As diferenças entre Brasil e China quando o assunto é inteligência artificial já eram evidentes há tempos, e acompanhando de perto como é essa discussão fora do Brasil, isso ficou ainda mais evidente, principalmente quando queremos, a todo custo, responder perguntas que não precisam de respostas.
Vale do Silício ou China, quem vai ganhar a disputa? Uma imersão no ecossistema chinês permite compreender de perto um país que se destaca cada vez mais pelos avanços tecnológicos. Inquieto com esses debates, resolvi pegar longas horas de voo e estudar de perto o ecossistema chinês.
Por anos, a pergunta predominante sobre a China, era se o país conseguiria inovar, e depois de visitar empresas, aceleradoras, parques tecnológicos e centros de pesquisa em três cidades chinesas, a percepção é de que a pergunta correta agora é outra: que tipo de empresa está emergindo da combinação entre inteligência artificial, dados, plataformas e escala?
A resposta apareceu nos lugares menos óbvios, como em uma estação da NIO, uma empresa de tecnologia chinesa que fabrica carros, e que não podemos chamar de montadora, uma vez que a bateria de um carro é trocada em cinco minutos, aproximadamente. Em Hangzhou, é possível entrar em um shopping onde os influenciadores vendem produtos ao vivo, com lives de até 16 horas por dia, e o cliente final não tem acesso ao lugar.
Em Pequim, empresas pagam trabalhadores para capturar os movimentos de suas mãos e ensinar robôs a executar tarefas físicas. À primeira vista, essas histórias podem parecer desconexas, mas, na realidade, são manifestações da mesma transformação.
A China está usando inteligência artificial para redesenhar o conceito de empresa. Durante décadas, empresas foram organizadas em torno de seus produtos: fabricantes produziam carros, varejistas vendiam mercadorias e plataformas conectavam compradores e vendedores.
Na China, porém, essa lógica está dando lugar a um modelo muito mais integrado. Na NIO, por exemplo, o carro parece quase um detalhe.
A companhia opera mais de 3 mil estações de troca de baterias, mantém centenas de milhares de pontos de carregamento, desenvolve chips próprios, sistemas de IA embarcados e administra uma comunidade digital com milhões de usuários. Segundo executivos da empresa, 85% dos clientes optam por alugar a bateria em vez de comprá-la.
O resultado é uma mudança radical de lógica, a empresa deixa de ganhar dinheiro apenas quando vende um veículo, ela passa a monetizar energia, serviços, relacionamento e recorrência. O mesmo fenômeno acontece no comércio, o live commerce chinês já não se parece com uma ação de marketing, aparenta ser uma indústria.
Transmissões funcionam de forma contínua, apoiadas por equipes responsáveis por cupons, métricas, logística, operação e análise de desempenho, o influenciador deixa de ser apenas um criador de conteúdo e passa a atuar como canal de distribuição, mídia e vendedor ao mesmo tempo. A fronteira entre entretenimento e comércio praticamente desaparece, e talvez a transformação mais profunda esteja acontecendo na inteligência artificial.
No Ocidente, grande parte da atenção continua concentrada em modelos conversacionais e produtividade digital. Na China, o debate já avançou para a próxima etapa: levar a IA para o mundo físico.
Em laboratórios de robótica, as empresas estão interessadas em capturar movimentos humanos em fábricas, restaurantes, fazendas e hospitais para treinar robôs. O raciocínio é simples, se os dados textuais permitiram o surgimento dos grandes modelos de linguagem, os dados de comportamento poderão impulsionar a próxima geração de máquinas capazes de realizar atividades físicas.
A comparação feita por alguns executivos é reveladora, os robôs de hoje estariam no estágio em que os smartphones se encontravam antes da explosão dos aplicativos. Mas existe um fator ainda mais importante por trás dessa evolução: o ecossistema.
Em Zhongguancun, considerado o principal polo de inovação tecnológica de Pequim, universidades, incubadoras, fundos, empresas e governo operam de maneira integrada. A TusPark, ligada à Universidade de Tsinghua, ajudou a criar um ambiente em que pesquisa, capital e empreendedorismo convivem no mesmo sistema.
Não por acaso, a China desenvolveu mecanismos de investimento orientados pelo Estado para acelerar setores considerados estratégicos, incluindo inteligência artificial, robótica e semicondutores. Isso não significa que a China tenha resolvido todos os problemas da inovação, muitas tecnologias ainda estão em estágio inicial.
Robôs cometem erros, aplicações de IA sofrem com limitações conhecidas. A competição entre empresas é acirrada e a pressão por rentabilidade aumenta, mas a impressão que permanece é que o país decidiu testar o futuro em escala real e talvez essa seja sua principal vantagem competitiva.
Enquanto muitos mercados ainda discutem qual será o impacto da inteligência artificial sobre os negócios, a China já está experimentando novos modelos empresariais em que software, hardware, serviços, dados, comunidade e inteligência artificial funcionam como partes de uma mesma plataforma.
A empresa do futuro talvez ainda não exista de forma definitiva. Mas, se ela surgir primeiro em algum lugar, há uma boa chance de que esteja sendo testada agora em alguma cidade chinesa.
*Vinicius Cordoni é fundador e co-CEO da VCRP Mais Lidas
Epoca Negócios