O senador Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta pressões de integrantes da cúpula de seu partido e de interlocutores próximos ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para reconhecer a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial e concentrar esforços na reorganização da direita.
Segundo aliados, a campanha também já teria desistido de entrar com uma ação para pedir a anulação da votação presidencial. A intenção foi confirmado ao GLOBO por integrantes da equipe do senador nesta segunda-feira.
No domingo, após a confirmação da vitória do petista, Flávio afirmou que recorreria à Justiça para contestar a votação. A declaração foi feita depois de uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prorrogação do horário de votação até as 19h em locais onde havia relatos de dificuldades no transporte público.
Zanin, ex-advogado de Lula, foi indicado pelo presidente ao Supremo. Flávio questionou a decisão, alegando que uma mudança nas regras durante o processo eleitoral comprometeria a lisura da disputa.
— É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Vamos usar nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições — declarou o senador na noite de domingo.
A ampliação do horário de votação, no entanto, havia sido solicitada pelas duas campanhas diante de dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar às seções eleitorais. A equipe de Flávio havia acionado a Justiça Eleitoral por problemas relacionados às condições climáticas no Sul do país, enquanto a campanha de Lula também pediu providências em razão de restrições no transporte público.
Lula venceu o segundo turno com 51,7% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio, uma diferença superior a 4,4 milhões de votos. Aliados argumentam que a diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos torna inviável a tarefa da candidatura de reunir argumentos para uma tentativa de anulação do pleito.
A avaliação é que insistir na contestação também poderia ter um efeito político contraproducente e comprometer o capital político conquistado nas urnas. A postura, segundo essas pessoas, também pode dificultar sua consolidação como liderança da oposição.
A orientação de integrantes da direção do PL e do entorno de Tarcísio é que Flávio reconheça a derrota e passe a atuar na construção de uma frente de oposição no Congresso, aproveitando a força das bancadas eleitas pela direita. Esses interlocutores avaliam que prolongar a disputa eleitoral pode dificultar a interlocução com governadores e partidos que apoiaram o senador e agora precisam definir sua relação com o novo governo.
Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno já reconheceram a vitória de Lula. O União Brasil, comandado por Antonio Rueda, divulgou nota afirmando que a soberania popular se manifestou livremente nas urnas.
O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, também reconheceu o resultado e defendeu o diálogo com o Congresso. Já o MDB parabenizou o petista pela reeleição e destacou o caráter democrático da votação.
Entre os aliados mais próximos, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) adotou um discurso voltado ao futuro da oposição. Em manifestação nesta segunda-feira, exaltou a força dos governadores e parlamentares eleitos pela direita e defendeu que o grupo permaneça mobilizado para fiscalizar o próximo governo, sem mencionar questionamentos ao resultado eleitoral.
— Nós estaremos lá para fiscalizar esse governo e lutar pelo país que queremos, com prosperidade e segurança. Vamos seguir em frente, de cabeça erguida — afirmou.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais apoiadores de Flávio durante a campanha, também recomendou cautela. Embora tenha levantado suspeitas sobre a votação, afirmou nesta segunda-feira que a possibilidade de anulação é “praticamente nula” e pediu que os eleitores não saiam às ruas para protestar.
— Conhecendo o nosso país, a chance de anular essa eleição é praticamente nula. E a prudência agora com as vidas que estão em jogo deve falar mais alto que qualquer ímpeto do nosso coração.
Já vimos muitas pessoas pagarem um alto preço de irem pra rua no calor da emoção. Não façam isso — afirmou.
A avaliação desses aliados é que Flávio, que ficará sem mandato a partir de fevereiro, deve permanecer no Brasil e aproveitar a votação recebida para manter a direita unida. O PL elegeu uma das maiores bancadas do Congresso, e integrantes do partido defendem que o senador concentre sua atuação na articulação com parlamentares e governadores, em vez de prolongar a contestação do resultado eleitoral.
O Globo