Nuno Leal Maia não se deixa levar por entusiasmos fáceis. O ator de 79 anos e mais de 20 novelas no currículo andou “sumido” por um longo período, é verdade, como reconhece.
Mas nem tanto assim, ele logo adverte. Longe dos folhetins desde 2012, o artista lista ao menos quatro filmes em que esteve no elenco nos últimos cinco anos, embora admita, sem qualquer constrangimento, que praticamente todos “não foram vistos”.
Agora, após hiato de uma década, está de volta aos palcos na nova montagem de “Meno male”, em que contracena com Carmo Dalla Vecchia, Joaquim Lopes e Suzy Rêgo, entre outros, sob direção de Léo Stefanini. A comédia de Juca de Oliveira — cuja primeira montagem, com direção de Bibi Ferreira nos anos 1980, estendeu-se por sete anos — chegou ao Teatro dos Quatro, na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, depois de uma passagem bem-sucedida pela capital paulista.
Mas, antes que alguém se empolgue demais, Nuno faz questão de colocar os fatos em perspectiva. Cinco anos após morte: Marília Mendonça é tema de série documental que recupera material inédito de seu acervo
Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? — A versão original da peça foi um sucesso que marcou época.
Aliás, muito mais forte do que o sucesso que a gente está fazendo. Não tem comparação — pondera ele, que demonstra a mesma franqueza ao citar os trabalhos recentes nas telonas, entre os quais “Trópico de leão” (2021), “Mil luas” (2025) e o inédito “Sangue de groselha”.
— Fiz cinema pra caramba. São filmes que não são vistos, né? Tem um que nem eu ainda vi.
Rosto popular na televisão durante a década de 1980 — período em que deu vida a galãs em novelas como “Vereda tropical” (1984), “A gata comeu” (1985), “Mandala” (1987) e “Top model” (1989) —, Nuno não parece especialmente saudoso dos tempos de estrelato. Hoje, divide-se entre Santos, sua cidade natal, São Paulo e Rio de Janeiro, onde circula de metrô em meio a uma rotina sem extravagâncias.
Antes de posar para a fotografia desta página, por exemplo, aproveitou uma passagem pelo Centro da cidade para resolver uma pendência numa agência bancária. — Nunca me deixei levar pela fama.
É uma ilusão, né? Não sou astro. Quem tem que mandar em mim sou eu — enfatiza o ator, na entrevista a seguir.
Após muitos anos na TV, você parece mais dedicado ao teatro e ao cinema. É uma escolha?
Meu trabalho é interpretar. Na televisão, nem sempre há oportunidades.
Existe muita concorrência, né? Sinto que tenho mais chances no teatro. Nesses 14 anos longe das novelas, recusou convites?
Acho que não. Não sou quase procurado para fazer televisão.
Guarda algum ressentimento? Não, imagina! Acho que todos na TV fazem o que têm que fazer.
É uma indústria. Não tenho ressentimento nenhum com ninguém.
Nada disso. O ator Nuno Leal Maia
Guito Moreto/Agência O Globo Acha que faltam bons papéis para atores mais velhos?
Ah, isso sim. Americanos e europeus trabalham muito mais com os idosos.
Michael Caine faz filme até hoje. Anthony Hopkins também.
Robert De Niro não para, pô! E ele está mais velho do que eu. E o Al Pacino? Todos trabalham muito...
Personagens maduros são mais valorizados fora do Brasil. O que explica isso?
A indústria televisiva brasileira acha que o jovem é o maior consumidor hoje. Então, há o seguinte pensamento: “Vamos fazer coisas para os jovens assistirem.” Mas todo mundo consome, né? Sobretudo os velhos...
Voltaria a fazer novelas? Tenho que estar aberto a todas as propostas.
Mas acho que teria dificuldade para me adaptar à maneira moderna de fazer novela. Antigamente, eu tinha muita autonomia, criava muito, podia brincar, acrescentar coisas, até ajudar nos textos.
Hoje, tem-se que fazer o que já está planejado. A coisa vem mais formatada.
No teatro, tenho uma liberdade enorme com o que me interessa. A televisão ficou mais rígida.
Vera Fischer e Nuno Leal Maia nos bastidores da novela 'Mandala', em 1988 Irineu Barreto Filho/Agência O Globo
Não faz falta a visibilidade que a televisão proporciona? Não, porque o importante, para mim, é exercitar minha arte, seja no teatro, seja no cinema ou em qualquer veículo.
Talvez eu não tenha a mesma penetração entre o público. Mas não há importância.
Não trabalho para ser visto. Trabalho para me conhecer, melhorar, para construir alguma coisa...
No teatro e no cinema, tento o máximo da perfeição e do autoconhecimento através de um trabalho mais interiorizado. Fiz filmes que nunca foram vistos, e que nem eu assisti ainda.
Mas são trabalhos gostosos, interessantes. Mesmo que não sejam vistos, para mim já é bastante.
Curioso ouvir isso de quem foi um dos maiores galãs da TV nos anos 1980 — e que, antes disso, já havia levado 2,4 milhões de pessoas aos cinemas com “O bem-dotado: o homem de Itu” (1978) . Sempre teve consciência de que o sucesso é efêmero?
Nunca me iludi com o sucesso. É uma ilusão, né? Se morasse em Hollywood, talvez tivesse um pouco mais de ousadia nesse sentido.
Mas é preciso entender a realidade do país. Não posso ser um astro de Hollywood morando em São Paulo ou no Rio.
Aqui, você pode até ter uma ilusãozinha... Mas trata-se de uma passagem.
Nunca deixei as coisas escaparem do meu controle. Quem tem que mandar em mim sou eu.
Não tem essa de “agora sou astro”. Estou trabalhando.
Cena do filme 'O bem-dotado, o Homem de Itu' (1978) com Consuelo Leandro e Nuno Leal Maia Arquivo/Agência O Globo
A popularidade já o incomodou? Que coisa maluca é o sucesso, Deus me livre! Não gosto muito, não.
Prefiro a paz e a tranquilidade, sair para jantar... Tudo devagar.
O teatro é mais calmo, artesanal. Você não tem redes sociais.
É uma maneira de se preservar? Não tenho tempo para as redes sociais.
Não sou contra, não. Acho legal para quem gosta disso.
Mas nunca fui muito de ficar tricotando, trocando figurinha. Acho melhor fazer ioga.
Hoje em dia, para quem está começando, parece que é preciso se expor o tempo inteiro na internet. Não sei se está certo, mas é a realidade.
Acho que as pessoas deveriam se preocupar menos com os outros. Mas, se o mundo está montado dessa maneira, o que se pode fazer? O povo só vai ter que aguentar as consequências mais para a frente, né?
O que restou daquela vida atribulada dos tempos de “Mandala”, época em que fez um baita sucesso como par romântico de Vera Fischer? Na época de “Mandala”, eu tinha um telefone fixo no apartamento onde moro até hoje, em Botafogo, que precisava tirar do gancho.
Se deixasse, ficava o dia inteiro tocando. Foi uma coisa massacrante.
Hoje está bem mais sossegado. Dá para ir para lá e para cá.
Graças a Deus, ainda ando de metrô. Gosto de estar em contato com as pessoas, pois sou muito observador.
Presto muita atenção no ser humano. Todos são personagens, né?
Zezé Polessa e Nuno Leal Maia, nos bastidores da novela 'Top model' (1989) Irineu Barreto Filho/Agência O Globo
Acompanha as novelas hoje? Assisto mais a jornal, esporte e cinema.
Outro dia, descobri o Canal do Boi, que passa uns filmes espetaculares depois da meia-noite. Filmes antigos, bem fora do normal.
Há 20 anos você interpretou pela última vez o professor Pasqualete, de “Malhação”. Imaginava que esse papel marcaria tanto uma geração?
As pessoas lembram desse personagem de um jeito igual — ou até mais — do que os protagonistas que fiz. Lá atrás, não imaginava que seria isso tudo.
Até porque “Malhação” era considerada uma coisa menor. Não tinha o mesmo peso de uma novela.
Mas fui chamado para esse papel e continuei no meu trabalho. E fiz o personagem de um jeito bem dramático, cheio de gestos.
E, olha, foi muito divertido mesmo. Que época gostosa foi aquela.
Nuno Leal Maia na pele do professor Pasqualete, de 'Malhação' Divulgação / TV Globo
Em sua trajetória na TV, você interpretou muitos personagens jovens, esportistas, cheios de vitalidade. Havia algo da sua própria personalidade aí?
Ah, sim! Tenho muito disso em mim. Hoje, claro, não posso fazer as mesmas coisas de antigamente.
Faço um pouco de ioga, quando dá tempo, e gosto bastante de nadar no mar. Antes, corria, mas agora não posso mais por causa do joelho.
No período mais afastado dos palcos e da televisão, como ocupou seu tempo? Fiquei mais focado em mim, na minha vida particular com minha esposa (a atriz Mônica Camillo, com quem vive desde 2001).
Cuidei bastante de mim. É bom ter tempo para isso.
Procurei fazer esporte. Nuno Leal Maia em cena da peça 'Meno male'
Lucas Sancho/Divulgação Sente-se com a idade que tem?
Quando era mais jovem, nem imaginava que estaria vivo com 79 anos. Achava que chegar aos 50 já era uma coisa muito longe.
Pensava: “Pô, quando eu tiver 50 anos, vou estar velho pra caramba!”. Sinto-me outra pessoa, é claro.
Mudei muito. Mas o mundo também mudou.
Fernanda Montenegro, por exemplo, tem 97 anos e, pô, está enxuta pra caramba. Muita gente, veja, está passando dos 100 anos.
É difícil se acostumar a uma vida com menos compromissos? É ótimo, pô! Antigamente, eu fazia cinema, teatro e televisão, às vezes tudo ao mesmo tempo.
Era uma loucura. E tinha que ter gás para aguentar.
Hoje gosto de fazer uma coisa de cada vez. A vida me obriga a ser assim.
Não tenho mais condições físicas de suportar aquela pauleira. Fui enfraquecendo, perdendo imunidade.
As coisas vão baixando... A velhice vai alterando o ritmo.
A gente vai mudando, né?
O Globo