No novo e dinâmico cenário mundial da transição energética, os medidores inteligentes serão um dos instrumentos mais estratégicos para a modernização do setor elétrico. Os medidores eletromecânicos, ainda empregado na esmagadora maioria das unidades consumidoras do Brasil, são uma tecnologia defasada por registrar o consumo de forma agregada e pouco interativa, cuja principal informação é o montante de energia consumido a cada mês.
O consumidor possui apenas a informação sobre o seu consumo total, mas pouco sabe sobre como esse consumo se distribuiu por tipo de aparelhos e como se comporta ao longo do dia. Assim, diante do processo de transformação que está em curso acelerado, como, por exemplo, o consumidor podendo ser produtor de energia elétrica a partir da instalação de painéis solares (micro e minigeração distribuida), a difusão dos veículos elétricos e a possibilidade de ingresso no mercado livre, os medidores inteligentes serão estratégicos para abrir oportunidades de novos produtos e serviços.
Medir é a base de qualquer relação comercial envolvendo energia e, a partir disso, é possível determinar quanto uma unidade consumidora utilizou por tipo de aparelhos, quanto eventualmente injetou na rede caso tenha painel solar e quando isso ocorreu. Por outro lado, destacam-se novas vantagens dessa tecnologia, como a realização da leitura de forma remota, a contabilização do consumo em intervalos muito menores do que o mensal, a comunicação bidirecional do fluxo de energia, o registro mais acurado de interrupções e das tentativas de fraude e a execução de operações, como corte e religamento do fornecimento, à distância.
Noutra vertente, os medidores inteligentes serão de grande relevância para o processo de abertura do mercado de energia elétrica no Brasil. No mercado livre de energia, o consumidor tem o direito, mas não a obrigação, de escolher de qual comercializadora deseja adquirir energia elétrica.
A rede elétrica continurá sendo operada pela distribuidora local, responsável pela entrega física da eletricidade, mas a comercialização passa a ser objeto de concorrência entre vários fornecedores, como ocorreu em mercado elétricos na Europa, por exemplo. Atualmente no Brasil, somente os grandes consumidores de energia elétrica, que totalizaram cerca de 85 mil empresas em julho de 2026, podem escolher de qual comercializadora desejam adquirir energia, porém, até novembro de 2028, qualquer consumidor brasileiro poderá optar pelo ingresso no mercado livre.
Trata-se assim de um mercado potencial total estimado em mais de 90 milhões de unidades consumidoras. A mudança em curso, portanto, é complexa, muito sensível e de grande magnitude, obervando-se que o maior estímulo à migração para o mercado livre é guiado, sobretudo, pela possibilidade de tarifas menores.
A conformação de um espaço concorrencial para o fornecimento de energia acena nessa direção. Contudo, é importante nivelar seu impacto a nível das tarifas.
A parcela que diz respeito à compra de energia, que seria a principal afetada pela migração, é apenas parte da conta de luz. A fatura inclui, também, os custos associados às redes de distribuição e transmissão, os encargos e os tributos, que se mantêm os mesmos com a troca do ambiente de contratação.
Dessa forma, ainda que seja possível obter uma redução na parcela referente à compra da energia, o benefício que se observa com a migração pode também não ser suficiente para justificar a mudança pelo consumidor, especialmente por aqueles que consomem pouco e carecem de conhecimentos sobre o funcionamento e as regras do mercado livre.
Trata-se, assim, de um processo lento e gradual, mas a possibilidade de migração para o mercado livre é uma opção que congrega oportunidades assentadas, por exemplo, na oferta de novos produtos tarifários. Entre eles, podem ser destacados os contratos adaptados ao perfil de consumo, com preços diferenciados no tempo e economia obtida pela capacidade de deslocar parte do consumo para os horários nos quais o custo da energia é menor.
Esses produtos tarifários têm o potencial para amplificar o benefício da migração, mas o ganho será maior para os consumidores em posição de percebê-lo e administrá-lo. Portanto, a medição inteligente é o instrumento chave para destravar e amplificar essas possibilidades.
No entanto, a cobertura da medição inteligente no Brasil ainda é muito reduzida. Um estudo de 2026 da Envol Energy Consulting indica a presença de medidores inteligentes em apenas 5% a 6% das unidades consumidoras do país.
Investimentos para a instalação dos novos medidores foram lideradas, principalmente, por projetos e estratégias próprias das concessionárias de distribuição como a Copel e a Enel. Há, também, atenção e esforços no campo da política energética, a exemplo do Decreto nº 12.068/2024, que trata da prorrogação dos contratos das concessões de distribuição de energia elétrica, com destaque para a digitalização gradual das redes e dos serviços, inclusive dos sistemas de medição.
Ademais, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) incluiu as atividades relacionadas à avaliação dos sistemas de medição para a transição energética e modernização da distribuição na sua agenda regulatória, enquanto a Portaria Normativa MME nº 111/2025 estabeleceu diretrizes gerais para a digitalização gradual das redes e dos serviços de distribuição em baixa tensão.
O marco mais recente desse processo é a Portaria Normativa MME nº 126/2026, publicada em janeiro deste ano, que determinou um piso nacional de implantação de medidores inteligentes para cumprimento nos próximos dois anos. A Portaria dispõe que as distribuidoras devem instalar sistemas de medição inteligente em percentual adicional correspondente a, pelo menos, 2% das unidades consumidoras de sua área de concessão por ano, durante 24 meses contados de 1º de março de 2026.
Por sua vez, o Decreto nº 13.097/2026 determina que a substituição do sistema de medição não poderá constituir um impedimento à migração do consumidor de baixa tensão para o mercado livre. Condicionar a migração para o mercado livre de energia à substituição prévia de dezenas de milhões de medidores configuraria uma barreira à abertura do mercado.
Esse fator, no entanto, não deve conduzir à conclusão de que a medição inteligente é dispensável, já que sem o medidor inteligente a possibilidade de o consumidor se beneficiar da oferta de novos produtos ficará bastante limitada. O principal aspecto que impede a difusão generalizada dessa inovação tecnológica é o custo do rollout massivo.
O equipamento medidor é reconhecido na base regulatória de ativos da distribuidora, de modo que o montante relativo ao investimento na implantação ou troca desses dispositivos é repassado para os consumidores via tarifa de energia. Assim, acelerar o ritmo de instalação pressionaria as tarifas, tensionando o princípio de modicidade tarifária dos serviços públicos.
O já citado estudo da Envol estima que a universalização da medição inteligente no Brasil exigiria um investimento de R$ 25 a R$ 35 bilhões apenas em equipamentos. O mercado livre cria uma demanda por medição inteligente e, ao mesmo tempo, depende deles para ofertar novos produtos e aproveitar todo o potencial de um mercado potencial de 90 milhões de consumidores.
Entretanto, é possível criar mecanismos comerciais e de faturamento capazes de incorporar consumidores que ainda utilizam equipamentos convencionais, mas se perde, nesses casos, é a riqueza das informações. Quanto maior a disponibilidade da informação, maiores são as possibilidades de elaboração e escolha de produtos comerciais mais sofisticados.
Em suma, a abertura de mercado pode avançar sem os medidores inteligentes, mas o seu amadurecimento tende a aumentar o valor dessa infraestrutura e apossibilidade de novos produtos e serviços. Ou seja, o mercado livre e a medição inteligente no setor elétrico brasileiro não precisam avançar no mesmo ritmo, porém devem seguir na mesma direção.
Nivalde de Castro é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador geral do GESEL- Grupo de Estudos do Setor Elétrico. Gustavo Esteves é pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL-UFRJ).
Luiza Bonazza é pesquisadora do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL-UFRJ).
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