1.540 quilos por hectare, 3 vezes a média do Brasil: Cocos, terra da soja no Oeste da Bahia, colhe 6,6 vezes mais cacau por hectare que Ilhéus

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Em Cocos, no Oeste da Bahia, quem passa pela estrada vê soja e algodão até o horizonte. Mas é ali que o cacau está rendendo mais do que na terra que fez a fama do chocolate baiano.

Em 2025, a cidade colheu 1.540 quilos de amêndoa de cacau por hectare, mostra a Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE. A média do Brasil ficou em 505 quilos por hectare.

Na prática, cada hectare de Cocos rendeu 3 vezes o hectare médio do país. Em Ilhéus, berço do cacau baiano, foram 233 quilos: Cocos tirou 6,6 vezes mais cacau do mesmo pedaço de chão.

O levantamento foi feito pelo portal MATOPIBAFAZ com base na PAM e publicado pelo Bahia sem Fronteiras nesta quarta-feira (4). Os números batem com a tabela 1613 do IBGE.

A lavoura de cacau de Cocos é pequena. Foram 311 hectares colhidos e 479 toneladas de amêndoa no ano, um valor de produção de R$ 19,3 milhões, pelos dados do IBGE.

Não foi sorte de um ano só. Em 2024, a cidade já tinha colhido 1.500 quilos por hectare.

O rendimento subiu de novo em 2025, enquanto a área encolheu de 320 para 311 hectares. Para quem pensa em arroba, a conta fica assim.

A arroba de cacau tem 15 quilos, então 1.540 quilos dão cerca de 103 arrobas por hectare (conta nossa). O vizinho Riachão das Neves também aparece forte na tabela.

Lá, o cacau rendeu 1.475 quilos por hectare em 2025, numa área de 80 hectares. Pelo levantamento do MATOPIBAFAZ, Cocos respondeu por 53% das 905 toneladas de cacau contadas na região do Matopiba, que junta áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

A diferença entre o Oeste da Bahia e o Sul começa no jeito de plantar. No Sul da Bahia, o cacau cresce na cabruca, à sombra de árvores nativas da Mata Atlântica.

O sistema guarda floresta em pé, mas produz pouco por hectare. No Cerrado, a aposta é o cacau a pleno sol, com clones selecionados e água controlada.

Segundo a Embrapa, o cacau a pleno sol e irrigado já alcançou um potencial de 3.000 quilos por hectare. O pesquisador Tadeu Graciolli, da Embrapa Cerrados, citou o Oeste da Bahia como a região onde o cacau chegou ao Cerrado com mais força.

Dos sete mitos que travavam o cacau fora da região tradicional, seis já caíram, disse ele: entre eles, o de que a planta precisaria de sombra para produzir. O ar mais seco ajuda.

As doenças mais temidas do cacau, como a vassoura-de-bruxa, gostam de umidade. “Fungo não gosta de ambiente com umidade relativa baixa”, explicou o professor George Sodré, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), ao Movimento Econômico.

A vassoura-de-bruxa, identificada na Bahia em 1989, derrubou a produção da região cacaueira. No Cerrado, o grupo Santa Colomba começou a testar variedades de cacau em Cocos em 2017, segundo o Bahia sem Fronteiras.

Em setembro, a Câmara Setorial do Cacau se reuniu na sede da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), em Barreiras, e visitou lavouras da região. “Temos aqui cacau com mais de cinco anos, também recém-plantado a pleno sol”, disse o presidente da Aiba, Moisés Schmidt, ao Movimento Econômico.

No vídeo da Aiba publicado em 22 de outubro, a associação mostra essa reunião e o cultivo a pleno sol no Cerrado, com depoimentos de técnicos da Ceplac, de secretarias de agricultura e de produtores. Cocos é terra de soja.

Em 2025, a cidade colheu soja em 18.190 hectares, com valor de produção de R$ 138,5 milhões, mostra a tabela 1612 do IBGE. Dividindo o valor pela área, o hectare de soja gerou cerca de R$ 7,6 mil em 2025.

O hectare de cacau gerou cerca de R$ 62 mil, perto de 8 vezes mais (conta nossa). Esse número é o valor bruto da produção, o dinheiro da colheita antes dos custos, e não lucro, porque cacau irrigado pede muda, água, energia e muita mão de obra.

E a soja segue mandando no município. A área de soja é 58 vezes maior que a de cacau, e o dinheiro total da soja foi 7 vezes o do cacau em 2025 (conta nossa).

O algodão fica no meio do caminho. Foram 6.871 hectares e R$ 127,3 milhões, cerca de R$ 18,5 mil por hectare (conta nossa, com dados do IBGE).

A Aiba tem mostrado gente que largou outra profissão para plantar cacau na região. Num episódio do programa Aiba em Ação, publicado em julho, a associação conversa com um médico que decidiu apostar no cacau no Oeste baiano.

O preço do cacau caiu desde o ano passado. No fechamento de 4 de novembro, a arroba do cacau convencional na Bahia valia R$ 288, segundo a cotação do Mercado do Cacau publicada pelo Notícias Agrícolas.

Com esse preço, o hectare médio de Cocos vale perto de R$ 29,6 mil na porteira: são 103 arrobas a R$ 288 (conta nossa). O hectare médio de Ilhéus, com 15,5 arrobas, renderia cerca de R$ 4,5 mil no mesmo preço.

A diferença passa de R$ 25 mil por hectare (conta nossa). O tombo do preço aparece na própria tabela do IBGE.

Em 2025, o cacau de Cocos saiu, na média, a R$ 40,29 o quilo. Em 2024, tinha saído a R$ 45 (conta nossa: valor dividido pela produção).

Hoje, R$ 288 por arroba dá R$ 19,20 o quilo. É menos da metade da média de 2025 (conta nossa).

Mesmo assim, o hectare de cacau de Cocos ainda renderia quase 4 vezes o valor bruto do hectare de soja de 2025. Ainda não é a primeira.

Entre as cidades com pelo menos 100 hectares colhidos em 2025, Cocos ficou em 5º lugar no país, pelos dados do IBGE. À frente estão três cidades de Rondônia e uma do Espírito Santo.

A primeira é Machadinho D’Oeste (RO), com 1.921 quilos por hectare. Depois vêm Buritis (RO), Rio Bananal (ES) e Ouro Preto do Oeste (RO).

Na Bahia, Cocos tem o 2º maior rendimento entre 116 cidades com cacau na tabela. Só perde para Itaberaba, que tirou 2.440 quilos por hectare, mas em apenas 50 hectares.

E o teto ainda está longe. Segundo a Secretaria da Agricultura da Bahia (Seagri), citada pelo Movimento Econômico, fazendas do Oeste já alcançam de 3.000 a 3.500 quilos por hectare.

A média de Cocos ainda é metade disso. O cacau a pleno sol tem inimigos que a cabruca não tem.

O primeiro é o vento. “Não se planta cacau sem proteger do vento.

O cacau morre de medo de vento”, resumiu George Sodré ao Movimento Econômico. Por isso, banana, coco e mamão costumam ser plantados junto no começo, como quebra-vento e sombra provisória, e depois essa proteção é retirada.

O calor seco traz outro risco: a viviparidade, quando a semente começa a germinar dentro do próprio fruto. Isso estraga a amêndoa e pode inviabilizar o processamento, alertou o professor.

A dúvida que falta responder é quanto tempo o cacaueiro a pleno sol vai durar. “É uma tecnologia nova e só o tempo vai mostrar”, disse Graciolli à Embrapa.

Ele mesmo faz a conta do produtor: “Mas mesmo que tenha menor longevidade, se ela entregar o que tem sido observado de produtividade, já terá se pagado”. Há ainda a monilíase, doença do cacau que já tem foco no Norte do país e não chegou à Bahia.

Em abril, a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) fez um curso de prevenção em Riachão das Neves, com visita a lavouras a pleno sol, informou a Aiba. Para o produtor de Cocos e do Oeste da Bahia, o recado da tabela é simples.

A terra da soja provou que sabe colher cacau. O que vai decidir o bolso é o preço da arroba e o tempo de vida do pé.

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