A robusta reeleição do presidente Lula não foi apenas a vitória de um candidato carismático e que já faz parte da história contemporânea brasileira. Foi, acima de tudo, um recado claro e direto das urnas: o país cansou da política do ódio, do negacionismo e do extremismo.
Um recado contundente à direita brasileira, que nos últimos oito anos abriu mão do seu ideário iberal para se tornar refém do bolsonarismo. Os setores conservadores (conservadores, não reacionários) abdicaram das suas ideias, desprezaram quadros históricos e abandonaram propostas econômicas sérias para seguir um projeto pessoal de poder, baseado em ataques às instituições, em fake news e no confronto permanente.
O resultado está aí. O povo brasileiro, cansado desse modo de fazer política, reafirmou a escolha na democracia, na previsibilidade e na continuidade de um projeto de nação em que os setores mais desfavorecidos da sociedade tenham voz e vez.
.Se a direita quiser voltar a ser competitiva e relevante para o Brasil, precisa fazer uma autocrítica urgente. Precisa romper com o radicalismo bolsonarista, abandonar o golpismo e voltar a apresentar propostas reais para o país.
O mais recente episódio do espírito antidemocrático do bolsonarismo foi nos dado logo depois da divulgação da vitória de Lula. Flávio Bolsonaro, numa fala raivosa e inexplicável, colocou em dúvida o resultado das urnas, não reconheceu o triunfo do adversário e já se apressou em anunciar que vai pedir a anulação da eleição que mobilizou milhões de brasileiros.
Mais um exemplo de desserviço à democracia brasileiro, dos muitos dados pelo bolsonarismo. Quanta falta faz, nesta hora, uma direita lúcida.
Uma direita que defenda um país moderno, democrático, que dialogue com a sociedade, que respeite a ciência, o meio ambiente e os direitos sociais. O bolsonarismo não é e nunca foi sinônimo de direita.
Foi uma digressão autoritária que sequestrou os setores mais conservadores da sociedade. Chegou a hora de fechar esse ciclo.
A vitória de Lula de virada no segundo turno mostra que o país quer seguir em frente, sem ódio, sem riscos às conquistas sociais, sem ameaças ao arcabouço democrático da Constituição Federal de 1988. Ao longo de décadas, a direita lúcida e democrática, no Brasil e no mundo, soube conviver com a divergência, com o pensamento contrário, com a pluralidade e sempre de forma respeitosa, sem enxergar no seu oponente um inimigo, mas apenas um adversário.
Talvez o resgate dessa velha forma de convivência democrática tenha no Espírito Santo, nos próximos quatro anos, um bom exemplo na figura de Lorenzo Pazolini. Embora tenha se aproximado do bolsonarismo, no segundo turno, por conveniências eleitorais, é inegável que o governador eleito tem todas as condições de construir pontes e não erguer muros.
Cabe a Pazolini estabelecer uma relação republicana com Lula, com os prefeitos oposicionistas e dialogar com todas as forças políticas do Espírito Santo, de forma respeitosa e democrática, sem abrir mão de suas convicções. O Espírito Santo, que tantos bons exemplos tem dado ao país, pode contribuir decisivamente para restabelecer uma nova (ou velha e boa) forma de fazer política.
E esta iniciativa tem que partir do novo governador. Cabe à direita - inclusive no Espírito Santo - decidir se vai seguir com o Brasil ou se vai continuar presa a uma prática autoritária que as urnas já rejeitaram.
A Gazeta