está claro, no entanto, se ele terá forças para isso.

04/11/2026 02:34:11

Publicação Original Valor valor.globo.com
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