Xênia França e Eliana Alves Cruz participam de evento gratuito na Biblioteca Parque

 

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Shhhh... Silêncio, você está entrando em uma biblioteca. Agora, imagine um espaço com salas de dança, estúdio de música, laboratórios criativos, teatro e auditório, além de livros, é claro. E tudo isso à disposição do povo? É isso que o projeto Parque de Ideias promove há 4 anos, com uma agenda gratuita que faz parte da revitalização da Biblioteca Parque Estadual, na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio. Em comemoração aos quatro anos de sucesso do projeto, com mais de 50 apresentações e quase 2 mil horas de cursos, o projeto apresenta hoje uma conversa com a premiada escritora Eliana Alves Cruz, às 14h30, autora de livros como “Meridiana” e “A Vestida”, vencedora do Prêmio Jabuti 2022 e indicada ao International Emmy Awards 2024.

A conversa com a escritora vai partir da indicação de dez livros fundamentais para a sua formação como leitora e autora. As obras indicadas por ela passarão a integrar o acervo da Biblioteca Parque Estadual. Com essa iniciativa, o projeto já doou mais de 300 livros à Biblioteca, sempre a partir da indicação de convidados que são grandes nomes da cultura brasileira.

Eliana é reconhecida como uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea, marcada por abordar as raízes da ancestralidade afro-brasileira, articulando ficção, memória e história com sensibilidade e rigor. Para ela, a iniciativa de levar autores para espaços como a Biblioteca Parque Estadual é crucial.

— As bibliotecas estão na história da humanidade e em um país como o Brasil, de tamanho continental, elas se tornam um lugar formador, de encontro comunitário e debates de ideias. Por isso, levar autores à elas tira o silêncio, trazendo as vozes de dentro dos livros personificadas em quem as escreve. Isso é muito fascinante.

Eliana Alves Cruz e a capa do seu livro 'Meridiana'

Divulgação

Além da conversa com Alves Cruz, quarta-feira, dia 20, às 18h, a programação também conta com um show da cantora e compositora Xênia França inspirado no livro "Tudo Sobre o Amor", da escritora americana Bell Hooks. O espetáculo reúne canções dos dois álbuns da artista e conta com composições inéditas frutos de uma pesquisa sobre samba, jazz e as reflexões de Bell Hooks. Em formato intimista, com voz e piano, Xênia canta um repertório sobre o amor e as vivências femininas.

— Quando estamos juntos ali, 1 hora, 2 horas, quero que a gente reflita juntos o que é realmente o amor. Quantas tentativas já foram feitas de explicar o amor através da canção, não é? Depois de grande, depois de artista e depois de não só ler, mas de ser testemunha da forma que as mulheres são tratadas, eu posso dizer que concordo com Bell Hooks, o amor é mais do que tudo, um ato político — conta.

Capa do álbum 'Em Nome da Estrela' de Xênia França

Divulgação

No mesmo dia, a poeta Stephanie Borges responsável pela tradução da obra de Hooks, ministra a palestra “Sobre o amor e Bell Hooks”, às 15h, com reflexões sobre o amor como prática ética, política e coletiva. Borges é autora de "Talvez precisemos de um nome para isso", que recebeu o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura. Para ela, a relação com a literatura da autora americana vai muito além da tradução.

— Tenho muito orgulho de ter traduzido a Hooks, ela também foi uma grande influência na escrita da minha poesia, apesar de sua própria poesia não circular muito. O que ela fala sobre a importância da escrita como autoconhecimento, como uma maneira da gente se colocar no mundo em relação aos outros, de tentar construir comunidades e relações para que o mundo se torne menos desigual e melhor de se viver, é uma coisa que me inspira muito enquanto poeta.

A tradutora da obra de Bell Hooks, Stephanie Borges. Ao lado, a capa seu livro 'Talvez precisemos de um nome para isso'.

Divulgação

Com os bem-sucedidos quatro anos de projeto, o idealizador, curador e produtor Marcio Debellian pretende dar continuidade à agenda com toda a força. Ele faz questão de reafirmar o compromisso do Parque de Ideias em posicionar a Biblioteca, não apenas como uma biblioteca, mas como um centro cultural.

— Existe o lado da biblioteca, com um ótimo acervo, com o silêncio da leitura, mas, ao mesmo tempo, ali tem um teatro que abriga peças que estão bem cotadas e que são de interesse do público. É uma vitória reabrir um teatro, um equipamento cultural que é uma joia que a gente tem no Rio de Janeiro, que pouca gente conhecia e que está sendo devolvido gradativamente à população — afirma. — Muita gente vem ao teatro aqui pela primeira vez na vida. O que propormos é um espaço de convergência de linguagens, para pensar a literatura em diálogo com o teatro, com a música. A leitura pode ser solitária, mas ela também pode ser compartilhada. Ler um autor e ter com quem conversar sobre ele significa aprofundar mais ainda essa leitura. Queremos esse espírito na Biblioteca — acrescenta.

Biblioteca Parque Estadual

Márcia Foletto/Agência O Globo

Uma história de resistência, um espaço de conivência

A Biblioteca Parque Estadual é a maior biblioteca pública do Rio de Janeiro com mais de 150 anos de história. Ela foi concebida originalmente em 1873 e inaugurada por Dom Pedro II. Já o prédio atual foi inaugurado em 1987, fechado em 2008 para obras, reinaugurado em 2014 — com a conclusão do projeto original do espaço, inspirado no modelo colombiano de Parque —, novamente fechado em 2016 e, finalmente, reaberto em 2018, quando passou também a abrigar a Secretaria de Cultura do estado.

Em 2022, após o período de confinamento da pandemia, o Parque de Ideias chegou junto, somando à biblioteca uma programação inteiramente gratuita com grandes artistas e professores apresentando seus trabalhos para um público popular. A ideia estava sendo desenvolvida desde 2018 por Debellian, que em um passeio pela Presidente Vargas se chocou com paisagem da Biblioteca completamente apagada.

— Eu penso muito no período que a Biblioteca ficou fechada e que isso não pode vir a acontecer novamente. Não dá para a lógica ser: 'ah, teve uma crise, então fecha uma biblioteca'. A gente tem que saber que esse é um equipamento importante e usufruir dele, para que ninguém pense que ele pode ser fechado. Ele tem que estar aberto, bem cuidado, para que as pessoas possam descobrir novos mundos ali.

Biblioteca Parque no centro da cidade

Pedro Kirilos/Agencia O Globo

Desde a estreia, o teatro da Parque Estadual recebeu mais de 50 apresentações, entre peças, shows, debates e oficinas com nomes consagrados como Adriana Calcanhotto, Conceição Evaristo, Gregório Duvivier, Claudia Abreu, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Antonio Cicero, Ana Maria Gonçalves e Socorro Acioli. O Parque de Ideias também ofereceu quase duas mil horas de cursos com professores renomados como Ruy Castro, Luiz Antonio Simas e Adriana Falcão.

Assim como a biblioteca digital do Brasil lançada pelo Ministério da Educação, o MEC Livros, esse tipo de contato e iniciativa são, para Eliana Alves Cruz, extremamente importantes para a formação de leitores do país.

— Eventos como esse, que popularizam, democratizam e encaram a leitura como um direito humano e essencial na formação de jovens, adultos e crianças, são necessários para formar mais e melhores leitores. Precisamos de inciativas que tratem a leitura como algo que deve estar incorporado aos nossos hábitos comuns, de dia dia, até para tratar questões contemporâneas como a ansiedade — afirma, Alves Cruz. — A leitura tem um poder calmante. A gente começa a imaginar outro mundo a partir do que se lê. Mesmo triste ou trágica, não é a sua história. É possível trabalhar a imaginação e o deslocamento, e então pensar sua realidade de uma outra maneira — conclui.

Para dar continuidade na formação dos mais diversos leitores e futuros autores, o Parque de Ideias tem planos para o futuro. Fora da capital carioca, além da programação anual em Nova Friburgo, que ocupa o Teatro Municipal da Cidade e a Usina Cultural Energisa com peças, shows e cursos, Debellian conta que também quer conquistar espaço na capital paulista.

— A gente também está tentando levar o projeto para São Paulo. É um desejo fazer o Parque de Ideias na Biblioteca Mario de Andrade.

Biblioteca Parque Estadual

Guito Moreto / Agência O Globo

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