Operado o milagre, uma tarefa muito complexa à frente

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Lula fez de novo. Na minha última coluna antes do segundo turno, escrevi que se havia alguém capaz de operar uma virada inédita contra todas as projeções, esse alguém era ele.

Operado o milagre, há uma tarefa muito complexa à frente do maior líder popular da história do Brasil. O país sai das urnas dividido como antes, e seu governo segue com alto índice de rejeição.

A vitória de virada não autoriza o presidente a interpretar que sua gestão foi chancelada nas urnas: houve, aliada ao lulismo, uma manifestação eloquente de rejeição ao bolsonarismo, maior que a de 2022, e ela foi fruto da enorme mobilização do segundo turno, para a qual a campanha oficial pouco contribuiu.

No fim, uma frente ainda mais ampla se formou para impedir a volta da família Bolsonaro ao Planalto, e para isso contribuíram os excessos de Flávio e seus aliados, desde a frase sobre mudar a Constituição para “redemocratizar" o país, dita logo no dia seguinte ao primeiro turno, até a brincadeira cafajeste feita no debate da Globo com a deficiência de Lula, passando pela alarmante escalada de violência política e crimes de ódio promovida por seus apoiadores nas ruas.

Portanto, o quarto mandato terá forçosamente de contemplar mais forças políticas que o terceiro, até porque Lula precisará fazer aquilo que evitou até hoje: preparar um sucessor, mediando a esperada disputa interna que haverá no PT por esse posto. Uma nova coalizão será crucial também para governar, e o apoio improvável que ele costurou com Davi Alcolumbre e Hugo Motta parece ser o ponto de partida para essa costura, que dará sobrevida ao Centrão como antídoto ao avanço da direita e da extrema direita.

Outras mudanças se fazem necessárias na condução da política fiscal e na relação com o Judiciário. Lula quase perdeu a eleição em parte também pela associação da sua imagem à de um Supremo Tribunal Federal que não pode mais adiar uma resposta ao país para as graves acusações que atingem alguns de seus integrantes.

Por fim, a inédita mobilização de ruas e digital dá à esquerda um novo fôlego quando parecia que esses dois territórios tinham virado monopólio da direita mais radical. Esse foi um ativo que Lula recebeu praticamente de bandeja e do qual não poderá abrir mão, até para contrabalançar o peso congressual da oposição.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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