Quadrilhas especializadas escolhem o que vão roubar antes de o caminhão sair do armazém. Desde 3 de junho de 2026, o roubo de servidores, módulos de memória e cabo de cobre para centros de dados nos Estados Unidos soma US$ 110,6 milhões, mais de meio bilhão de reais, segundo dados de Scott Cornell, presidente da Associação para a Proteção de Ativos Transportados (TAPA Américas), publicados pelo site especializado FreightWaves.
A corrida do ouro da inteligência artificial transformou memória em lingote e criou seus próprios assaltantes de estrada. A conta do banditismo chega ao bolso de quem compra memória de computador.
O século 21 refez a cena do velho oeste com centros de dados no lugar das minas. Os grupos ganharam até apelido, cuatreros de la RAM, referência aos ladrões de gado que agora levam módulos de memória.
O FBI alertou em abril de 2026 que os criminosos se passam por empresas de transporte com e-mails e links falsos para invadir os sistemas de agências de logística. Com as contas clonadas, publicam ofertas falsas nas bolsas de carga, aceitam embarques reais em nome da empresa verdadeira, mudam o destino e entregam a mercadoria a motoristas que parecem idôneos, mas integram o grupo.
Não há assalto na estrada. O caminhão sai do armazém carregado pelos próprios distribuidores de equipamentos, convencidos de que despacham para um cliente, e os grupos já trabalham com carteira de clientes que encomendam peças específicas.
Uma carreta de servidores pode valer dezenas de milhões de dólares, e a escolta nem sempre acompanha esse valor. Scott Cornell, presidente da TAPA Américas, diz que, quando os motoristas são cúmplices, eles somem no primeiro confronto com os escoltas.
Cornell afirma também que a checagem dos condutores era insuficiente e que a logística virou o elo mais fraco da cadeia. Segundo a TAPA Américas, cada roubo conhecido deixa prejuízo entre US$ 2 milhões e US$ 38 milhões.
No condado de Cook, em Illinois, o xerife recuperou duas carretas com US$ 1,3 milhão em cobre e equipamentos para centros de dados. A empresa de rastreamento Verisk CargoNet registrou 677 incidentes no segundo trimestre de 2026, 26% menos que um ano antes.
O prejuízo com carga roubada mais que dobrou no período, de US$ 135,7 milhões para US$ 304,6 milhões. Para o vice-presidente de operações da CargoNet, Keith Lewis, um volume menor de incidentes não deve ser confundido com menos risco de roubo.
A violência acompanha o valor. Em junho de 2026, um carro bateu de propósito na escolta de um transporte com US$ 13 milhões em equipamentos para um centro de dados, e o caminhão conseguiu escapar.
Semanas depois, outro comboio no Texas sofreu o mesmo tipo de ataque, com carga avaliada em US$ 10 milhões. O roubo de carga sempre perseguiu eletrônicos, remédios e cigarros.
Agora o alvo é o insumo da computação, e as empresas começaram a reforçar a escolta dos comboios de alto valor. O preço da memória DDR5, a geração usada nos servidores que abastecem a IA, subiu entre 93% e 98% só no primeiro trimestre de 2026, segundo a consultoria TrendForce.
A conta é simples. A IA exige memória em volume que as fábricas não conseguem acompanhar, e a produção mundial está concentrada em poucos fornecedores.
Os fabricantes priorizam o fornecimento para servidores, o que reduz a oferta de memória para notebooks, computadores de mesa e consoles e empurra o preço para cima. A própria Google já admitiu que a escassez de memória é alta.
O padrão interessa ao Brasil. O país virou destino de centros de dados de gigantes da nuvem, com polos em São Paulo e no Ceará, e tem no roubo de carga um problema antigo de estrada.
Os centros de dados brasileiros atraem os mesmos equipamentos que os assaltantes americanos perseguem, dos servidores aos módulos de memória. Se o modelo atravessar a fronteira, o custo da segurança reforçada entra no preço do serviço de nuvem e do equipamento.
Quem monta um computador ou compra um notebook paga a conta duas vezes, no preço maior da memória e no repasse da proteção. Sem verificação de motoristas e escolta à altura do valor da carga, uma carreta de servidores segue saindo do armazém como se levasse ventiladores.
As investigações sobre furto interestadual de cargas tecnológicas e componentes de servidores envolvem o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
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