247 – “Violada. É isso que eu sinto.” Foi assim que Carmine Aurea Pellenz, servidora pública estadual de Florianópolis (SC), descreveu sua reação às suspeitas envolvendo negociações de vacinas contra a Covid-19 e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Viúva de Cleiber Marques da Silva, morto pela doença em 30 de março de 2021, aos 34 anos, ela relacionou as denúncias à experiência de milhares de famílias que enfrentaram a pandemia enquanto buscavam meios de sobreviver.
“Sem valor. A vida das pessoas estava à mercê desse tipo de pessoa. Pessoas morrendo e ele negociando pra ganhar dinheiro em cima da desgraça alheia, é isso que eu vejo”, afirmou Carmine em entrevista à TV 247.
Ao comentar as revelações de que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, participou de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, acompanhado de garotas de programa e empresários interessados em fechar negócios com o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, em plena pandemia de Covid-19, ela criticou a possibilidade de interesses particulares terem sido colocados acima da saúde pública. “Não tem valor pra eles a vida, a vida do ser humano, da população não tem valor, não tem valor nenhum”, enfatizou.
Segundo reportagem publicada pela revista Piauí, o encontro ocorreu em 17 de julho de 2020, quando o Brasil enfrentava uma escalada de mortes provocadas pelo coronavírus. Ao final do passeio, o parlamentar teria recebido um relógio Rolex de presente de um dos empresários envolvidos nas negociações para fornecer vacinas ao Ministério da Saúde.suspeitas.
A indignação de Carmine, porém, está diretamente ligada ao que viveu durante a crise sanitária: enquanto a família tentava proteger a filha bebê e enfrentar a doença, o marido teve o quadro agravado e morreu depois de três semanas de intubação.
A viúva reagiu com indignação ao que considera um contraste entre o sofrimento vivido pela população e a possibilidade de que pessoas com poder político tenham buscado benefícios particulares.
“Um relógio, a vida de uma pessoa, a vida da população inteira estava ali na mão de um cara negociando meio de prostituta, de bebida, de sei lá mais o quê, negociando a vida das pessoas”, afirmou, referindo-se às informações discutidas na entrevista.
Em seguida, comparou o cenário de sofrimento coletivo com as imagens e relatos de festas mencionados na conversa: “Todo mundo passando, perdendo pessoas, morrendo, um sofrimento profundo, físico, emocional, financeiro, as pessoas estavam passando fome, e ele lá passando de barco com prostituta”.
E concluiu: “Não é esse tipo de pessoa que eu quero que esteja à frente do meu país”.
Marido era saudável e teve o quadro agravado em poucos dias
Carmine contou que a filha nasceu em fevereiro de 2020, cerca de um mês antes do início do lockdown no Brasil. No começo de 2021, ela, a criança e Cleiber contraíram Covid-19. A família, segundo ela, tomava precauções rigorosas, especialmente porque Carmine tem asma.
“Nós nos cuidávamos muito, nós éramos extremamente cuidadosos porque eu sou asmática, eu tenho asma”, relatou. Ela descreveu o marido como uma pessoa saudável, sem comorbidades, que mantinha cuidados para reduzir o risco de contaminação.
“Ele era totalmente saudável, ele não tinha nenhuma comorbidade, nada. Mais saudável do que eu, ele falava”, contou. Segundo Carmine, em sete anos de relacionamento, Cleiber raramente ficava doente.
A piora, no entanto, foi rápida. Depois de apresentar febre e mal-estar, ele passou a ter dificuldades para respirar e já não conseguia se locomover normalmente. “O estado físico que ele ficou, em questão de uma semana, o pulmão dele foi destruído”, afirmou.
“Ele não conseguia mais respirar, ele ficava sentado, dormia sentado, não conseguia ir ao banheiro porque não tinha fôlego pra ir ao banheiro”, relatou.
Família ficou sem oxigênio em casa
Com o agravamento dos sintomas, a família tentou manter Cleiber em casa, diante do receio de encontrar hospitais lotados. A saturação dele caiu e os familiares contrataram uma empresa para fornecer oxigênio.
A situação ficou ainda mais grave quando o estoque do fornecedor acabou. “O fornecedor respondeu: ‘Olha, eu não tenho mais estoque de oxigênio, não tenho mais como atender vocês, a empresa está zerada de estoque’”, contou Carmine.
Naquele momento, a família já avaliava levar Cleiber ao hospital. Segundo ela, a febre chegou a 41 graus, e ele apresentava sinais de desorientação. “A gente, no domingo de manhã, acionou a ambulância porque tinha acabado o oxigênio”, relatou.
Cleiber foi internado e intubado. “Ele foi intubado e ficou 21 dias intubado, nunca teve, apresentou melhora. E no dia 30 de março ele veio a falecer”, disse Carmine.
A morte deixou a filha do casal sem a convivência com o pai. A menina tinha pouco mais de um ano quando ele morreu e hoje tem seis anos. Para a mãe, o luto não pertence apenas ao passado: continua presente na rotina e nas perguntas da criança.
“É presente, é meu presente, e minha filha pergunta do meu marido todo dia. Ela fala dele, ela pergunta do papai, ela quer saber como ele era”, afirmou.
“A pessoa que eu amo foi embora por causa de uma irresponsabilidade”
A postura de Jair Bolsonaro durante a pandemia é uma das principais fontes de indignação para Carmine. Ela afirmou que se sentia revoltada ao ver pessoas circulando sem máscara e o então presidente negando a gravidade da doença, apesar das mortes e da pressão sobre os hospitais.
“Profundamente revoltada. Desrespeitada na parte mais profunda do meu ser, porque a pessoa que eu amo, a pessoa que eu amo foi embora por causa de uma irresponsabilidade”, declarou.
Na sequência, criticou a falta de empatia diante do sofrimento alheio. “É uma pessoa desumana, isso é uma desumanidade. Ele não precisa estar doente, ele não precisa perder ninguém pra saber que outra pessoa está sofrendo, entende?”, afirmou.
Carmine disse que a postura negacionista já a incomodava antes da morte do marido, mas que a experiência pessoal tornou a indignação ainda mais profunda. Ela também rejeitou a ideia de que a pandemia seja um assunto superado.
“Eu nunca vou aceitar o que foi feito e nem o que é falado ainda hoje. Ainda hoje pessoas negam e falam que passou e que é passado. Gente, não é passado, é presente”, disse.
“É uma hipocrisia sem tamanho”
Carmine também contestou o discurso de defesa da família e dos valores cristãos associado ao bolsonarismo. Para ela, a defesa da vida e da saúde precisa se traduzir em atitudes concretas, e não ficar restrita à retórica política.
“Uma pessoa que crê em Deus, independente da religião, sabe? A pessoa que respeita o ser humano, que tem o mínimo de dignidade, o mínimo de humanidade, de respeito ao próximo, jamais se colocaria contra a defesa da saúde da outra pessoa, contra a vida de outro ser humano”, afirmou.
Ao comentar o lema “família, pátria”, criticou o que considera uma contradição entre o discurso público e as condutas do bolsonarismo. “Família, pátria, é muita hipocrisia”, disse.
A viúva também relacionou sua preocupação com a pandemia às propostas políticas para a saúde pública. Ela mencionou uma declaração de um possível ministro da Saúde de Flávio Bolsonaro, segundo a qual o SUS não deveria funcionar como um direito universal, e questionou essa visão.
“Qual é o mundo que a gente vive quando saúde não é direito de todo mundo?”, perguntou. Em seguida, ampliou a crítica: “Se saúde não é direito de todo mundo, se a vida não é direito de todo mundo, se comer não é direito de todo mundo, que humanidade é essa? Que sociedade é essa que a gente quer estruturar?”.
Carmine classificou a disputa política como “uma escolha de humanidade” e afirmou: “O que ele propõe é uma política de morte”.
Viúva cobra responsabilização
Ao falar sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, realizada pelo Senado em 2021, Carmine defendeu que as conclusões das investigações tenham consequências e que os responsáveis sejam chamados a responder pelos atos praticados durante a pandemia.
“Com certeza, a gente tem que responsabilizar pra que isso nunca mais aconteça. Tem que responsabilizar essas pessoas, porque eles é que detinham o poder de fazer alguma coisa”, afirmou.
Ela ressaltou que os cidadãos tinham condições limitadas de proteção individual, enquanto autoridades públicas podiam tomar decisões com impacto amplo sobre a população. “A gente, enquanto cidadão, só tinha como se proteger: usar máscara, evitar aglomeração, ficar em casa. Mas eles é que tinham o poder de fazer realmente alguma coisa efetiva para ajudar as pessoas e não fizeram”, declarou.
O relatório final da CPI apresentou pedidos de indiciamento de autoridades e outras pessoas investigadas. A responsabilização, contudo, depende dos procedimentos das instituições competentes e não pode ser considerada automática a partir das conclusões parlamentares.
“Eu não precisaria perder o Cleiber para respeitar a vida”
Carmine fez um apelo para que as pessoas que não perderam familiares para a Covid não ignorem a dor de quem viveu essa experiência. Para ela, a empatia não deveria depender de uma tragédia pessoal.
“Tem que pensar na vida, gente. Não respeita a vida, a vida não é comércio. A gente não negocia com a vida. A gente não relativiza a vida das pessoas, nem a saúde das pessoas”, afirmou.
Ela defendeu que cada indivíduo seja reconhecido como alguém cujo valor não pode ser negociado em troca de benefícios ou vantagens. “Não dá pra negociar, pra manejar ou pra ter uma negociata, um ‘me dá alguma coisa em favor de outra’, em detrimento da morte de outras pessoas”, disse.
Carmine pediu que a população se lembre das famílias que perderam parentes, mesmo quando não viveu uma perda semelhante. “Se você teve a sorte de não ter perdido alguém na pandemia pra Covid, que bom, que bom. Mas não deixe de pensar nas outras pessoas que não tiveram a mesma sorte que você. Pense nas outras pessoas, pense na vida, no valor de que todo mundo, que a vida de cada um tem”, declarou.
Brasil 247