As empresas de saneamento do Brasil enfrentam escassez de ácido fluossilícico, insumo usado na fluoretação da água, e o preço do produto importado subiu mais de 300% no mercado à vista, segundo o setor. A Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon) pediu ao Ministério da Saúde uma suspensão temporária de 90 dias da obrigatoriedade da fluoretação, mas a Justiça Federal negou o pedido de uma associação do setor.
Em nota, a diretora-presidente da Abcon, Christianne Dias, afirmou que “não há ácido fluossilícico disponível no mercado nacional”. Segundo a entidade, os fornecedores comunicaram formalmente a escassez às prestadoras em 12 de junho de 2026, e as empresas relatam atraso nas entregas.
Veja também: ANFIP vai à Justiça Federal por 100% do Bepata para inativos As duas fábricas brasileiras que produziam ácido fluossilícico fecharam, e a produção nacional não tem previsão de retomada.
O ácido era obtido como subproduto da fabricação de fertilizantes fosfatados, de modo que a parada de produção na Mosaic, citada como fornecedora, afetou a oferta no país. Por isso, as prestadoras passaram a depender de importação, o que elevou o custo do insumo.
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A apuração não confirmou a data, e por isso ela não é citada como fato nesta reportagem. Acompanhe: Justiça Federal torna 35 réus por fraude de R$ 86 milhões no BPC
As empresas de saneamento relatam atraso de cerca de três meses nas entregas do insumo. Para estruturar novas cadeias de importação, o setor estima um prazo de 3 a 4 meses, segundo uma das fontes consultadas.
A Abcon pediu a suspensão temporária da fluoretação justamente para ter tempo de organizar essas compras no exterior. Um possível fornecedor no Marrocos foi identificado.
Antes de chegar ao Brasil, porém, o produto ainda precisa de homologação, testes de segurança e ajuste de concentração. Não há data de chegada nem quantidade confirmadas para essa importação.
A Aesbe também acionou a Justiça pedindo a suspensão temporária da obrigatoriedade da fluoretação. Pesquisadores de universidades como Unicamp, USP, UnB e UFBA assinaram carta aberta às autoridades pedindo cautela sobre a suspensão.
Até o fechamento desta apuração, não há confirmação de resposta do Ministério da Saúde ao pedido da Abcon. As reportagens atribuem a alta do preço do ácido a causas diferentes.
Algumas apontam os impactos da guerra entre EUA e Irã sobre a cadeia de fertilizantes e o aumento do preço do enxofre. Outras citam a escalada no Oriente Médio e o fechamento do estreito de Hormuz.
Nenhuma fonte apurou qual dessas causas pesa mais. Em conversa informal com o Departamento de Águas e Esgoto (DAE) de Santa Bárbara d’Oeste, um fornecedor sugeriu que o preço por tonelada poderia chegar a R$ 14 mil, ante R$ 400 antes da crise, segundo o relato.
Não há contrato confirmado para esse valor. Também não foi encontrada cotação internacional atual do ácido por país ou região, e por isso não é possível comparar o preço brasileiro com o dos Estados Unidos ou da Europa.
A fluoretação da água é prevista na Lei Federal nº 6.050, de 24 de maio de 1974. Segundo o Ministério da Saúde, citado pela Abcon, a fluoretação reduz em cerca de 50% a prevalência de cáries.
O custo do insumo tem peso pequeno no tratamento: a participação da fluoretação no custo total do tratamento de água em cidades de médio e grande porte fica entre 0,2% e 0,6%. Em São Paulo, a Abcon estima o custo da fluoretação em cerca de R$ 0,08 por habitante/ano.
As empresas de saneamento são as prestadoras afetadas pela falta do insumo, e a população atendida pela fluoretação depende da decisão final sobre a obrigatoriedade. Enquanto a Justiça não decidir em definitivo, a regra permanece em vigor.
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