247 – Diretamente de Bangkok, entre arranha-céus corporativos e embaixadas no sudeste asiático, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar dedicou uma edição especial do seu programa semanal, o Pepe Café, para dissecar o terremoto político provocado pelo segundo turno das eleições brasileiras.
Sem meias palavras, Escobar reagiu ao comportamento do eleitorado e à debandada imediata das lideranças da extrema direita: “É impressionante que 60 milhões de brasileiros tenham votado em um fugitivo”, disparou. A análise parte da constatação de que o Brasil se tornou, de forma definitiva, o epicentro da disputa hegemônica internacional no século XXI.
Para Escobar, o resultado eleitoral não representou apenas uma disputa convencional entre dois projetos domésticos, mas sim o choque frontal entre a soberania nacional e os interesses da superpotência imperial norte-americana, que tentava manter a maior economia da América Latina sob controle direto de seus interesses geoestratégicos.
A vitória nas ruas e a infantaria digital De acordo com o jornalista, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi arrancada na base da mobilização popular massiva e espontânea.
“Foi um espetáculo inenarrável ver o povo brasileiro desafiar abertamente o império fora de controle e resgatar a eleição nas ruas”, destacou no Pepe Café. Escobar ressaltou que a combinação entre uma presença física avassaladora nos centros urbanos e nas periferias com a organização da “infantaria digital” — com destaque para a articulação de redes e transmissões que furaram o bloqueio dos algoritmos — gerou uma avalanche de votos suplementares que superou os 4 milhões de vantagem no segundo turno.
Essa margem foi crucial para neutralizar qualquer tentativa de desestabilização informática imediata ou questionamento sumário do resultado. Os tentáculos da “coalizão tóxica”
A disputa, segundo o analista, deu-se contra uma estrutura multinodal que ele classifica como a “coalizão tóxica”. Essa engrenagem, aponta Escobar, reúne:
O complexo de Washington e o Deep State: Setores do governo norte-americano e da administração Donald Trump, que viam na vitória da extrema direita a consolidação de um alinhamento automático na América do Sul. O tecnofeudalismo: Grandes corporações do Vale do Silício, com ênfase na Meta (Facebook, WhatsApp e Instagram), que exercem controle quase monopólico sobre a comunicação digital no território brasileiro.
O mercado financeiro e a Faria Lima: O capital rentista subordinado a Wall Street e parcelas oligárquicas do agronegócio exportador. A mídia hegemônica tradicional: A imprensa corporativa brasileira, que operou como correia de transmissão dos interesses dessa elite.
O neopentecostalismo político: A instrumentalização religiosa que substituiu a identidade cultural e a teologia popular brasileira por uma matriz ideológica alinhada aos interesses anglo-americanos. Escobar chamou a atenção para o papel de ferramentas como a Polymarket e plataformas de dados, apontando que essas plataformas serviram como instrumentos de guerra psicológica pré-eleitoral ao apontarem probabilidades irreais de vitória da oposição para desmobilizar a base progressista.
Uma “extração” ao estilo de espionagem barata Ao comentar os eventos ocorridos logo após o anúncio da apuração, Escobar ironizou a velocidade com que o herdeiro político do bolsonarismo cruzou a fronteira em direção aos Estados Unidos.
Com ordens judiciais de apreensão de passaporte e investigações por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa em curso, a saída do país foi descrita como um roteiro canhestro de espionagem. “Deus, pátria, família, liberdade… nada disso.
Bye bye, eu vou fugir”, ironizou Escobar, traçando um paralelo sarcástico com filmes de ação de baixo orçamento: “Uma versão barata de Tom Clancy recuperada pela Netflix”. Para o analista, a dinâmica da fuga — atravessando a fronteira terrestre para Puerto Iguazú com documento de identidade, valendo-se do apoio do governo de Javier Milei na Argentina, despistando autoridades com aeronaves reservas e utilizando passaporte italiano para embarcar rumo à Flórida — possui todas as características de uma clássica operação de “extração” coordenada com setores de inteligência e o Departamento de Estado americano.
O objetivo dessa movimentação, alerta o jornalista, é estabelecer uma espécie de “liderança no exílio”, mesclando os expedientes vistos com figuras como Juan Guaidó e María Corina Machado na Venezuela, para atuar como ponta de lança de sanções, tarifas e pressões contra as instituições brasileiras a partir do solo norte-americano.
O Brasil no centro do tabuleiro global Na leitura de Pepe Escobar, a vitória popular no Brasil infligiu um golpe severo na estratégia hegemônica de Washington, que vinha alinhando governos no continente sem encontrar resistências do mesmo porte econômico.
“O Brasil tem tudo o que o império precisa na versão tropical, com um PIB superior ao conjunto de seus vizinhos”, explicou. Apesar da comemoração nas ruas, o recado final do programa foi de cautela redobrada.
Segundo Escobar, a eleição foi apenas o primeiro confronto de uma ofensiva prolongada. Com o trânsito do clã no Departamento de Estado e a elaboração de dossiês contra lideranças progressistas e membros do Judiciário em Washington, as tentativas de asfixia econômica e sabotagem institucional devem se intensificar.
“Os brasileiros derrotaram a mãe de todas as guerras híbridas, mas a coalizão tóxica não vai desistir facilmente. A mobilização precisa continuar nas ruas, nos locais de trabalho e no terreno digital”, concluiu.
Brasil 247