Foi como um terremoto para a cidade onde vivem 240 000 pessoas. Na tarde de terça-feira, 3, o grupo Gerdau confirmou o fechamento da indústria de aço em Divinópolis, a 100 quilômetros de Belo Horizonte.
A economia local será amputada em 300 empregos, 1 500 microempresas e 10% da receita municipal de impostos — calcula a prefeitura. Perde-se, também, um pedaço da história comunitária das últimas sete décadas.
A siderúrgica foi um dos símbolos da marcha da modernidade capitalista no centro-oeste de Minas Gerais. Na zona metalúrgica persistem 6 000 indústrias com 145 000 operários.
O potencial econômico da antiga Minas do Ferro, como a região era conhecida, uniu líderes como João Pinheiro, Raul Soares, Nelson de Senna e Arthur Bernardes numa espécie de cruzada por um plano de emancipação, com o objetivo de contrabalançar o aumento do poder de São Paulo nas decisões relevantes ao rumo da República.
O desenvolvimento e o enriquecimento do Estado, na visão deles, dependia de uma siderurgia integrada à produção de minério de ferro e de energia hidrelétrica abundante no Vale do Rio Doce, com uso do carvão de Santa Catarina e apoiada por malha ferroviária até os portos do Espírito Santo, da Bahia e do Rio de Janeiro.
Continua após a publicidade O projeto nacionalista da elite mineira foi transformado em programa de governo na presidência de Arthur Bernardes, que comandou o país (1922 a 1926) sob estado de sítio e com intensa repressão aos adversários.
Acabou consolidado na ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), com a criação de duas empresas estatais — a Vale, em Minas, e a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ). “País fecha siderúrgica e aumenta exportação de minério de ferro para quem lhe vende aço”
Continua após a publicidade Amarga ironia: um dos símbolos do ciclo de nacionalismo econômico de um século atrás, cuja influência se espraia pela história política contemporânea, está em extinção porque o Brasil perdeu a capacidade de disputar na produção e no comércio de produtos siderúrgicos com a China, os Estados Unidos e a Índia.
O país retrocede à posição de exportador de matéria-prima, o minério de ferro, para a siderurgia dos concorrentes que lhe vendem aço. Dona da fábrica de Divinópolis, a multinacional brasileira Gerdau atribui a perda de poder de competição ao “cenário agravado pelo avanço das importações de aço e pelas condições desfavoráveis do mercado internacional, especialmente para as exportações”.
A Gerdau tem 29 usinas. No terceiro trimestre, a maior parte da sua receita (55,6%) teve origem nas linhas de produção que mantém nos Estados Unidos.
Suas indústrias brasileiras foram responsáveis por fatia menor (36,8%) do faturamento do grupo — contribuição bem abaixo do nível (42,2%) do mesmo período no ano passado. Continua após a publicidade
O sucateamento nacional avança. Quatro em cada dez máquinas e equipamentos no chão das fábricas estão obsoletos, operam além da vida útil recomendada.
E já é expressivo o atraso na automação das linhas de produção: existem somente dez robôs industriais por grupo de 10 000 trabalhadores, enquanto a média mundial é de 162, informa a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O Brasil atravessou os últimos trinta anos referendando um pacto não escrito sobre dois projetos bem-sucedidos, o fim da hiperinflação e a redução da pobreza, lembra o Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Os líderes do atual ciclo político, no entanto, têm se esforçado para demonstrar a incapacidade de formular propostas inovadoras, consistentes e coerentes para a mudança de rumo, com expansão econômica amparada numa estratégia de investimentos produtivos crescentes no longo prazo.
Continua após a publicidade Foi o que se viu nos últimos dez meses de disputa pela Presidência da República.
O candidato derrotado Flávio Bolsonaro, por exemplo, não conseguiu esboçar nem sequer uma única ideia sobre o resgate da economia industrial brasileira. O vencedor Luiz Inácio Lula da Silva limitou-se a dar vazão à nostalgia da Era Vargas e seu capitalismo politicamente orientado.
As alternativas para o Brasil se tornam mais complexas num cenário em que China e Estados Unidos usam a América do Sul como campo de batalha por minerais críticos, energia e alimentos. Continua após a publicidade
Lula terá dificuldades para organizar novas políticas industrial e de defesa comercial. Sem pragmatismo, arrisca-se a um indesejado confronto com a China e com os Estados Unidos.
Principalmente, se Donald Trump quiser demonstrar que não é um presidente sem perspectiva de poder nos próximos 25 meses, debilitado como um pato manco pelo drástico repúdio dos eleitores americanos nas urnas da última terça-feira. Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020 Publicidade
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