A aposta bilionária da Nvidia que pode ampliar os riscos de uma bolha de IA

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Há muitas razões para acompanhar de perto a abertura de capital da Anthropic, criadora do assistente de inteligência artificial Claude, que deve estrear na Nasdaq até o fim de novembro. A principal, claro, é o tamanho.

A empresa busca captar cerca de 100 bilhões de dólares em uma só tacada. Se conseguir, fará o maior IPO da história, à frente da SpaceX, que levantou quase 86 bilhões em junho.

Enquanto a companhia de Elon Musk mistura rede social, foguetes, internet por satélite e inteligência artificial, a Anthropic tem um negócio só, dedicada que é a desenvolver grandes modelos de linguagem e outras ferramentas de IA, por isso sua recepção no mercado servirá como um termômetro mais claro da indústria.

Mas um detalhe da operação preocupa a ala de Wall Street que teme estar no meio de uma nova bolha de tecnologia. A Anthropic deve contar com investidores-âncora, que se comprometem a comprar uma fatia das ações antes da estreia, prática rara nos Estados Unidos, e entre eles deve estar a Nvidia, que negocia aportar 10 bilhões de dólares de saída.

Data center em construção em Piketon, Ohio: a Nvidia atua como fiadoraBrian Kaiser/Bloomberg/Getty Images Para a empresa que abre o capital, o investidor-ân­cora vale como um seguro contra a falta de compradores.

Para o mercado, é um sinal de confiança de quem aposta antes de todo mundo. A prática é comum em outras partes do mundo e costuma ser bem recebida quando o âncora conhece o setor de perto.

Foi o caso da britânica Arm, que estreou em 2023 com dez empresas do seu ecossistema como âncoras, Nvidia incluída. Suas ações subiram quase 400% desde então.

Com a Anthropic, o vínculo é ainda mais estreito, porque a Nvidia fabrica os chips que rodam parte dos modelos da empresa e já investe nela desde 2025. “Para os potenciais investidores da Anthropic, o envolvimento da Nvidia é um atestado de que ela acha o negócio bom”, diz o economista Jay Ritter, professor da Universidade da Flórida e especialista em IPOs.

“Para a Nvidia e seus investidores, o negócio é uma garantia de que um de seus maiores clientes vai continuar comprando seus chips.” <span class="hidden">–</span>./.

Continua após a publicidade O cheque na Anthropic é só o elo mais recente da corrente em que a Nvidia se coloca cada vez mais entrelaçada com as outras empresas do ecossistema de IA.

Em agosto, a companhia firmou parceria com seis gigantes de Wall Street, entre eles BlackRock, Goldman Sachs e KKR, para mobilizar mais de 500 bilhões de dólares em financiamento a quem compra seus equipamentos. Os chips viram garantia dos empréstimos, e a Nvidia cobre até um quarto do valor se eles se desvalorizarem.

Uma semana depois, virou fiadora, em até 105 bilhões de dólares, do aluguel e da energia de um data center que a OpenAI vai ocupar em Ohio e que usará só processadores da marca. Às neoclouds, empresas que alugam capacidade de computação, a Nvidia prometeu garantir a receita até um certo piso por cerca de seis anos.

E ainda soma 99 bilhões de dólares em participações em startups e laboratórios de IA, cifra que deve aumentar com investimentos na Reflection AI, uma de suas clientes, e da d-Matrix, sua rival em chips. Somados, os compromissos com clientes bateram 189 bilhões de dólares ao fim do segundo trimestre, quase treze vezes o valor do início do ano.

“O mercado está reticente em investir em data centers, e a Nvidia está com dinheiro de sobra”, avalia Dan Nishball, analista na consultoria SemiAnalysis, especializada na indústria de chips. “Com caixa cheio, grau de investimento alto e um entendimento raro da própria indústria, faz sentido que ela aposte no crescimento desse mercado.”

Lucent, uma líder no fim dos anos 1990: prejuízo com o estouro da bolha pontocomJames Leynse/Corbis/Getty Images Continua após a publicidade

A estratégia é clara. Os gigantes Amazon, Google, Microsoft e Meta respondem por cerca de metade da receita da Nvidia, mas estão investindo pesado para conseguir desenhar seus próprios chips a fim de fugir das margens médias de 75% que a Nvidia consegue cobrar sobre seu ainda inigualável produto.

O Google já vende seus processadores a terceiros, entre eles a Anthropic. Além de mais baratos, eles são feitos sob medida para usos específicos de cada cliente, e as projeções de mercado apontam que eles podem morder metade da demanda mundial até o fim da década, ante 28% atualmente.

A saída de Jensen Huang, fundador e presidente da empresa, é cultivar compradores novos, como neoclouds e laboratórios de IA, que têm fome de chips, mas não contam com crédito barato. Ao financiá-los, a Nvidia tenta contratar uma demanda de longo prazo e cavar um fosso em torno do negócio.

A Anthropic é um caso exemplar. Seu prospecto vazado mostra que os maiores contratos de computação são com Google, Amazon e Broadcom.

A Nvidia aparece só por meio de parceiros, como a Microsoft. Por enquanto.

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O medo dos pessimistas está no que pode acontecer se a demanda esfriar. Quando um fornecedor financia quem compra dele, o mercado chama de financiamento circular.

Não é um mal em si: as montadoras de carro fazem leases e financiamentos para motoristas há décadas. O dinheiro sai da empresa, passa pelo cliente e volta como receita.

A máquina gira enquanto tem combustível. No fim dos anos 1990, a americana Lucent comprometeu cerca de 8 bilhões de dólares em empréstimos a operadoras de telecomunicações que compravam seus equipamentos de infraestrutura de internet.

Quando a bolha pontocom estourou, dezenas de seus clientes quebraram em sequência, e a Lucent amargou 3,5 bilhões de dólares em calotes. Mas a escala aqui é outra.

A Lucent arriscou bilhões. A Nvidia está apostando centenas de bilhões na promessa de que a IA só vai crescer.

E se não acontecer? A diretora financeira da Nvidia, Colette Kress, resume o modelo em uma frase: “Somos pagos duas vezes”.

A empresa ganha ao vender os chips às neoclouds, por exemplo, e recebe de novo com o que elas cobram pelo uso desses chips a terceiros. Elas topam porque a Nvidia assume o risco ao garantir uma receita mínima com o aluguel de capacidade computacional e, em troca, fica com metade do que passar desse piso.

Com os laboratórios a lógica é outra. Cerca de um quarto das vendas do próximo ano fiscal deverá vir deles, que ela própria ajuda a financiar, evitando que corram para a concorrência.

O risco é perder duas vezes. “Se alguns desses clientes vacilarem, a Nvidia não só perde receita com a venda de produtos, como pode perder dinheiro com o empréstimo ou com o investimento”, explica Billy Leung, analista de investimentos da Global X Management.

As garantias são acionadas justamente quando as vendas caem. O primeiro sinal de cautela a respeito do modelo veio em outubro.

A australiana Firmus, a maior beneficiária dos pisos de receita da Nvidia, desistiu de uma oferta de ações que buscava captar 5 bilhões de dólares, alegando condições desfavoráveis de mercado. Na verdade, foi o mercado que desconfiou das condições da empresa.

Dias depois, as ações da CoreWeave, a maior das neoclouds, chegaram a cair 15% no dia em que o rendimento de seus títulos de dívida no mercado se aproximou de 15% ao ano. A Nvidia tem participação na empresa e se comprometeu a comprar a capacidade que ela não conseguir vender.

O risco está sendo precificado pelo mercado, e não fica só com a Nvidia. Sozinha, ela responde por 8% do índice S&P 500, o que expõe fundos de índice e planos de previdência.

Continua após a publicidade Dario Amodei, da Anthropic: a Nvidia é sua investidora e fornece chips onde roda a IAMichael M.

Santiago/Getty Images No papel, a Nvidia tem fôlego de sobra.

Seu valor de mercado alcançou um pico de 5,8 trilhões de dólares em 6 de outubro. Gerou 70 bilhões em caixa livre no primeiro semestre fiscal e anunciou a maior recompra de ações da história americana, de 150 bilhões.

Uma análise mais profunda, porém, mostra que a folga é menor do que parece. Se os 35 bilhões aplicados em participações em clientes e parceiros forem tratados como investimento, o caixa livre cai pela metade.

A própria Nvidia admitiu isso ao prometer devolução de caixa aos acionistas com o que sobrar desse capital “descontados os usos estratégicos”. Para bancar a recompra, a dívida de longo prazo cresceu quase 25 bilhões de dólares no período.

“É dinheiro que poderia ter ido para os acionistas”, afirma Leung. Questionado sobre o caráter circular dos acordos, ele respondeu: “Eu coloco 1 dólar e voltam 100.

Se isso é circular, vamos fazer mais”. Se o ciclo da IA seguir em alta, a Nvidia terá erguido uma muralha em torno do negócio.

Se virar, a empresa mais valiosa do mundo terá trocado um problema de vendas por um problema de crédito. Continua após a publicidade

Publicado em VEJA, outubro de 2026, edição VEJA Negócios nº 31 Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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