Ambiente regulatório, economia e atração de talentos são desafios comuns para médias nos Estados Unidos e no Brasil, diz Doug Farren

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Fonte da notícia: Valor Valor

Problemas que afligem as médias empresas no Brasil, como atração e retenção de talentos, questões econômicas e regulatórias, também desafiam o crescimento de negócios nesse segmento no mercado norte-americano. Uma das principais referências nos Estados Unidos (EUA) em pesquisas no segmento de médio porte (middle market), Doug Farren, diretor-executivo do National Center for the Middle Market (NCMM, ou Centro Nacional para Médias Empresas, em tradução livre) da Universidade de Ohio, ressalta a similaridade entre as empresas de médio porte nos EUA e no Brasil. “Essas empresas enfrentam desafios semelhantes em relação a regulamentações, inflação, contratação de pessoas e retenção de talentos", disse o pesquisador.

O pesquisador, que investiga o comportamento dos negócios de médio porte nos EUA há 15 anos, também observa que esse segmento ainda representa uma fatia pequena da economia nos dois países. “Em ambos os países, o mercado de médio porte é uma parcela muito pequena da economia, ainda que contribua com parcelas substanciais de empregos e seja muito importante”, disse o especialista, que esteve no Brasil na semana passada para participar da 11ª edição do Fórum Anual das Médias Empresas, organizado pela Fundação Dom Cabral entre os dias 1º e 2 de setembro, em São Paulo. Na análise de Farren, o caminho para o sucesso das médias está na formação das equipes. “Ainda que você tenha a melhor tecnologia, o melhor processo ou o melhor produto, são as pessoas que fazem todas essas coisas acontecerem. E tanto as empresas médias do Brasil quanto as dos EUA compartilham essa qualidade", afirmou. Em sua apresentação, no fórum, Farren destacou aspectos que levam as médias americanas de alta performance a prosperar. Os achados da pesquisa apontam para comportamentos estratégicos muito específicos, observados durante 15 anos. As médias de alta performance nos EUA são as empresas que crescem 10% ou mais ano e têm quatro fundamentos nos negócios: a continuidade inabalável em investimentos; a disposição para investir antes de receita; a inovação ágil, informal e desburocratizada; e a altíssima resiliência frente a choques de mercado. "A continuidade dos investimentos é o fator que melhor prevê o crescimento. Seja investindo em treinamento de TI ou, atualmente, em IA, empresas que investem de forma consistente são aquelas que mantiveram e aprimoraram seu forte desempenho ao longo dos anos. Não se trata de algo que acontece apenas em tempos de bonança", ressaltou Farren.

As dinâmicas leves e ágeis para inovar são características das médias que mais crescem nos EUA, segundo o diretor-executivo do NCMM. Essa correlação existe, porque, muitas vezes, a inovação ocorre sem a estruturação formal de um departamento interno de pesquisa e desenvolvimento.

"O processo de inovação dentro delas é muito informal; muitas vezes, ele ocorre simplesmente por meio de diálogo e conversas, com a tomada de decisões muito rápidas. No Centro, observamos que essa é, na verdade, uma das forças das empresas de médio porte: a capacidade de mudar de direção e agir com muito mais agilidade do que seus concorrentes ou pares de maior porte”, explicou.

Segundo Farren, a combinação dessas mentalidades gerou um grupo de empresas extremamente forte. As pesquisas do NCMM apontam que esse perfil de empresa conseguiu dobrar de tamanho no mercado americano no período após a pandemia de Covid 19 e manter sua velocidade de expansão mesmo sob fortes pressões econômicas, como juros altos e inflação.

"Médias empresas de alto crescimento — aquelas que crescem 10% ou mais — registraram uma forte expansão desde 2021 e, apesar de diversos choques na economia dos EUA, mantiveram esse desempenho", afirmou Farren.

O pesquisador ressaltou que o mercado de médio porte nos EUA tem por volta de 200 mil empresas com receita anual entre US$ 10 milhões e US$ 1 bilhão. Farren disse que, juntas, essas empresas representam um terço do PIB dos EUA e dos empregos do setor privado americano. “Elas geram mais de US$ 11 trilhões em receita anual, ou o equivalente à 5ª maior economia do mundo se o setor fosse um país independente”, afirmou o pesquisador. No Brasil, as estimativas da Fundação Dom Cabral apontam cerca de 70 mil médias, com faturamento entre R$ 30 milhões e R$ 500 milhões.

Coragem para manter investimentos e inovar Farren também apresentou um estudo sobre tomada de decisões estratégicas, que ouviu 400 executivos C-Levels dos EUA em setores como bens de consumo, industriais, construção civil e mercado imobiliário. O trabalho investigou como os líderes gerenciam os negócios diante de aspectos críticos, como crescimento ante rentabilidade, custo versus qualidade e velocidade em relação à precisão.

Publicada no ano passado, essa pesquisa dividiu o alto escalão em quatro perfis. Há os que crescem com disciplina (33%), focados em entregar forte crescimento de receita com disciplina extrema, priorizando a rentabilidade sobre a expansão geográfica. Entre os executivos analisados, 32% são considerados inovadores centralizados, que buscam o crescimento com alta confiança por meio de processos centralizados de inovação e contratações em larga escala.

Também foram identificados os protetores de desempenho (18%), que têm perfil mais cauteloso e priorizam a proteção de margens e a gestão de riscos em detrimento de uma postura agressiva de crescimento. Há ainda os aceleradores descentralizados (17% da amostra), que agem de forma muito rápida e empreendedora, descentralizando decisões e investindo pesado em inovação para quebrar regras tradicionais do setor. Para os C-Levels que atuam no Brasil, Farren recomenda, sempre que possível, manter a constância de investimentos, no negócio e ainda na atração e na formação de equipes, ainda que, em alguns períodos isso pareça uma decisão arriscada.

“Como vimos em nossas pesquisas nos Estados Unidos, trata-se de investir. Investir na sua empresa, investir nas suas pessoas — mesmo que isso pareça arriscado, porque você ainda não tem a receita ou o dinheiro em mãos para poder realizar esses investimentos”, disse. Outra observação do pesquisador sobre as lideranças de médias com melhores resultados é a disposição para inovar. “Ao final, as empresas de maior crescimento e mais bem-sucedidas com consistência são aquelas que adotam uma abordagem mais agressiva em relação à inovação, com investimento constante em seus negócios, seja em IA, em pessoas ou em outras coisas. Mas tudo se resume a investir”, afirmou.

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