Um tribunal queniano declarou culpado nesta segunda-feira (19) um guru que se autoproclamava pastor e seus cúmplices, acusados de assassinarem 191 fiéis, em sua maioria crianças, no âmbito de uma macabra seita que incitava à inanição. Centenas de cadáveres foram descobertos desde 2023 na localidade costeira de Malindi, no que ficou conhecido como o "massacre da floresta de Shakahola", uma das piores tragédias relacionadas a seitas a nível mundial. — Estou convencido de que a promotoria demonstrou a culpabilidade dos 29 réus pelo assassinato de 190 crianças e um adulto — afirmou o juiz em um tribunal de Mombaça, às margens do Oceano Índico. Conflito: Arábia Saudita adota teletrabalho em Riad e adia conferência de investimentos em meio à escalada de ataques dos houthis Veja vídeo: Padre atingido por crucifixo durante missa refletiu sobre a morte minutos antes: ‘Vamos todos morrer’ Paul Nthenge Mackenzie, um ex-taxista que se autodenominava pastor, e seus cúmplices declararam-se inocentes de 191 acusações de homicídio em 2024. O guru foi acusado de ter incitado seus seguidores a jejuar até a morte para "conhecer a Jesus". Nos três anos desde a sinistra descoberta, mais corpos de crianças, mulheres e homens foram desenterrados nos arredores, elevando o total de vítimas para mais de 400. Durante a audiência, estiveram presentes familiares das vítimas, muitos dos quais viajaram a Mombaça procedentes de comunidades rurais situadas ao longo da costa. Francis Wanje, de 62 anos, perdeu oito membros de sua família, entre eles sua filha e dois netos. — Este é um dia muito, muito importante para mim — declarou à AFP antes do início da sessão. — Esperamos uma sentença que sirva de lição para toda a sociedade, para que este tipo de coisa não volte a acontecer — disse, expressando sua indignação com o que denunciou como inação inicial do governo. Um agente da Diretoria de Investigações Criminais (DCI) caminha pelo local de uma vala comum em Shakahola, nos arredores da cidade costeira de Malindi, em 25 de abril de 2023, onde uma seita resultou no que ficou conhecido como 'Massacre da Floresta de Shakahola', que levou à morte 191 pessoas Yasuyoshi Chiba / AFP O caso chocou os quenianos, muitos dos quais têm pedido regulamentações mais rigorosas em matéria de religião. Mackenzie também negou as acusações de "terrorismo" e homicídio culposo em outros processos distintos. Durante o julgamento, a corte ouviu mais de 120 testemunhas sobre os fatos ocorridos entre 2021 e 2023 no complexo de 325 hectares situado na floresta de Shakahola, onde o guru pregava. Uma 'hierarquia estruturada de morte' A promotoria alega que Mackenzie "iniciou e dirigiu" o jejum extremo, afirmando que existia uma "hierarquia estruturada de morte" na qual primeiro faleciam as crianças, depois os adolescentes, as mulheres e, por último, os homens. As autópsias revelaram que a maioria das vítimas morreu de fome, enquanto outras, incluindo crianças, teriam sido estranguladas, espancadas ou asfixiadas. Mackenzie foi preso em abril de 2023, depois que alguns seguidores foram resgatados graças a um grupo defensor dos direitos humanos que alertou as autoridades. A operação policial posterior trouxe à luz centenas de valas comuns pouco profundas. As escavações tiveram que ser suspensas temporariamente diante do crescente número de corpos descobertos, já que os necrotérios locais ficaram sem espaço. A Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia informou em 2024 que o número de mortos chegava a 429. Até o momento, algumas vítimas continuam sem ser identificadas. Em janeiro, Mackenzie foi acusado pelo achado de outros 52 cadáveres em uma aldeia próxima. Este autoproclamado pastor, com antecedentes de extremismo, burlou as autoridades durante anos. Em 2003, fundou a Igreja Internacional das Boas Notícias e estabeleceu filiais em Nairóbi e ao longo da costa do Quênia, que atraíram milhares de fiéis antes de, segundo ele, decidir fechá-la em 2019. Foi detido em 2017 por acusações de "radicalização", foi absolvido e depois detido novamente em 2019 em Shakahola, após a morte de duas crianças, mas foi liberado sob fiança.
Acusado de matar de fome 191 fiéis no Quênia, guru que se autoproclamava pastor é declarado culpado de crimes
Fonte da notícia:
O Globo
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