A ressaca eleitoral que ameaça os planos bilionários da OpenAI

A ressaca eleitoral que ameaça os planos bilionários da OpenAI - Foto
Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Depois de conquistar investidores, seduzir governos e convencer boa parte do mundo de que a inteligência artificial revolucionará a economia, as gigantes de tecnologia descobriram um adversário bem menos impressionado com suas promessas: o eleitor americano. Nas eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira, 3, a resistência à construção de data centers ganhou força e ajudou a transformar a corrida bilionária pela inteligência artificial em um problema político.

A ressaca chegou rapidamente a Wall Street. Na sexta-feira, 6, a Bloomberg revelou que a OpenAI, dona do ChatGPT, havia captado 11 bilhões de dólares, na primeira etapa de uma rodada cujas ambições iniciais eram bem maiores.

A empresa pretendia levantar pelo menos 30 bilhões de dólares, mas reduziu a meta para até 20 bilhões. O valuation também encolheu, de 1,4 trilhão para 1,25 trilhão de dólares.

A explicação para a conexão entre as urnas e o mercado financeiro passa por algo bastante familiar aos consumidores: a conta de luz. Para alimentar seus modelos de inteligência artificial, empresas como OpenAI, Google e Microsoft precisam de uma infraestrutura gigantesca, que consome volumes extraordinários de eletricidade e água.

O problema é que nem todos os americanos estão dispostos a receber essas instalações em suas vizinhanças, sobretudo diante do temor de aumento das tarifas de energia. Segundo a Ballotpedia, em 40 das 41 votações locais relacionadas a data centers realizadas na terça-feira, os eleitores favoreceram restrições à instalação dos empreendimentos.

Foram aprovadas 27 medidas contrárias à expansão e rejeitadas outras 13 que buscavam facilitá-la. Para uma indústria acostumada a vender o futuro como uma promessa irresistível, foi uma recepção pouco calorosa.

O recado ganhou ainda mais peso com a vitória dos democratas em estados estratégicos para o setor. No Texas, um dos principais destinos dos investimentos em infraestrutura digital, a governadora eleita Gina Hinojosa defendeu a suspensão de novas autorizações até que sejam estabelecidas regras mais rígidas para os empreendimentos.

A preocupação não é pequena. Segundo estimativas do Goldman Sachs, estados onde o resultado eleitoral pode levar a novas restrições concentram aproximadamente 45% da expansão planejada da capacidade americana de data centers.

Somente o Texas responde por cerca de um quarto desse total. Para os investidores, a possibilidade de atrasos, exigências adicionais e custos maiores acrescenta uma variável incômoda aos cálculos de retorno de projetos que já exigem investimentos astronômicos.

É nesse cenário que a captação da OpenAI adquire um significado mais amplo. A redução das ambições financeiras da empresa começou antes das eleições, em meio às dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial.

Em 22 de outubro, a Bloomberg já havia informado que a avaliação pretendida pela companhia havia sido reduzida em 150 bilhões de dólares. O resultado das urnas, portanto, não explica sozinho a mudança de humor dos investidores, mas acrescenta uma dificuldade bastante concreta.

Afinal, não basta levantar dinheiro para construir data centers se a população e os governos locais começarem a dificultar sua instalação. A rodada da OpenAI ainda está em andamento, e os 11 bilhões de dólares representam apenas sua primeira parcela.

Mesmo assim, a distância em relação às ambições originais ajuda a ilustrar como o entusiasmo quase irrestrito pela tecnologia começa a dar lugar a perguntas menos glamourosas sobre custos, riscos e retorno financeiro. Continua após a publicidade

A própria OpenAI parece ter compreendido que chegou a hora de fazer política, além de tecnologia. Na quinta-feira, 5, dois dias depois das eleições, a empresa anunciou um conjunto de compromissos para melhorar sua relação com as comunidades que receberão novos data centers.

Entre as medidas estão maior transparência sobre os impactos das instalações e o fim da exigência de acordos de confidencialidade com autoridades públicas, ressalvadas informações comerciais e de segurança. Na sexta-feira, a diretora financeira da companhia, Sarah Friar, afirmou que os planos de expansão continuam de pé e contestou a interpretação de que a empresa tenha reduzido suas ambições de financiamento.

A mensagem é de confiança, mas o esforço para conquistar a simpatia dos moradores revela uma preocupação que até pouco tempo atrás mal aparecia nas apresentações aos investidores. A ironia é que o maior obstáculo à expansão da inteligência artificial talvez não esteja nos limites da tecnologia, mas nas condições necessárias para colocá-la em funcionamento.

A demanda pelos serviços continua crescendo, e as empresas precisam de cada vez mais capacidade de processamento para atendê-la. Ao mesmo tempo, a infraestrutura que sustenta esse crescimento passou a disputar espaço com preocupações bastante terrenas, como o preço da energia, o abastecimento de água e os impactos sobre as comunidades.

Para Wall Street, a equação ficou mais complicada. Para a OpenAI, a tarefa agora é convencer dois públicos ao mesmo tempo: investidores de que seus bilhões terão retorno e eleitores de que suas contas não ficarão mais caras.

Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →