Há variados fatores que podem explicar a espetacular vitória de Lula no segundo turno — as medidas anunciadas às vésperas do pleito, a alta rejeição ao opositor, o medo difundido entre grupos vulneráveis, a propaganda do horário eleitoral gratuito. Tudo isso naturalmente renderia votos ao petista, mas não o suficiente para a inédita virada em apenas 21 dias.
O que fez a diferença foi uma mudança de estratégia na etapa final da campanha. O PT apostou na militância digital, criou o canal Exército do Lula e, de maneira coordenada, passou a distribuir tarefas, ditar aos seguidores a forma como deveriam se manifestar nas redes, enumerar os fatos que deveriam ser impulsionados ou ignorados, orientar sobre como confrontar os adversários, convocar manifestações e vigílias, além de divulgar boatos e notícias falsas.
No domingo 25, no discurso feito logo depois da apuração que lhe conferiu o quarto mandato, Lula rendeu uma homenagem especial ao “companheiro” e “general” da tropa que, segundo ele, foi decisivo para a conquista da reeleição e será de agora em diante uma referência para a área de comunicação do governo.
PASSADO - O parlamentar: acusações pesadas ao petista e ao partido que agora quer filiá-loLucas Lacaz Ruiz/. Saudado pelos petistas como “guerreiro do povo brasileiro”, o deputado federal André Janones, o “general”, estava ao lado do presidente durante o discurso e foi um dos poucos personagens citados nominalmente pelo petista.
O presidente foi derrotado por Flávio Bolsonaro no primeiro turno por uma diferença de 2,2 milhões de votos. Uma virada, além de não ter precedente, parecia muito difícil, já que os votos potencialmente em disputa eram os dos candidatos que ficaram pelo caminho e os dos eleitores que não haviam comparecido às urnas.
Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema declararam apoio ao candidato do PL. Os índices de abstenção também não costumavam variar muito entre uma e outra etapa da eleição.
Para inverter o resultado, Lula ainda precisava avançar sobre o eleitorado do próprio Flávio Bolsonaro. Diante de uma derrota que parecia iminente, o PT deu carta branca ao Exército do Lula.
“Falaram que nunca alguém que perdeu no primeiro turno poderia virar no segundo turno. (…)Eles esqueceram que do lado de cá estava o maior líder popular da história deste país: Luiz Inácio Lula da Silva!”
André Janones, em 2026 Continua após a publicidade
Em menos de vinte dias, o canal criado no WhatsApp por Janones reuniu 10 milhões de seguidores e cumpriu missões que se revelaram fundamentais para a virada. A estratégia não foi muito diferente da que levou o bolsonarismo a se consolidar como força no território digital a partir de 2018.
Janones incentivou militantes a massificar a divulgação de medidas populistas, como o perdão das dívidas dos microempreendedores, impulsionar promessas, como a aprovação da PEC da segurança pública, e difundir mentiras, como a suposta intenção do filho de Bolsonaro de destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil.
A novidade é que o deputado centralizou tudo e ensinou à militância técnicas para atrair audiência e impulsionar conteúdos nas redes sociais. Em outras palavras, cada “soldado” foi transformado em um microinfluenciador, orientado pelo “general” a reproduzir conteúdos sobre temas predeterminados.
O governo Lula era uma roubalheira e só a bandidagem do PT tinha acesso a isso. (…) Por isso ele ficou no poder dezesseis anos, aparelhando o Estado, beneficiando os apaniguados.
Essa quadrilha assaltou o Brasil.” André Janones, em 2022 É impossível estimar quantos votos esse método produziu, mas os especialistas não têm dúvidas sobre a eficácia.
“A estratégia organizada, com características orgânicas, envolvendo a apropriação dos mecanismos de funcionamento da mídia social, conseguiu sedimentar o voto em Lula, mobilizar o eleitor a ir votar e desestabilizar a intenção de voto em Flávio Bolsonaro”, explica Raquel Recuero, professora da Universidade Federal de Pelotas e coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes.
A Quaest desenvolveu um algoritmo para medir o índice de engajamento, mobilização e interesse despertado pelos candidatos à Presidência em sete grandes plataformas digitais. No dia do primeiro turno, Flávio Bolsonaro marcava 80 pontos, numa escala que vai até 100, contra 70,7 de Lula (veja a arte na pág.
35). Nas urnas, o senador chegou à frente, com uma vantagem de 2,2 milhões de votos.
Nos quatro dias seguintes, quando Janones passou a centralizar a estratégia do petista e turbinar “missões” no canal Exército do Lula, a popularidade digital do presidente saltou 12,6 pontos, para 83,3, ultrapassando o rival, cujo índice somava 80,4 pontos àquela altura. Desde então, Lula não perdeu mais a dianteira na medição e chegou à véspera do segundo turno com 82,7 pontos, contra 76,2 do senador, que acabou derrotado por uma margem de 4,4 milhões de votos.
“A mobilização de rua da esquerda aconteceu simultaneamente nas redes, especialmente pelo engajamento coordenado pelo Janones”, afirma Felipe Nunes, o CEO da Quaest. Continua após a publicidade
ENGAJAMENTO - Demonstração de força: mobilizações gigantes ganharam tração na reta final da campanhaGustavo Basso/NurPhoto/Getty Images O empenho do deputado, que chegou a fazer lives de 24 horas ininterruptas para manter a militância mobilizada, valorizou o passe dele dentro do PT.
Filiado à Rede Sustentabilidade, o parlamentar é cotado para assumir um cargo com status de ministro no quarto mandato de Lula, justamente para coordenar a comunicação digital do governo. “Fiz um compromisso com ele (Lula) hoje assim que saiu o resultado.
Perguntei: presidente, o senhor terminou o Lula 2 com quantos por cento de ótimo ou bom na pesquisa? Foi 87%. A missão desse exército é dar a esse homem o último mandato à altura da grandeza dele, não no Brasil, mas no mundo.
Vamos dar para ele 90% de aprovação”, prometeu um nada modesto Janones. O parlamentar também retribuiu os elogios recebidos do presidente.
“Falaram que nunca alguém que perdeu no primeiro turno poderia virar no segundo turno. Esqueceram que do lado de cá estava o maior líder popular da história deste país: Luiz Inácio Lula da Silva!”, disse.
REDES SOCIAIS – Nikolas e Flávio: superados na disputa pelo protagonismoGabriel Silva/RasPress/Estadão Conteúdo/. Continua após a publicidade
EXÉRCITO DO LULA – Posts: trabalho incansável para manter unidos os apoiadores do presidente./.
Essa admiração pelo presidente já foi infinitamente menor na rápida e controversa carreira política do deputado. Ex-cobrador de ônibus que se formou em direito, ele começou a ganhar notoriedade no ambiente digital em 2018, fazendo lives em apoio à greve dos caminhoneiros que paralisou o país no final do governo de Michel Temer.
Logo depois, elegeu-se deputado federal. No Congresso, tenta até hoje rivalizar com o maior influenciador digital da direita, o também deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
Apostando no estilo “sem papas na língua”, ensaiou até uma pré-candidatura à Presidência em 2022. Nesse período, tinha outra opinião sobre Lula e o PT.
“O governo Lula era uma roubalheira e só a bandidagem do PT tinha acesso a isso. (…) Por isso ele ficou no poder dezesseis anos, aparelhando o Estado, beneficiando os apaniguados.
Essa quadrilha assaltou o Brasil”, disse. Logo depois, desistiu da candidatura ao Planalto e apoiou a volta de Lula ao poder.
Continua após a publicidade No ano passado, Janones admitiu ter praticado a notória “rachadinha” em seu gabinete no Congresso, fez um acordo de não persecução penal com a Procuradoria-Geral da República e devolveu aos cofres públicos o dinheiro que havia desviado dos salários dos funcionários.
Essa mácula, porém, não resultou em qualquer constrangimento — nem para ele nem para o PT, que pretende filiá-lo. Muito pelo contrário.
A estratégia do deputado rompeu fronteiras e chamou a atenção de políticos de outros países. Partidos de esquerda da Europa acompanharam o trabalho e, com base nele, criaram canais de comunicação com os eleitores nos mesmos moldes do Exército do Lula, adaptando expressões usadas por Janones para chamar a atenção dos “soldados”, como “explode” e “urgente”.
Agora famoso, o parlamentar, inclusive, já teria sido convidado para trabalhar na campanha do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. A guerrilha digital de Janones ajudou a vencer uma grande batalha e está mais em alta do que nunca.
Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019 Continua após a publicidade
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