“Este terreno não se vende.” A determinação foi deixada pelo imigrante português Henrique Rato aos filhos, pouco antes de sua morte, em 1984. Naquele pedaço de terra, no município da Serra, ele alimentava havia décadas o sonho de ver erguido um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima.
Não viveu para acompanhar a conclusão da obra, mas sua vontade foi respeitada pela família. A história dessa promessa, que se confunde com a origem do Bairro de Fátima e com um capítulo da expansão urbana da Grande Vitória, é um dos fios condutores de “O Manto que me deram”, livro de autoria de Leonor Rato, hoje com 85 anos.
Filha de Henrique, ela reuniu lembranças, documentos e fotografias para preservar a trajetória de um homem que fez da fé, do trabalho e do empreendedorismo as marcas de sua vida. A obra será lançada no dia 15 de novembro, após a missa das 10 horas, no salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, na Serra.
O local escolhido para o lançamento é também um dos protagonistas da história. Com 272 páginas e 52 capítulos, o livro acompanha uma família desde suas origens em Portugal, atravessa episódios da imigração portuguesa no Brasil e revela histórias que fazem parte da memória capixaba.
Henrique Rato chegou ao Brasil em 21 de março de 1929, aos 26 anos, a bordo do vapor inglês Astúrias. Desembarcou no Rio de Janeiro com a missão de preparar a chegada da mãe e do irmão mais novo, que enfrentava uma doença grave.
Depois de trabalhar no comércio carioca, mudou-se para Vitória, onde participou da implantação das Casas Pernambucanas, na Vila Rubim, e da expansão da rede para outras cidades capixabas e de Minas Gerais. No interior do Espírito Santo, conheceu Anna Fiorotti, com quem se casou e constituiu família.
Em Itarana, investiu na fabricação de uma aguardente, utilizando uma antiga patente pertencente à família da esposa. O empreendimento, que daria origem à Cachaça Ipiranga, enfrentou dificuldades durante a Segunda Guerra Mundial, quando restrições governamentais interromperam a produção.
Para garantir o sustento da família, Henrique passou a transportar café do interior capixaba até o Rio de Janeiro. As viagens, realizadas por estradas de terra, podiam durar cinco dias.
Encerrada a guerra, retomou a produção da aguardente, cujo rótulo original, dos anos 1940, está reproduzido no livro. Foi durante suas atividades comerciais que surgiu a oportunidade de adquirir a antiga Fazenda Pau-Brasil, inicialmente destinada ao cultivo de cana-de-açúcar.
A propriedade, no entanto, teria um destino muito diferente. Na década de 1950, uma visita do então bispo de Vitória, dom José Joaquim Gonçalves, mudou os planos para as terras.
O religioso sugeriu que ali fosse construído um santuário dedicado a Nossa Senhora de Fátima, tendo ao redor um loteamento residencial. “O santuário será o coração”, teria afirmado o bispo, ao defender o projeto.
Henrique abraçou a proposta. A área de mata começou a dar lugar a ruas, casas e serviços.
O empreendimento exigiu soluções para dificuldades de abastecimento de água e transporte. Ele chegou a criar uma linha de ônibus para atender aos moradores e doou seis mil metros quadrados para a construção de uma escola estadual, posteriormente batizada com o nome de sua mãe, Clotilde Rato.
A devoção a Nossa Senhora de Fátima, porém, era anterior ao projeto. Ainda adolescente, em Lisboa, Henrique havia acompanhado, em 1917, a movimentação dos fiéis durante o período das aparições marianas em Portugal.
Ao longo de suas viagens pelo Brasil, carregava uma pequena imagem da santa, cuidadosamente protegida por camadas de lã. Em cada nova residência, a imagem ganhava um lugar especial.
Leonor recorda no livro: “A Santa não era apenas uma estátua. Era o ponto fixo em meio às mudanças”.
A pequena imagem também aparece em um episódio dramático da infância da autora. Em Itarana, uma vela acesa em devoção à santa provocou um incêndio ao atingir uma cortina.
Leonor, ainda bebê, foi retirada do berço pela tia antes que as chamas se espalhassem. A imagem ficou danificada pelo fogo e acabou sendo restaurada pela própria Leonor muitos anos depois.
Um dos momentos mais marcantes dessa história aconteceu em 17 de abril de 1953, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, trazida de Portugal, visitou o terreno onde seria construído o santuário. Na ocasião, foi lançada a pedra fundamental do templo, em cerimônia acompanhada por Leonor, então com 12 anos.
Fotografias históricas mostram Henrique e dom José ao lado da imagem peregrina. A autora também recupera relatos de participantes da celebração, entre eles o de que, apesar da chuva intensa, o espaço da cerimônia teria permanecido protegido da água, circunstância interpretada pelos presentes como um sinal de proteção da santa.
A construção mobilizou a família e a comunidade. Leonor e a irmã Adelaide percorriam casas para arrecadar contribuições, enquanto campanhas de tijolos simbólicos e rifas de terrenos ajudavam a financiar o projeto.
Henrique também encomendou ao artista Carlo Crepaz uma imagem de Nossa Senhora de Fátima esculpida em madeira de jacarandá. Durante anos, ela permaneceu na residência da família, de onde era levada para missas, batizados, casamentos e procissões realizadas na antiga capela de madeira.
As celebrações de 13 de maio e 13 de outubro movimentavam o bairro, com a imagem conduzida em andor enfeitado por flores. Eram encontros religiosos que também se transformavam em momentos de convivência da comunidade.
O projeto enfrentou obstáculos, incluindo restrições à altura da torre pela proximidade com o Aeroporto de Vitória e interrupções decorrentes de mudanças na liderança religiosa. Henrique morreu em 11 de julho de 1984, sem ver a obra concluída
A família, entretanto, preservou a área, conforme seu desejo. Cerca de duas décadas depois de sua morte, a imagem de jacarandá deixou definitivamente a residência dos Rato para ocupar o altar-mor do santuário.
A trajetória de Henrique Rato não ficou restrita ao desenvolvimento urbano e à vida religiosa. Ele também deixou sua marca na gastronomia e na vida social do Espírito Santo com o restaurante Madragoa, instalado no Bairro de Fátima.
Batizado em homenagem a uma região tradicional de Lisboa, o estabelecimento tornou-se conhecido pela culinária portuguesa, especialmente pelos pratos à base de bacalhau. Com capacidade para 400 pessoas, distribuídas em cem mesas, o Madragoa recebia empresários, autoridades, diplomatas, famílias da comunidade portuguesa e personalidades da sociedade capixaba.
Entre as lembranças registradas no livro está uma apresentação do cantor português Roberto Leal, organizada por Henrique. Leonor acompanhou de perto essa fase da vida do pai, participando da administração e trabalhando no caixa do restaurante.
Na década de 1970, a contribuição de Henrique à sociedade capixaba também foi reconhecida com a concessão do título de Cidadão Vitoriense. Para além de uma biografia, “O Manto que me deram” reúne histórias de diferentes gerações de uma família que participou das transformações do Espírito Santo ao longo do século XX.
A obra também dá espaço às mulheres da família, entre elas Clotilde Rato, mãe de Henrique, e Anna Fiorotti, sua mulher. Fotografias de Portugal, registros da imigração, imagens das primeiras construções do Bairro de Fátima e cenas da vida social capixaba ajudam a reconstruir diferentes épocas.
A produção editorial ficou a cargo de Ana Cristina Rato Schultz, filha de Leonor, que organizou as conversas e lembranças da mãe em capítulos. A capa é assinada por Rubens Lima.
O próprio título do livro remete à história familiar. Segundo a tradição preservada pelos descendentes, o sobrenome Rato foi recebido pelo avô José como um gesto de acolhimento e afeto, tornando-se símbolo de pertencimento transmitido às gerações seguintes.
Leonor Mendonça Martins Rato Schultz nunca teve a literatura como profissão. Sempre caminhou lado a lado com seu pai, inclusive nos negócios imobiliários, e preservou as memórias dessa trajetória.
Com este livro, compartilha essas lembranças com filhos, netos e as gerações futuras, para que conheçam a origem de sua família. Ao transformar essas recordações em livro, acabou também registrando personagens, lugares e acontecimentos que ajudam a explicar a formação de uma parte da Grande Vitória.
Nas páginas finais, uma frase sintetiza o sentido desse reencontro com o passado: “Henrique atravessou um oceano para plantar. Eu atravessei a memória para colher”.
Local: salão anexo ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, Bairro de Fátima, Serra Pré-venda:
A Gazeta