Quem chegou à feira em outubro à procura de tomate, cebola e verduras encontrou um alerta que os números gerais da inflação quase esconderam. O grupo Hortaliças e Legumes disparou 10,6% em apenas um mês no índice de preços ao consumidor calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
A alta, divulgada em 29 de outubro de 2026, contrasta com a variação de apenas 0,45% do índice de preços ao consumidor como um todo. Para as famílias que compram verduras e legumes semanalmente, a diferença chama atenção: enquanto o indicador geral desacelerou, os alimentos frescos continuaram sob pressão.
O economista Matheus Dias, do FGV IBRE, aponta condições climáticas adversas e oferta limitada de determinados produtos, como o tomate, entre as explicações. Os próximos meses ainda podem trazer oscilações, segundo a instituição.
O número divulgado pela FGV em seu levantamento de outubro refere-se ao subgrupo Hortaliças e Legumes do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), integrante do IGP-M. Ele não representa um reajuste obrigatório de cada tomate, alface ou cebola vendido no Brasil nem a variação do IPCA, índice oficial calculado pelo IBGE.
A distinção importa porque os indicadores medem universos diferentes. Em outubro, o IPC da FGV subiu 0,45%, abaixo dos 0,50% de setembro.
Já a classe Alimentação avançou 1,02%, ante 0,51% no mês anterior. Dentro dela, hortaliças e legumes se destacaram com o salto de dois dígitos.
O IGP-M completo, que reúne preços do produtor, consumidor e construção civil, avançou 1,47% em outubro, depois de 1,57% em setembro. A diferença entre o avanço moderado do índice amplo e a alta mais intensa dos produtos frescos ajuda a explicar por que a experiência de quem compra para cozinhar pode ser diferente da manchete sobre a inflação média.
Entre os itens que ajudam a mostrar a pressão, o tomate registrou alta de 19,44% e a cebola, de 15,38%, segundo os resultados do IPC destacados pela revista Veja na divulgação do IGP-M de 29 de outubro. Os percentuais são variações medidas pelo índice, não cotações em reais por quilo nas feiras.
Um exemplo permite dimensionar a pressão sobre o orçamento, sem confundir a estatística com uma tabela de preços: se uma seleção de hortaliças custasse R$ 80 e acompanhasse exatamente a variação média de 10,6%, passaria a R$ 88,48. O acréscimo seria de R$ 8,48 naquela compra.
Na vida real, o impacto depende dos produtos escolhidos, da cidade, da quantidade comprada e do local de venda. Para quem faz compras várias vezes por mês, a troca de alguns itens por alternativas mais baratas pode reduzir a despesa, mas exige atenção às cotações de cada banca.
Nem todo legume teve a mesma trajetória, e o consumidor pode encontrar produtos com comportamento oposto ao da média. O clima entrou diretamente na explicação da FGV.
Segundo Matheus Dias, chuvas mais desfavoráveis que o padrão sazonal histórico agravaram as restrições de oferta de produtos como o tomate. Hortaliças são perecíveis: a colheita, o transporte e a conservação podem ser afetados quando chove demais justamente nas áreas produtoras.
O que acontece no campo aparece com mais clareza no levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 27 de outubro. Ao comparar setembro com agosto nos principais entrepostos atacadistas, a estatal encontrou alta média ponderada de 48,9% no tomate, 32,88% na batata, 29,31% na cebola e 15,69% na alface.
Os índices da Conab se referem ao atacado em setembro, enquanto os 10,6% divulgados pela FGV pertencem ao consumo em outubro. Não são percentuais que possam ser somados ou atribuídos indistintamente ao mesmo produto.
Juntos, ajudam a entender como problemas de produção e oferta vêm afetando diferentes etapas do mercado de alimentos. Segundo a Conab, as chuvas nas regiões produtoras do Sul e do Sudeste dificultaram a colheita de batata e cebola, prejudicaram o plantio de folhosas e retardaram o amadurecimento do tomate.
Em São Paulo, a cotação da alface na Ceagesp subiu 48,3% na comparação de setembro com agosto, puxando a média ponderada do produto para cima. Há uma exceção importante à narrativa de encarecimento generalizado.
No mesmo boletim da Conab, a cenoura apresentou queda de 16% na média dos mercados atacadistas pesquisados, apesar do menor volume comercializado. A explicação envolveu a perda de qualidade de parte das raízes após as chuvas, fator que diminuiu o preço pago por determinadas mercadorias.
Essa diferença mostra o duplo efeito do clima: ao mesmo tempo que a falta de produto em boas condições pode elevar as cotações, uma safra com qualidade prejudicada pode aumentar a oferta de lotes vendidos com desconto. Para o agricultor, uma cotação menor nem sempre é uma boa notícia; para a família, a redução no atacado também pode demorar a chegar ao varejo.
O boletim registrou ainda queda da melancia e do mamão em setembro, enquanto maçã e laranja ficaram mais caras. A cesta escolhida pelo consumidor faz diferença, e a variação média de um grupo de produtos não substitui a comparação do preço efetivo em cada região.
O avanço registrado no índice da FGV convive com uma mudança observada nos mercados atacadistas nas últimas semanas. Análise publicada pelo Notícias Agrícolas em 29 de outubro, com base em informações do Hortifrúti/Cepea, mostra que a retomada das colheitas começou a aliviar as cotações de determinados produtos.
Na semana de 17 a 23 de outubro, a batata caiu 12% no atacado de São Paulo, 20,8% no Rio de Janeiro e 13,72% em Belo Horizonte. O movimento foi associado à normalização de colheitas e à chegada ao mercado de parte da produção que havia atrasado com as chuvas.
Na cebola, áreas produtoras de Minas Gerais e de Goiás também registraram recuos nas cotações semanais após a retomada dos trabalhos de campo. Já o tomate teve comportamento desigual: caiu em determinados atacados, mas subiu no Rio de Janeiro no período pesquisado.
A trajetória regional impede concluir que a feira inteira ficará mais barata imediatamente. O alerta da FGV não é uma previsão de que todo alimento continuará subindo ao mesmo ritmo de outubro.
Matheus Dias avalia que os produtos frescos devem permanecer voláteis e menciona que os efeitos do El Niño podem aumentar a probabilidade de novas pressões sobre o grupo de gêneros alimentícios. O tamanho de uma eventual alta dependerá do clima efetivamente observado, da oferta e da reação dos mercados.
Em lavouras de tomate, cebola e folhosas, chuvas persistentes também vêm provocando problemas de qualidade, doenças e atrasos de plantio. Reportagens baseadas no acompanhamento do Cepea apontaram dificuldades em áreas de Minas Gerais e São Paulo.
Mesmo quando a colheita é retomada, perdas e mudanças no calendário podem continuar influenciando os preços nas semanas seguintes. Para o consumidor, as próximas divulgações da FGV e as cotações das centrais de abastecimento mostrarão se o movimento se espalha ou perde força.
Por enquanto, os dados deixam duas mensagens concretas: a alta de 10,6% atingiu o subgrupo de hortaliças e legumes no indicador de outubro, e as diferenças entre produtos, regiões e etapas de comercialização continuam grandes. Na sua cidade, quais verduras e legumes mais encareceram? Conte nos comentários quanto mudou sua compra na feira e compartilhe esta reportagem com quem está tentando organizar o orçamento de alimentação.
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