Davi Alcolumbre fez nesta quarta-feira (4) o que a democracia brasileira esperava ouvir do chefe do Poder Legislativo. Da cadeira da presidência do Senado, desmontou com uma pergunta simples a mentira que o bolsonarismo voltou a espalhar sobre as urnas eletrônicas.
A urna que elegeu 120 deputados federais do PL e mais de 20 senadores no primeiro turno é a mesma que reelegeu Lula no segundo. “Eu queria encontrar um para dizer que só deu errado no segundo turno”, provocou Alcolumbre no plenário.
Ninguém apareceu, nem vai aparecer. O golpismo eleitoral nunca foi convicção técnica, é instrumento de poder acionado sempre que o resultado contraria o clã Bolsonaro.
Nikolas Ferreira encarnou essa lógica na noite de 25 de outubro. Chamou de “impossível reconhecer” uma eleição apurada pelas mesmas máquinas que deram ao PL sua bancada recorde.
Um dia depois, admitiu à própria plateia que anular o pleito era hipótese “praticamente nula”. O estrago, porém, já estava feito, porque a dúvida lançada a milhões de seguidores nunca é recolhida.
Alcolumbre descreveu esse mecanismo com precisão. “Conta uma mentira para milhões de pessoas e você nunca mais vai conseguir se defender daquela mentira”, disse no plenário.
É o modelo de negócio da extrema direita digital. Ofensa gera engajamento, engajamento gera voto, e o voto financia a próxima rodada de ofensas contra o Judiciário, contra o Executivo e contra quem quer que se recuse a obedecer.
O ato de Macapá, em setembro, foi a vitrine dessa engrenagem. Nikolas cruzou o país para ameaçar o presidente do Senado com a pecha de covarde na frente de seus conterrâneos, porque Alcolumbre se recusou a transformar o Senado em tribunal de exceção contra um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A pressão tinha endereço certo. O bolsonarismo quer um Senado dócil, capaz de derrubar juízes que ousaram julgar a trama golpista e condenar seus autores.
Os pedidos de impeachment em série contra ministros do Supremo não nascem de crime de responsabilidade. Nascem do desejo de vingança contra a Corte que garantiu a posse de quem ganhou nas urnas e mandou para a cadeia quem tentou rasgar o resultado de 2022.
Quando o Congresso funciona com responsabilidade, a chantagem perde força. O diálogo entre as presidências do Senado e da Câmara, que levou ao adiamento da votação da maioridade penal até a análise dos deputados, mostra um Legislativo que pensa antes de agir e não se curva ao grito.
A urna eletrônica completa três décadas sem uma única fraude comprovada. Os códigos usados em 2026 ficaram abertos à inspeção por quase um ano e foram examinados por oito entidades, entre elas dois partidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Esse sistema acaba com o voto de cabresto e com o mapismo que marcaram a velha República. Atacá-lo é atacar a conquista que deu ao eleitor pobre do interior o mesmo peso do eleitor rico da capital.
Por isso a fala de Alcolumbre importa tanto. Quando o presidente do Senado lembra que a urna “tem 30 anos” e serviu para todos, ele dá ao país um recado de estabilidade que o golpismo tenta sabotar todos os dias.
Alcolumbre lamentou que tantos tenham se eleito sem propor universidade, instituto federal ou saúde. “Eles não apresentaram pro Brasil que eles iam vir por Brasília ou deputado ou senador defender a democracia”, disse.
Essa é a síntese do bolsonarismo. Um projeto que não tem programa para o país e vive de inimigos, de ameaças e da suspeita permanente sobre o voto do povo.
A resposta democrática passa por instituições firmes, que resistem à chantagem sem perder a serenidade. O Brasil votou, as urnas falaram, e quem não aceita o resultado deve se explicar ao eleitor, e não a democracia a ele.
Cafezinho