A consulta médica passa por uma transformação que vai muito além da substituição do papel pelo computador. Prontuários eletrônicos, prescrições digitais, ferramentas de inteligência artificial (IA) e atendimentos a distância já fazem parte da rotina de profissionais e pacientes. A promessa é reduzir a burocracia, facilitar o acesso a informações clínicas e tornar o atendimento mais ágil. O desafio é garantir que os ganhos de eficiência fortaleçam justamente o que não pode ser automatizado: a relação com o paciente. A professora aposentada Denise Juncá, de 73 anos, experimentou as vantagens e os limites dessas ferramentas durante uma viagem aos Estados Unidos, em julho deste ano. Com sinusite, otite e uma inflamação no olho, ela recorreu ao atendimento on-line oferecido pelo seguro-saúde. O médico conversou com ela por telefone, pediu uma foto e, após ouvir os sintomas, enviou a receita diretamente para uma farmácia. A experiência foi prática, mas reforçou sua preferência pela consulta presencial. — A tecnologia facilita muita coisa. Você não precisa se deslocar e perder tempo no trânsito. Mas eu ainda acho que nada substitui o cara a cara. É diferente chegar, conversar e ter alguém olhando para você — diz. A digitalização da medicina substituiu parte das tarefas feitas à mão e facilitou o acesso ao histórico clínico. Mais recentemente, novas ferramentas passaram a automatizar atividades e organizar dados, abrindo outras possibilidades para o atendimento. Ronaldo Gismondi, diretor médico de Produtos Digitais da Afya e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), conta que, antes dos prontuários eletrônicos, recorria a marcações em vermelho e verde no papel para destacar informações importantes que não podia esquecer. Com os sistemas digitais, ficou mais fácil acompanhar a evolução clínica e retomar questões pendentes, sobretudo quando o paciente demora a voltar ao consultório. — Você às vezes atende uma pessoa uma vez por ano, e é difícil lembrar de todo mundo. Essas ferramentas permitem fazer um histórico rápido, mostrar os pontos importantes mais recentes e recuperar o que ficou pendente — afirma. No Grupo Samel, em Manaus, a médica Emilyn Guerreiro utiliza uma ferramenta integrada ao prontuário eletrônico. O sistema organiza informações clínicas ao longo das diferentes etapas do atendimento. A profissional, porém, ressalta que a tecnologia não substitui seu julgamento: cabe a ela avaliar as informações e decidir como utilizá-las. — Sobrou tempo para eu fazer o que só o humano é capaz de fazer: o olho no olho, um exame físico adequado, a empatia de ouvir e escutar melhor o meu paciente, e deixar a parte burocrática mesmo para uma máquina realizar — afirma. A possibilidade de liberar o médico de tarefas administrativas ganha relevância diante do tempo dedicado aos registros. Um estudo publicado há cerca de uma década na revista americana Annals of Internal Medicine, que acompanhou 57 médicos durante 430 horas de trabalho, mostrou que eles dedicavam, à época, 27% do dia ao contato direto com pacientes, enquanto 49,2% eram destinados a prontuários eletrônicos e outras atividades de mesa. Mesmo na sala de exame, 37% do tempo era gasto diante do computador, contra 52,9% em contato clínico direto. Uma experiência recente nos Estados Unidos sugere que a tecnologia pode ajudar a mudar essa dinâmica. Na The Permanente Medical Group, ligada à Kaiser Permanente, um dos maiores sistemas integrados de saúde sem fins lucrativos do país, 7.260 médicos utilizaram uma ferramenta de inteligência artificial em cerca de 2,58 milhões de consultas, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. O recurso preparou rascunhos dos registros clínicos e gerou uma economia estimada de quase 16 mil horas de trabalho. Em pesquisa com 118 pacientes, 47% disseram que o médico passou menos tempo olhando para a tela, e 39% perceberam mais conversa direta. Entre 102 médicos ouvidos, 84% relataram impacto positivo na interação com os pacientes. Reduzir o tempo diante da tela, no entanto, não resolve sozinho o desafio de documentar as informações clínicas. Se o excesso de anotações pode afastar o médico do contato direto, deixar de registrar o atendimento para focar no contato com o paciente também compromete a continuidade do cuidado. A experiência de Julia Costa, de 30 anos, formada em relações públicas e moradora de São Paulo, ilustra esse dilema. Em uma consulta de rotina com um ginecologista, no fim do ano passado, ela foi bem recebida, mas o médico não fez anotações durante a conversa. Ao final, avisou que, no retorno, precisaria perguntar tudo novamente. — Ouvir que precisaria repetir tudo me desanimou. Tanto que não voltei. É desconfortável estar em uma consulta em que o médico concentra toda a atenção no computador e pouco olha para o paciente, mas também é preocupante sair de um atendimento sem que as informações tenham sido devidamente registradas. O histórico é importante e existe o risco de, em um novo atendimento, eu me esquecer de mencionar alguma informação que já havia compartilhado — diz. Além do consultório A telemedicina, utilizada por Denise em sua viagem, ganhou espaço durante a pandemia de Covid-19 e permaneceu como alternativa para consultas de acompanhamento, avaliação de exames e outras situações que não exigem necessariamente a presença física do paciente. Em regiões distantes dos grandes centros, pode aproximar especialistas de pessoas que teriam dificuldade para chegar a um serviço de referência. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), Raphael Marcon, chefe do grupo de coluna do Instituto de Ortopedia e integrante do Conselho de Saúde Digital da instituição, diz que projetos de telemedicina continuam em desenvolvimento. Além dela, há a chamada tele-UTI, em que especialistas prestam apoio remoto a equipes de outros hospitais, discutem condutas e ajudam a avaliar pacientes que talvez precisem ser transferidos. — Depois da pandemia, vimos que eram projetos que valia a pena manter. Hoje, temos a meta de chegar a 30% dos atendimentos por telemedicina. Muitos pacientes vêm de longe ao hospital apenas para conseguir um pedido de exame ou uma receita. Com a telemedicina e a receita digital, conseguimos resolver essas demandas sem que eles precisem se deslocar — afirma. A tecnologia também alcança etapas mais complexas do cuidado. Na ortopedia e na cirurgia da coluna, Marcon explica que sistemas de inteligência artificial e aprendizado de máquina podem analisar exames de imagem, apoiar cálculos e sugerir estratégias cirúrgicas. Em alguns casos, o planejamento envolve hastes e parafusos personalizados para a anatomia do paciente, além de robôs que auxiliam a execução da cirurgia. — As ferramentas disponíveis hoje economizam tempo naquilo que era um serviço braçal, para que você se dedique àquilo que é essencial, que é o cuidado e a atenção ao paciente. Em uma cirurgia complexa, por exemplo, a tecnologia pode ajudar nos cálculos e no planejamento, mas é o médico quem precisa verificar se a proposta faz sentido para aquela pessoa. Esse tempo que deixa de ser gasto em tarefas manuais pode ser usado para lidar com os medos, as angústias e as ansiedades da pessoa — afirma. Com a ampliação das ferramentas digitais, os pacientes também terão mais maneiras de buscar informações e escolher profissionais. Para Gismondi, a capacidade de aliar conhecimento técnico à qualidade da relação com quem procura atendimento será cada vez mais importante. — O paciente terá mais opções, mas também terá mais dificuldade para identificar quem reúne bagagem técnica e quem se destaca pela capacidade de estabelecer uma relação humana. Acredito que esse será o pote de ouro para quem quiser atender — conclui.
A consulta médica na era digital: o que muda na relação entre médicos e pacientes
Fonte da notícia:
O Globo
O Globo
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site O Globo